ContilNet Notícias
Notícias

Análise: Rival de Netanyahu é o seu exato oposto e isso pode ser vantagem

Por CNN Brasil Fonte: Luciana Caczan 04/07/2026 às 05:32
Análise: Rival de Netanyahu é o seu exato oposto e isso pode ser vantagem

Compartilhar matéria

Na noite de 8 de junho, o partido Likud, do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, publicou quatro palavras em sua conta oficial no X:

“Não existe Gadi sem Tibi.”

A curta mensagem vinha acompanhada de um vídeo de 11 segundos, gerado por inteligência artificial, que mostrava dois políticos, Gadi Eisenkot e Ahmad Tibi, lado a lado diante de um Parlamento coberto por nuvens escuras.

Ao final do vídeo, aparecia a frase: “Eisenkot não tem governo sem os árabes”, em referência a Tibi, um dos mais destacados parlamentares árabes de Israel.

A publicação evidenciou dois elementos centrais da campanha do partido para as eleições parlamentares marcadas para o fim de outubro.

Primeiro, que Netanyahu voltará a recorrer ao discurso antiárabe que o Likud utiliza há anos. Segundo, que o ex-chefe das Forças Armadas de Israel, Eisenkot, passou a ser visto como a principal ameaça política ao líder mais longevo da história do país.

O nome de Eisenkot talvez ainda não seja amplamente conhecido fora de Israel, mas, no cenário político israelense, ele vem ganhando cada vez mais destaque, substituindo o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett como o principal desafiante de Netanyahu.

Um assessor do premiê afirmou que o partido tem mais de 400 vídeos sobre Eisenkot prontos para divulgação.

O partido Yashar (“reto” ou “honesto”, em hebraico), fundado por Eisenkot há menos de um ano, aparecia até recentemente com apenas um dígito na maioria das pesquisas de intenção de voto.

Agora, a maior parte dos levantamentos mostra a legenda empatada tecnicamente com o Likud e à frente da chapa conjunta formada por Bennett e outro ex-primeiro-ministro, Yair Lapid.

Os dois tentaram atrair Eisenkot para um bloco unificado de oposição a Netanyahu. Ele, no entanto, recusou a proposta e preferiu disputar as eleições de forma independente. Desde então, passou a superar ambos em diversas pesquisas de intenção de voto.

A pesquisa mais recente do Canal 12 projeta que o partido de Eisenkot conquistaria 21 cadeiras no Knesset, o Parlamento israelense, ficando atrás apenas do Likud, com 23 assentos, e à frente da chapa conjunta de Bennett e Lapid, com 18.

Leia Mais

Quando questionados sobre quem seria mais apto para ocupar o cargo de primeiro-ministro, 38% dos entrevistados apontaram Eisenkot, enquanto 36% escolheram Netanyahu. Outros institutos de pesquisa mostram uma tendência semelhante.

A mudança também se reflete na estratégia de comunicação do Likud, que passou a tratar Eisenkot como o principal adversário de Netanyahu, depois de concentrar seus ataques em Bennett.

Nas últimas semanas, começaram a circular vídeos de campanha ironizando o inglês carregado de sotaque de Eisenkot, em contraste com a fluência internacional de Netanyahu, que concluiu o ensino médio na Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Outra linha de ataque que ganhou força foi a afirmação de que “Gadi não atacaria o Irã”.

Para analistas, porém, esse contraste pode ser justamente um dos fatores que explicam o crescimento de Eisenkot. Em seu estilo e na imagem pública que projeta, ele representa o oposto de Netanyahu de forma mais evidente do que qualquer outro adversário nos últimos anos.

Aos 76 anos, Netanyahu passou décadas aperfeiçoando o teatro político, as mensagens de efeito e as grandes encenações.

Eisenkot, de 66 anos, tem um perfil discreto, fala de forma serena e evita o dramatismo,  características pouco propícias a conteúdos virais. Ex-planejador militar, é conhecido por priorizar processos e estratégia.

As trajetórias dos dois reforçam esse contraste. Filho de um historiador, Netanyahu cresceu entre a elite de Jerusalém e serviu na prestigiada unidade de comandos Sayeret Matkal.

Já Eisenkot é o segundo de nove filhos de imigrantes marroquinos. Foi criado em Tiberíades e Eilat, longe dos tradicionais centros de poder e influência de Israel. Na carreira militar, ascendeu pelas fileiras da Brigada Golani até se tornar chefe do Estado-Maior das IDF (Forças de Defesa de Israel), cargo que ocupou entre 2015 e 2019 após ser nomeado pelo próprio Netanyahu.

“Sob seu comando, Gadi, as Forças de Defesa de Israel realizaram um excelente trabalho”, afirmou Netanyahu na cerimônia de despedida de Eisenkot, em 2019. “Nós o saudamos por seus muitos méritos como combatente e comandante”, declarou.

Seu período à frente das Forças Armadas foi marcado por pressões políticas e controvérsias.

Em 2016, Eisenkot supervisionou o processo contra Elor Azaria, um médico militar condenado por matar um agressor palestino já ferido em Hebron.

O caso transformou-se em um símbolo do debate sobre ética militar e regras de engajamento. Apesar da forte pressão da direita israelense, incluindo do próprio Netanyahu, Eisenkot apoiou a condução do processo pela Justiça Militar.

Eisenkot entrou para a política em 2022 sob a liderança de outro ex-chefe das Forças Armadas, Benny Gantz. Juntos, passaram a integrar o gabinete de guerra de emergência formado por Netanyahu após os ataques de 7 de outubro.

Com o passar do tempo, Eisenkot tornou-se cada vez mais crítico da condução da guerra pelo governo e da ausência de uma estratégia clara, especialmente em relação aos reféns mantidos na Faixa de Gaza.

