A ilha iemenita capturada pelos Houthis que pode mudar a guerra no Irã
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Pisar na ilha iemenita de Perim é reviver a história.
Sua paisagem árida de areia e rocha, semelhante à superfície da lua, parece ser, acima de tudo, a terra que o tempo esqueceu. Sua localização, no entanto, a colocou no centro de um conflito muito moderno.
A ilha de Perim está situada no Estreito de Bab al-Mandeb, um ponto de gargalo geopolítico que ganhou uma importância desproporcional desde que a guerra do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o Irã efetivamente fechou o Estreito de Ormuz.
Para ajudar a manter o fluxo global de energia e os preços baixos, a Arábia Saudita desviou suas exportações de petróleo de Ormuz para o Mar Vermelho.
Mas agora os Houthis do Iêmen, os mais poderosos representantes regionais do Irã, tomaram o controle de Perim na sexta-feira (11) — e, com isso, ganharam a capacidade de impedir a passagem de navios pelo Estreito de Bab el-Mandeb.
Na quinta-feira (10), o grupo armado também capturou a cidade de Mocha, uma cidade costeira crucial a cerca de 80 quilômetros ao norte de Perim.
Poucos dias atrás, uma guarda de honra de tropas iemenitas, aguardando pacientemente sob o sol escaldante, observava enquanto a mão estendida de um oficial experiente ajudava os recém-chegados a Perim a desembarcar de uma embarcação antiga. Uma equipe da CNN estava entre eles, com acesso exclusivo a esse posto avançado no Mar Vermelho.
A cena, reminiscente de uma era passada, provavelmente se repete aqui há séculos. A posição da ilha — no ponto mais fechado de um estreito a cerca de 20 quilômetros do Chifre da África — a tornou valiosa para impérios e potências regionais por gerações. Outrora uma estação de abastecimento de carvão para os navios do Império Britânico que navegavam para a Índia, o passado imperial de Perim ainda é visível em suas antigas ruínas.
Avançando por uma estrada rochosa até o ponto mais alto da ilha, o oficial — com uma mão no volante de seu decrépito caminhão do exército — aponta para a Eritreia e para o Djibuti do outro lado da água, no lado africano do estreito. Veterano de uma brigada leal ao governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, ele sabe que sua missão de defender Perim, também conhecida como Mayyun, agora carrega apostas muito maiores do que antes.
“Agora é geopolítico”
Por mais de uma década, a guerra civil do Iêmen pareceu ser um conflito regional distante. Mas, à medida que os combates se intensificam e os Houthis, apoiados pelo Irã, lançam ataques em direção à costa do Mar Vermelho, essa distinção está desaparecendo.
O Iêmen, com Perim no centro, está se tornando mais uma potencial linha de frente no confronto entre Washington e Teerã, e um lembrete de que as consequências de sua guerra já superaram suas fronteiras.
Os Houthis já controlam a capital do Iêmen, vastas extensões do noroeste do país e grande parte de sua costa no Mar Vermelho, ao norte da ilha.
Se a história serve de guia, Bab al-Mandeb, a via marítima menor que o Estreito de Ormuz e agora uma alternativa crucial a ele, pode ser onde o Irã, por meio de seu representante, aperte ainda mais os parafusos econômicos e políticos sobre Trump, elevando os preços do petróleo e prejudicando as perspectivas republicanas nas eleições de meio de mandato nos EUA em novembro.
“Dissemos ao mundo que este é um projeto iraniano, mas ninguém ouviu os iemenitas naquela época… Agora é (um cenário) geopolítico”, disse Tarik Saleh, vice-presidente do governo iemenita internacionalmente reconhecido, à CNN em entrevista exclusiva.
Saleh, sobrinho do ex-presidente deposto Ali Abdullah Saleh e ex-aliado dos Houthis, é uma raridade entre a classe política do Iêmen: o único líder e comandante militar que permanece dentro do país enquanto muitos outros fugiram.
O vice-presidente afirma ter sobrevivido a várias tentativas de assassinato e diz que o Irã quer sua morte. Os encontros com ele são organizados com pouca antecedência, em locais aleatórios, e terminam rapidamente.
Falando à CNN a partir de uma tenda em uma remota praia iemenita no final de agosto deste ano, Saleh disse que não estava recebendo nenhuma ajuda dos Estados Unidos, “apenas conversas”. Ele alertou que, se os Houthis tomassem a Ilha Perim e assumissem o controle do Estreito de Bab al-Mandeb, “uma força massiva (internacional) e as marinhas seriam necessárias” para expulsá-los.
E agora, eles conseguiram esse controle.
Até mesmo chegar ao arquipélago é uma lição sobre os perigos desta guerra frequentemente assimétrica e de alta tecnologia.
Quando a equipe da CNN partiu para a travessia de três quilômetros a partir do continente, alertas sobre um iminente ataque de drone Houthi forçaram a lancha que transportava a equipe a retornar. Preparando-se para um possível ataque, o artilheiro da canhoneira que levava a equipe disparou um projétil de grosso calibre de sua arma enferrujada.
