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CNN tem acesso raro ao sul do Líbano sob ocupação israelense

Por laurasantana 06/09/2026 06:22
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Ao dirigir por uma estrada litorânea no sul do Líbano, as bandeiras do país e do Hezbollah que margeiam a via dão lugar, de repente, a bandeiras de Israel.

Logo surge um posto de controle israelense, onde soldados montam guarda nas varandas de casas crivadas de estilhaços.

E então, a paisagem torna-se plana: vilarejo após vilarejo, casa após casa, reduzidos a escombros.

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É assim o Líbano sob ocupação israelense.

A CNN obteve acesso raro ao acompanhar um comboio de moradores autorizados a transitar por aquele território ocupado para chegar às suas casas em três vilarejos de maioria cristã.

Eles foram poupados do destino dos vilarejos muçulmanos xiitas vizinhos, que agora parecem uma terra arrasada.

Israel invadiu o sul do Líbano em março, depois que o Hezbollah — um grupo militante xiita libanês apoiado pelo Irã — retomou os ataques contra Israel para vingar o assassinato do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

Desde então, as forças armadas israelenses ocupam uma faixa de território com cerca de 10 quilômetros de profundidade para estabelecer o que chamam de “zona de segurança”, visando proteger os moradores do norte de Israel da ameaça de ataques com foguetes do Hezbollah.

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, prometeu destruir todas as casas nos vilarejos próximos à fronteira. No local, as evidências disso são claras.

A maioria dos vilarejos foi sistematicamente arrasada pelas forças israelenses, e moradores dos vilarejos cristãos remanescentes relataram ouvir, diariamente, explosões de demolição controlada nas comunidades vizinhas.

Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, mais de 4.300 pessoas foram mortas em ataques israelenses desde 2 de março, e as Nações Unidas informam que mais de 350 mil continuam deslocadas desde o início da ocupação israelense.

À medida que nossa jornada prossegue, a estrada serpenteia por uma paisagem apocalíptica até que, do nada, a vida reaparece. Edifícios permanecem intactos, carros circulam pelas ruas e crianças andam de bicicleta; a vida parece seguir seu curso normal.

Mas a realidade é mais complicada do que as aparências podem sugerir.

As vilas de Rmeish, Ain Ebel e Debel foram amplamente poupadas dos bombardeios e demolições de Israel, mas seus moradores — quase todos cristãos — estão isolados do restante do Líbano, sem poder entrar ou sair sem integrar um comboio liderado pela ONU.

A Caritas, uma organização católica sem fins lucrativos que ajuda a organizar alguns desses comboios, precisa solicitar permissão ao exército israelense para cada morador, por meio de um mecanismo de monitoramento liderado pelos Estados Unidos.

As aprovações geralmente são concedidas, mas os comboios às vezes sofrem atrasos ou são cancelados, e a viagem pode levar desde algumas horas até um dia inteiro.

Ronnie e Rita Alam fugiram de Rmeish com as duas filhas em março, à medida que os bombardeios israelenses se intensificavam ao redor deles.

Eles alugaram uma casa em Beirute, o que sobrecarregou suas finanças.

A CNN os acompanhou enquanto Ronnie levava a esposa e as filhas de volta a Rmeish pela primeira vez em quatro meses. Ronnie, no entanto, precisa retornar ao trabalho em Beirute.

“Estou feliz por voltar para casa, mas triste porque meu marido não estará comigo”, disse Rita, emocionada.

“Nossa família está sendo separada”, disse ela, enxugando as lágrimas. “Somos quatro e agora seremos três.”

Tecnicamente, um cessar-fogo está em vigor, mas ataques israelenses continuam ocorrendo diariamente no sul do Líbano. Israel insiste que isso é permitido pelo acordo de cessar-fogo mais recente.

Apesar dos riscos, Ronnie disse que, financeiramente, não havia alternativa real a não ser enviar sua família de volta para a aldeia.

“Os civis não têm nada a ver com isso. Por que deveriam perder suas casas? Essa destruição é uma lástima… e para quê? Para a guerra? Nós não queremos guerra!”

