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Biometano pode reduzir emissões do transporte em até 75%, aponta estudo

Por Kaique Cangirana 08/09/2026 18:25
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O biometano pode se consolidar como uma das principais alternativas para acelerar a descarbonização do transporte pesado e de longa distância em escala global, segundo o estudo internacional Biomethane for Transport Decarbonization, encomendado pelo Instituto MBCBrasil.

Produzido a partir da biodigestão de resíduos orgânicos, como vinhaça, dejetos animais, resíduos urbanos e esgoto, o biometano pode reduzir entre 45% e 75% as emissões de gases de efeito estufa no ciclo de vida em comparação ao diesel, de acordo com o levantamento.

Em determinadas condições, projetos baseados em resíduos e dejetos podem apresentar balanço negativo de emissões. Segundo o estudo, quando são contabilizados os benefícios relacionados à captura de metano que seria liberado na atmosfera, a redução pode chegar a 246% em relação ao diesel.

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Além do impacto climático, o combustível pode reduzir em até dez vezes as emissões de material particulado e fuligem frente a combustíveis fósseis líquidos.

Mercado global

O estudo aponta que a produção de biometano já ocorre em cerca de 40 países, enquanto o combustível é utilizado no transporte em quase 30 mercados.

O potencial sustentável global de produção de biogás e biometano é estimado em aproximadamente 1 trilhão de metros cúbicos por ano, equivalente a cerca de 25% da demanda mundial de gás natural.

Na União Europeia, o plano REPowerEU estabeleceu uma meta de produção de 35 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano até 2030, com investimentos estimados em € 37 bilhões.

Nos Estados Unidos, são cerca de 470 projetos de gás natural renovável, enquanto a Índia possui mais de 7,7 milhões de veículos movidos a gás em circulação, segundo o levantamento.

Para a professora Gláucia Mendes Souza, da USP e líder da IEA Bioenergy Task 39, o avanço internacional representa uma oportunidade para o Brasil que vai além da produção do combustível.

“A grande oportunidade do país não é apenas produzir o combustível, e sim liderar o fornecimento de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções integradas desenvolvidas aqui para outros mercados que buscam se descarbonizar”, afirmou.

Potencial brasileiro

O Brasil aparece no estudo como um dos países com maior potencial de expansão, principalmente pela disponibilidade de resíduos da agroindústria.

Somente o setor sucroenergético teria capacidade de produzir 41,4 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano, volume equivalente a mais de 41 bilhões de litros de diesel. Atualmente, porém, menos de 2% desse potencial seria aproveitado.

O país também desenvolveu tecnologias para biodigestão, purificação do gás, transporte de biometano líquido e integração da produção do combustível com fertilizantes de baixo carbono.

Essa experiência pode abrir espaço para a exportação de equipamentos, engenharia e serviços para países da América Latina, Ásia e África que possuem grande produção agrícola, mas ainda contam com infraestrutura limitada de biodigestão.

Custo do transporte

Além da redução de emissões, o biometano apresenta potencial para reduzir o custo do transporte pesado. Simulações de Custo Total de Propriedade, que consideram aquisição, manutenção e operação dos veículos, indicam que o custo por quilômetro rodado com biometano no Brasil pode variar entre 30% abaixo e 25% acima do diesel, dependendo do cenário.

O estudo também destaca que a receita de uma planta de biometano não precisa depender exclusivamente da venda do combustível.

Em mercados mais maduros, entre 20% e 60% da receita total de uma unidade pode vir de atividades como tratamento de resíduos, comercialização de digestato como biofertilizante e créditos de carbono.

“Uma planta de biometano não é só uma fábrica de combustível, é uma biorrefinaria com múltiplos produtos”, aponta o estudo.

Produção no Brasil

O levantamento cita projetos já em operação no país, incluindo unidades das empresas Cocal, Raízen, São Martinho e Adecoagro.

Na Usina Cocal, em Narandiba (SP), uma planta em funcionamento desde 2020 produz cerca de 50 mil Nm³ de biometano por dia a partir de vinhaça e torta de filtro. A empresa também possui uma segunda unidade em Paraguaçu Paulista (SP), com produção estimada entre 30 mil e 40 mil Nm³ diários.

O setor sucroenergético processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2024/25, gerando, segundo o estudo, aproximadamente 380 bilhões de litros de vinhaça.

A produção a partir de resíduos urbanos também ganha espaço. Em Paulínia (SP), foi inaugurada a maior unidade do país, com capacidade nominal de até 225 mil Nm³ por dia. Em Goiânia (GO), a prefeitura anunciou a conversão da frota de ônibus urbanos para o combustível produzido a partir de resíduos.

O ambiente regulatório brasileiro também passa por mudanças. A Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024) criou o Certificado de Garantia de Origem de Biometano, mecanismo que permite separar a molécula física do atributo ambiental do combustível.

A meta compulsória de redução de emissões no gás natural começa em 0,5% em 2026 e aumenta gradualmente até 10%, conforme o marco regulatório.

Para José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil, o avanço do biometano representa uma oportunidade para o país se posicionar também como fornecedor de soluções para a transição energética.

“O biometano não é uma aposta futura ou experimental, mas uma realidade pronta e em escala global”, afirmou.

Elaborado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), Unifei (Universidade Federal de Itajubá), IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e Instituto Mauá de Tecnologia, o trabalho reúne evidências científicas e econômicas sobre o uso do combustível em mercados das Américas, Europa, Ásia e África.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por Kaique Cangirana.

Conteúdo Original / Fonte: Kaique Cangirana
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