“Na mesma cama”
A guerra civil do Iêmen começou em 2014, quando os rebeldes Houthis tomaram a capital, Sanaa, e expulsaram o governo internacionalmente reconhecido da cidade. A Arábia Saudita liderou uma campanha militar no ano seguinte para expulsar os rebeldes. Já o Irã forneceu aos houthis armas e treinamento, e agora segue exercendo alguma influência sobre as decisões do grupo rebelde.
O resultado é um país fragmentado, com os Houthis controlando a capital e o noroeste, e o governo e facções aliadas detendo grande parte do sul e do leste. Cerca de 22 milhões de pessoas, aproximadamente metade da população, necessitam de assistência humanitária até hoje no país.
Após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro e a subsequente guerra em Gaza, os Houthis se juntaram ao conflito. Eles lançaram ataques contra Israel em solidariedade aos palestinos em Gaza e atacaram embarcações no Mar Vermelho.
Os EUA e Israel realizaram ataques aéreos e destruíram ativos estratégicos do grupo. Como retaliação, Washington designou os Houthis como grupo terrorista em 2025.
A mais recente ofensiva Houthi contra o governo do Iêmen começou em julho. Ela rompeu uma trégua tácita de quatro anos entre os Houthis e a Arábia Saudita e inseriu o conflito iemenita na guerra mais ampla envolvendo o Irã.
Em uma rara exceção às restrições que impôs sobre o espaço aéreo iemenita desde sua intervenção em 2015, a Arábia Saudita permitiu que um avião de passageiros iraniano pousasse em Sanaa.
A aeronave, o primeiro voo direto entre Teerã e Sanaa em cerca de uma década, transportou então uma delegação Houthi ao funeral de Ali Khamenei, ex-líder supremo do Irã, que foi morto junto com vários membros de sua família nos primeiros ataques aéreos americano-israelenses de 28 de fevereiro.
Mas, quando a aeronave retornou 10 dias depois, a Arábia Saudita negou permissão para pousar em Sanaa, alegando preocupações de que ela também transportava membros do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e equipamentos militares. Aeronaves sauditas atingiram a pista do aeroporto, forçando o avião a desviar para a cidade portuária iemenita de Hodeidah, controlada pelos Houthis.
O episódio tornou-se um ponto de virada, desfazendo a diplomacia que havia preservado em grande parte a trégua informal e interrompido os ataques Houthis ao território saudita.
Em meio ao colapso do cessar-fogo entre os EUA e o Irã, os Houthis revidaram declarando um bloqueio naval contra a Arábia Saudita e ameaçando navios que transportavam exportações sauditas pelo Bab al-Mandeb.
Eles também lançaram mísseis e drones contra a infraestrutura petrolífera, aeroportos e outros locais civis do reino.
O momento da nova ofensiva Houthi pode beneficiar o Irã ao aumentar a pressão sobre Trump. Mohammed Al-Basha, ex-assessor de imprensa do governo iemenita e analista de risco baseado em Washington, DC, descreveu a relação entre Teerã e os Houthis como “não uma relação de submissão, mas eles estão na mesma cama”.
No entanto, observadores alertam contra enquadrar a recente intervenção dos Houthis como mera execução da agenda regional do Irã.
“Os Houthis precisavam de uma guerra como distração dos problemas internos. Eles queriam mostrar que podem pressionar a Arábia Saudita a negociar com eles novamente. E claro, se isso vai ajudar um velho amigo, como o Irã, que em determinado momento foi o único amigo que eles tinham, então por que não?”, disse Farea Al-Muslimi, pesquisador do think tank Chatham House.
Os ataques Houthis a Israel e o enfraquecimento de outros aliados iranianos na região, como o Hezbollah no Líbano, bem como a queda do regime Assad na Síria, elevaram a posição da facção iemenita no chamado eixo de resistência, e os Houthis queriam capitalizar sobre sua nova posição, acrescentou ele.
As autoridades de Sanaa não responderam ao pedido de comentário da CNN. Líderes Houthis mantiveram em declarações anteriores que sua ofensiva atual dentro e fora do Iêmen é em resposta à “agressão e bloqueio sauditas”.
Em uma declaração de quinta-feira (10), Nasr al-Din Amer, chefe da agência de notícias estatal Saba, controlada pelos Houthis, disse à CNN que o objetivo da campanha militar dos rebeldes é “romper o cerco injustamente imposto pelo inimigo saudita há 12 anos”.
Amer afirmou que os Houthis têm controle do Estreito de Bab al-Mandeb e de partes do Mar Vermelho por meio de poder de fogo, dizendo que as operações estão limitadas a embarcações sauditas.
“Também visamos as tropas mobilizadas pelos sauditas para um avanço territorial contra nós e as armas que os sauditas lhes enviam”, disse ele.
Ataques ao porto e pescadores
O fluxo de petróleo pelo Perim já caiu acentuadamente em meio a essa roleta marítima. Três anos atrás, cerca de 10% do comércio mundial de petróleo por via marítima passava pelo Bab al-Mandeb. Dados da Kpler indicam que esse volume caiu pela metade desde então, e uma campanha sustentada dos Houthis poderia bloquear ainda mais a rota.