“A guerra está sendo conduzida com base em ganhos táticos, sem movimentos significativos para alcançar objetivos estratégicos”, escreveu Eisenkot em uma carta enviada, em fevereiro de 2024, a Netanyahu e aos integrantes do gabinete de guerra.

A guerra também transformou sua história pessoal. Dois meses após o início do conflito, seu filho caçula, Gal, morreu em combate na Faixa de Gaza. Mais tarde, dois de seus sobrinhos também foram mortos durante operações militares.

Ao mesmo tempo, Yair Netanyahu, filho do primeiro-ministro, passou boa parte da guerra em Miami e não serviu como reservista das Forças de Defesa de Israel.

“Nós continuaremos sendo uma família unida e feliz para que o seu sacrifício não tenha sido em vão”, disse Eisenkot no funeral do filho. “Faremos tudo para sermos dignos dele e para tomar as decisões corretas em nome daqueles que se sacrificaram, de seus companheiros de armas e de todo o povo de Israel.”

Em junho de 2024, Eisenkot e Benny Gantz deixaram o gabinete de guerra de emergência, alegando que o governo não tinha uma estratégia clara para encerrar o conflito. Um ano depois, Eisenkot rompeu com Gantz para fundar seu próprio partido, que desde então vem ganhando força de forma consistente.

“Ele passa às pessoas a imagem de alguém que elas gostariam de abraçar”, escreveu nesta semana o colunista Nachum Barnea, do jornal Yedioth Aharonot.

Segundo ele, o apelo de Eisenkot é sobretudo “emocional” e decorre da combinação de fatores como sua trajetória de ex-chefe das Forças Armadas, sua condição de pai enlutado e sua origem como filho de marroquinos criado na periferia de Israel.

Sua origem também pode ter relevância política. Os eleitores mizrahim, judeus de origem no Oriente Médio e no Norte da África, tradicionalmente formam uma das principais bases eleitorais do Likud.

Ainda assim, Israel nunca teve um primeiro-ministro mizrahi. Até mesmo o deputado do Likud David Bitan reconheceu recentemente, em uma entrevista, que a origem e a história de vida de Eisenkot “lhe dão uma vantagem muito interessante”.

Já Yigal Guetta, ex-deputado do partido ultraortodoxo Shas, resumiu a questão de forma direta em entrevista ao Canal 12 de Israel: “Sim, um primeiro-ministro marroquino!”.

Ainda assim, com cerca de quatro meses até as eleições, as pesquisas mostram que Eisenkot está longe de uma vitória decisiva ou de um caminho fácil para formar uma coalizão de governo.

Netanyahu é um político experiente e habilidoso em campanhas, com uma estrutura política bem estabelecida. Eisenkot nunca disputou uma eleição nacional de forma independente.

Os aliados do primeiro-ministro já intensificaram os ataques. No canal pró-Netanyahu Channel 14, comentaristas acusaram Eisenkot de ter sido excessivamente complacente com figuras do Hezbollah no passado, acusações que ele rejeita e sobre as quais afirmou estar avaliando medidas legais.

A comunicação do Likud também voltou a um argumento conhecido entre eleitores de direita: o de que qualquer coalizão anti-Netanyahu dependeria do apoio de partidos árabes. Em vez de direcionar esse ataque a Bennett ou Lapid, ele agora é voltado a Eisenkot.

A aritmética das coalizões continua sendo o principal desafio, não apenas para Eisenkot, mas para todo o bloco anti-Netanyahu. Mesmo que as pesquisas indiquem maioria, uma possível coalizão que reunisse esquerda, direita, centro e partidos árabes enfrentaria grandes dificuldades para formar um governo — e, principalmente, para mantê-lo unido.

Ainda assim, Anshel Pfeffer, correspondente em Israel da revista The Economist e autor de uma das biografias de Netanyahu, afirma que Eisenkot se destaca entre os desafiantes anteriores.

“Há uma espécie de ‘auditoria israelense’ em andamento desde 1996 em busca da pessoa que vai derrubar Netanyahu”, disse ele. “Aqueles que conseguiram, como Ehud Barak e Ariel Sharon, o fizeram por serem fundamentalmente diferentes. Aqueles que falharam muitas vezes tentaram imitá-lo.” Pfeffer chamou esse padrão de “WannaBibis”.

Na avaliação dele, Eisenkot não segue esse roteiro. “Só existe um Netanyahu. Eisenkot é o primeiro em anos que tenta vencê-lo sendo seu oposto”, afirmou.

Pfeffer questiona até que ponto essa diferença realmente se sustenta, observando que Eisenkot foi uma figura central na formulação da estratégia militar de Israel, incluindo a “doutrina Dahiyeh”, o uso de força esmagadora contra infraestrutura civil para dissuadir futuros ataques de grupos militantes, desenvolvida após a guerra de 2006 no Líbano, além do planejamento estratégico no início da guerra em Gaza. “Em termos de personalidade, ele é diferente”, disse Pfeffer, “mas em termos de política, isso é menos claro.”

Netanyahu já viu vários desafiantes surgirem em ondas de esperança e apoio popular, apenas para serem derrotados por sua habilidade política. Por enquanto, o contraste com Netanyahu parece estar impulsionando o crescimento de Eisenkot.

“Eisenkot não é Netanyahu e nunca poderá ser. Mas isso pode ser exatamente o que muitos israelenses procuram: um estilo de liderança fundamentalmente diferente”, disse Pfeffer.

Esse conteúdo foi publicado originalmente emVer original TópicosBenjamin NetanyahuEleiçãoIsrael


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por Luciana Caczan

Sair da versão mobile