Um enclave sitiado

Em Ain Ebel, outra das vilas de maioria cristã, Yorgos Mitri acostumou-se à guerra. Até mesmo seu filho de dois anos, Joe, consegue reconhecer o som de caças sobrevoando o local, disse ele, e os ataques aéreos já não o despertam à noite.

Ao redor de Ain Ebel, encontram-se as ruínas de cidades e vilarejos atingidos por bombardeios israelenses implacáveis, pela ação de tratores e por demolições controladas.

Mitri decidiu permanecer durante todo esse tempo, devido ao apego à sua casa e ao receio de não conseguir mais voltar a ela.

Assim como muitos cristãos nessas aldeias, ele não simpatiza com o Hezbollah, culpando o grupo por desencadear a guerra que transformou a vista de sua casa em uma paisagem de destruição.

“Dá para ver os resultados… o que conquistamos depois de tudo isso?”, disse ele, apontando para a cidade devastada de Bint Jbeil.

Sua revolta contra o Hezbollah é acompanhada pela solidariedade aos seus vizinhos muçulmanos xiitas, que sofreram o impacto mais pesado dos bombardeios e das demolições de Israel no sul.

“Ninguém merece isso”, disse ele, observando a paisagem devastada. “Não podemos viver isolados. Precisamos viver todos juntos.”

Ele lamenta o que considera um governo libanês fraco e ineficaz, afirmando que o governo precisa retomar o controle de seu território.

Por dentro das “zonas-piloto”

Por enquanto, o governo libanês não tem condições de atuar na parte do país ocupada por Israel.

Segundo um acordo-quadro liderado pelos EUA e assinado por Israel e Líbano em junho, Israel deveria transferir pequenas áreas do território que ocupa para o exército libanês, estabelecendo as chamadas “zonas-piloto”. No entanto, há poucos indícios de que o plano avançará conforme o previsto.

Tudo começou em três vilarejos, todos de maioria muçulmana xiita, mas nenhum deles havia sido totalmente ocupado pelas forças israelenses inicialmente — o que levou muitos a questionar se Israel algum dia teve a intenção de se retirar.

A CNN acompanhou, com exclusividade, a FAL (Forças Armadas Libanesas) em uma missão de patrulha em uma dessas localidades: Zawtar al-Gharbiyeh.

Os soldados libaneses mobilizados no local têm a missão de impedir a entrada de atores armados não estatais, como o Hezbollah; confiscar quaisquer armas e vestígios de guerra; e restaurar a autoridade do Estado.

A prioridade, segundo o Coronel Raja Amer — assistente do comandante do setor Sul do Litani —, é tornar a área segura para o retorno dos moradores deslocados.

No entanto, suas tropas enfrentam muitos desafios.

A crise econômica libanesa dizimou o financiamento do exército. Os soldados ganham, em média, 500 dólares por mês (cerca de 2.500 reais), e grande parte de seus equipamentos está obsoleta ou em falta.

“Nossas tropas operam em um ambiente de segurança extremamente exigente e desafiador”, disse Amer à CNN. “É por isso que precisamos de mais capacidade para realizar essas missões.”

Os riscos incluem munições não detonadas deixadas pelo Hezbollah ou por Israel, além de ataques aéreos israelenses constantes. Segundo o exército libanês, 34 soldados foram mortos somente em 2026.

Enquanto um soldado falava sobre um colega que perdera em um ataque aéreo israelense anterior, Israel começou a bombardear a vila vizinha de Mansouri — foram quatro ataques em menos de 20 minutos.

Nenhum dos soldados reagiu. Para eles, aquilo era normal.

Amer afirmou que o exército registrou mais de 5 mil ataques israelenses ao Líbano desde a assinatura do acordo-quadro, em junho.

“É algo contínuo e que acontece em toda parte… é assim que se parece o ‘cessar-fogo’ por parte deles”, disse ele.

Em Zawtar al-Gharbiyeh, não há presença militar israelense. No entanto, a poucas centenas de metros dali, é possível ver tanques e tratores israelenses, e a demolição de edifícios segue em ritmo acelerado.

Soldados e moradores relataram à CNN que drones sobrevoam a área constantemente e que ouvem disparos de artilharia todos os dias.

Para quem está no local, a situação dificilmente parece um cessar-fogo, e as zonas-piloto também não aparentam estar abrindo caminho para a retirada de Israel do território libanês.