Os pescadores do Iêmen também são vítimas dos ataques de drones dos Houthis. Dezenas foram retirados de uma ilha ao norte de Perim após um desses ataques matar e ferir várias pessoas, de acordo com autoridades do governo iemenita.
Enquanto pescadores retiravam suas capturas de frágeis barcos de fibra de vidro perto de um mercado improvisado à beira-mar recentemente, vários pararam para conversar com a CNN, reclamando que a guerra está arruinando os negócios.
Em dias normais, disse um comerciante, “haveria muitos navios por aí”, mas “por causa do ataque dos Houthis não há navios agora”.
Crianças brincavam nas ondas mornas do Mar Vermelho. Aparentemente alheias às preocupações de seus pais, disputavam espaço para aparecer nas fotos dos jornalistas visitantes.
Mas a imagem que emerge daqui é a de um país já cansado da guerra, frágil e pobre, sendo empurrado cada vez mais para perto de um ponto de ruptura.
A poucos quilômetros ao longo da costa, as evidências disso estão se acumulando.
O porto de Mocha, a cidade mais ao norte sob controle governamental com relevância no Mar Vermelho, foi duramente atingido. Há algumas semanas, mais de 25 foguetes Houthi atingiram o extenso porto enquanto navios comerciais descarregavam mercadorias, de acordo com o diretor do porto, Abdel Malek Al-Sharaabi.
Na água, navios jazem em ângulos improváveis, enquanto o concreto em terra está marcado por buracos fundos o suficiente para esconder um cachorro grande. Montes de estruturas de motocicletas carbonizadas estão ao lado de pilhas de motores semiderretidos.
Dezesseis pessoas morreram e 22 ficaram feridas naquele dia, disse o diretor do porto à CNN, enquanto seis navios comerciais foram afundados e 14.000 motocicletas foram perdidas. Os Houthis, disse ele, querem destruir a economia.
“O porto tinha um papel importante no desenvolvimento e no comércio”, disse Al-Sharaabi. “Este ataque visa prejudicar esse desenvolvimento e interromper os serviços.”
Ao longo do último ano, os Houthis dispararam repetidamente contra alvos tão distantes quanto Israel, a mais de 1,6 mil quilômetros de distância. Eles afirmam possuir mísseis hipersônicos e têm um arsenal que inclui mísseis antinavio de longo alcance, que rasam a superfície do mar e foram projetados para escapar do radar. Eles também possuem mísseis superfície-ar capazes de abater drones americanos de alta altitude e de ameaçar aeronaves tripuladas.
“Um preço mais alto no futuro”
Nas linhas de frente do Iêmen, os combates entre as forças Houthi e as forças governamentais estão se intensificando. As tropas governamentais estão operando novos drones quadricópteros de primeira pessoa, ou FPV, atacando bunkers Houthi camuflados.
“Nossas tropas melhoraram graças ao treinamento e a novos recursos, como os drones”, disse Saleh à CNN.
Mas, para cada passo dado pelo governo, dizem os funcionários, o Irã tenta manter os Houthis à frente. Uma viagem em um veículo com janelas escurecidas até um armazém fortemente guardado em um local secreto ofereceu um vislumbre desse desafio — e do que o governo afirma ser evidência da escala do apoio iraniano aos Houthis, incluindo o fornecimento de armas capazes de ameaçar o tráfego de petroleiros no Mar Vermelho.
Abdel Nasser El Mamlouh, o diretor da operação de mídia militar de Saleh, guiou a CNN pelo que ele afirmou ser um carregamento de armas fabricadas pelo Irã, capturado antes que contrabandistas pudessem entregá-lo aos Houthis.
O arsenal incluía enormes mísseis de cerca de 5 metros de comprimento, complexos sistemas de radar de longo alcance, motores de drones e equipamentos ópticos, além de balas escondidas dentro da bateria de um caminhão. Tudo, disse El Mamlouh, havia sido disfarçado como equipamento comercial para escapar da detecção.
E o que eles capturaram, ele prontamente reconheceu, era apenas uma fração do que se acredita ter passado. Os contrabandistas “confessaram que, antes deste, já tinham contrabandeado 11 carregamentos de tamanho e conteúdo semelhantes”, disse ele, totalizando 750 toneladas.
Se os houthis tomassem Perim e obtivessem uma posição em Bab al-Mandeb, ele alertou, eles não precisariam mais de armas de longo alcance para ameaçar a navegação.
“Eles minariam o estreito, assim como (o Irã) fez em Ormuz”, disse ele.
Ao longo do trecho da costa do Mar Vermelho controlado pelo governo do Iêmen, autoridades não têm dúvidas de que sua guerra civil se tornou parte de algo muito maior.
“(Estamos) travando esta guerra em nome do mundo árabe e da comunidade internacional”, disse Mamlouh.
Antes de se apressar para sair de sua tenda na praia, Saleh foi questionado sobre o que aconteceria se o apoio dos EUA nunca chegasse.
“Pagaremos um preço mais alto no futuro”, para expulsar os Houthis, ele respondeu. E assim, ele alertou, também pagariam “o exército americano, a comunidade internacional e o comércio internacional.”
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por afonsobenites.