Uma história de conflitos sectários

A dolorosa história de violência sectária do Líbano permanece sempre latente. Há três anos, muitos temem que a guerra do Hezbollah com Israel possa ser a faísca capaz de incendiar esse barril de pólvora.

O Hezbollah obtém grande parte de seu apoio em cidades de maioria xiita no sul do Líbano, região que sofreu quase duas décadas de ocupação israelense no final do século passado — uma situação agravada pela falta de oportunidades econômicas e pela sensação de abandono por parte do governo em Beirute.

O Hezbollah, que é simultaneamente um partido político e um grupo militante, passou a ser visto por grande parte da população xiita como um protetor contra a agressão israelense e um provedor de serviços sociais para uma comunidade negligenciada.

Os Estados Unidos e o Reino Unido classificam o grupo como uma organização terrorista.

Durante o trajeto feito pela CNN com o exército libanês, bandeiras do Hezbollah e cartazes em homenagem a combatentes mortos no conflito margeavam a maioria das estradas, um sinal de que o grupo ainda conta com apoio significativo.

“O Hezbollah, no Líbano, tem uma vertente política e uma vertente militar”, disse Amer. “Eles fazem parte desta população. Eles estavam aqui, e os símbolos permanecem no local até hoje.”

Autoridades israelenses afirmam que o exército libanês não está desarmando o Hezbollah com a rapidez necessária — por meio de buscas mais agressivas nas casas das pessoas.

No entanto, a legislação libanesa proíbe o exército de entrar em propriedades privadas sem um mandado judicial ou autorização legal, algo que a instituição não possui no momento.

Atentas à recente história de guerra civil do país, as forças armadas libanesas afirmam estar agindo com cautela para evitar alimentar conflitos sectários. “Agir com violência contra o nosso próprio povo traria outras consequências”, disse Amer. “Faremos isso gradualmente. Faremos isso de maneira sensata.”

As negociações entre Israel e o Líbano estagnaram, sem qualquer sinal de que Israel pretenda retirar suas forças do território ocupado.

O ministro da Defesa de Israel afirmou que os militares não se retirariam do Líbano, mesmo que os Estados Unidos exigissem tal medida.

Com as eleições israelenses marcadas para outubro, é provável que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu queira oferecer à sua base uma vitória clara nessa frente.

Amer declarou que o exército libanês estava preparado para assumir mais zonas-piloto caso as negociações políticas dessem frutos, mas alertou que a iniciativa não terá sucesso se as condições forem semelhantes às da primeira tentativa.

“Nós cumprimos o acordo. Precisamos que a outra parte também cumpra o acordo e cesse fogo, pelo menos”, disse ele.

Menos de um em cada 20 moradores de Zawtar al-Gharbiyeh retornou para casa até agora, segundo o exército libanês — um número que a instituição espera ver aumentar.

Mahmoud Darwish é um deles; ele voltou depois que o exército se posicionou na vila.

Em conversa com a CNN, ele não declarou explicitamente apoio ao Hezbollah, mas afirmou que qualquer pessoa atacada tem o direito de resistir pela força.

Darwish ficou deslocado por cinco meses. Quando retornou em julho, encontrou sua casa muito danificada: escombros na altura dos joelhos e fuligem escurecendo as paredes.

Ele contou que a vila vivia da agricultura e que as oliveiras de seu jardim — agora destruídas — foram, por muito tempo, sua fonte de sustento.

Enquanto caminhava pelos escombros, ele apoiou a palma da mão aberta contra uma parede e, em seguida, a levantou: estava enegrecida.

“Isto é Israel e a América”, disse ele, erguendo a mão suja. “E isto é o Líbano, nós”, disse, erguendo a mão limpa.

“Eles nos mataram, mataram nosso povo, mataram nossos entes queridos, mataram nossos amigos, destruíram nossas casas. Como eles acham que algum dia farão as pazes conosco?”

Enquanto ele falava, um ataque aéreo israelense ecoou à distância. Darwish mal se mexeu.

“Nenhum inimigo jamais nos expulsará de nossa terra… ela me ama e eu a amo… estamos aqui e permaneceremos aqui.”

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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por laurasantana.

Conteúdo Original / Fonte: laurasantana
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