Leia na íntegra o último discurso de António Guterres na Assembleia da ONU
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António Guterres fez seu último discurso na Assembleia Geral da ONU como secretário-geral da instituição. Ele deixará o cargo no final do ano.
O líder defendeu o papel das Nações Unidas e alertou sobre a situação da ordem global. Ele destacou que é necessário cooperar e chamou atenção para os três pilares da Carta das Nações Unidas: Paz, desenvolvimento e direitos humanos.
Guterres também dedicou partes do discurso para criticar as guerras e alertar sobre o desenvolvimento da inteligência artificial.
Leia o discurso de António Guterres na íntegra:
Senhor Presidente,
Excelências,
Senhoras e senhores,
As linhas de fratura do nosso mundo estão se alargando. Fissuras transformaram-se em cânions.
Na última década, guerras eclodiram com consequências devastadoras e se prolongaram com uma crueldade desprezível.
Civis foram alvos. Direitos humanos, atropelados. A fome, usada como arma. Trabalhadores humanitários, mortos.
O direito internacional, deixado de lado.
As divisões geopolíticas se aprofundaram. As desigualdades se intensificaram. A confiança se desgastou.
A crise climática deixou de ser um alerta distante para se tornar uma realidade cotidiana.
E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que surpreendeu até mesmo aqueles que a criaram.
Não se trata de crises isoladas.
São capítulos da mesma história.
A história do poder.
Quem o detém.
A quem ele é negado.
Como ele é utilizado.
E como ele está mudando.
Excelências,
O poder está sendo remodelado de três maneiras fundamentais.
Primeiro, entre os Estados. Novos centros de influência econômica, política e tecnológica surgiram.
Segundo, testemunhamos uma transferência extraordinária de poder dos governos para um punhado de corporações privadas e indivíduos.
Sua influência agora se estende pela política, pelas economias, pelos fluxos de informação, pelo desenvolvimento tecnológico e pelo espaço cívico do qual as sociedades dependem.
E, terceiro, os seres humanos estão cada vez mais transferindo poder para as máquinas — com agentes de inteligência artificial agindo de forma incontrolável e armas autônomas letais passando da ficção científica para a realidade militar.
No entanto, nossas instituições e sistemas de governança global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma era em grande parte superada.
Esse é o desafio decisivo que temos pela frente.
Justo no momento em que a humanidade enfrenta uma convergência sem precedentes de ameaças, nossos mecanismos de ação coletiva estão sob crescente pressão.
Excelências,
Estamos claramente caminhando para um mundo multipolar. E esse movimento é irreversível.
Mas há diferentes formas de essa multipolaridade ganhar corpo.
Uma possibilidade é um mundo de fragmentação e transacionalismo.
Um mundo de tensões crescentes e desconfiança cada vez maior.
De mercados fraturados e instituições enfraquecidas.
De cooperação em declínio e cálculos de soma zero.
Em muitos aspectos, essa é a trajetória que seguimos hoje.
Mas existe outro caminho.
Um caminho rumo a uma multipolaridade em rede. Um mundo construído sobre a interdependência – e sustentado por uma densa rede de conexões econômicas, políticas, sociais e tecnológicas.
Um mundo no qual múltiplos centros de influência coexistem dentro de uma estrutura comum de direito internacional e regras compartilhadas.
Um mundo assim pode nos ajudar a evitar tendências hegemônicas e o que chamei de Grande Fratura:
A divisão do mundo em dois blocos rivais com sistemas econômicos, tecnológicos e de segurança separados.
Um mundo em rede reconhece que nenhuma potência consegue resolver sozinha os desafios de hoje.
É claro que a competição continuará sendo uma característica permanente das relações internacionais.
Mas competição não significa confronto.
Uma competição saudável pode impulsionar a inovação, fortalecer a resiliência e ampliar oportunidades.
Mas apenas quando opera dentro de estruturas que preservam a estabilidade e possibilitam a cooperação onde ela é indispensável.
Construir tal futuro começa com o reconhecimento, especialmente por parte das superpotências, de que seu poder não é tão “super” assim.
Seu poder tem limites.
Os acontecimentos dos últimos anos deixaram isso inequivocamente claro.
O poder militar, por si só, não pode garantir a paz.
O poder econômico, por si só, não pode assegurar a estabilidade.
E o poder tecnológico, por si só, não pode garantir a segurança.
Um mundo multipolar em rede pode criar as condições para uma resolução de problemas globais mais equilibrada e representativa.
Mas isso exige um sistema multilateral centrado na ONU que seja equilibrado e representativo.
Instituições fortes e eficazes que reflitam as realidades e o peso relativo — em constante mudança — dos países e economias no mundo atual; não os arranjos de poder de 80 anos atrás.
Felizmente, não estamos começando do zero.
Já temos uma base vinculante: a Carta das Nações Unidas.
E os princípios que lhe dão vida.
A primazia do direito internacional.
A defesa da dignidade humana.
E a busca pela justiça em todas as suas dimensões.
Esses são os pilares para o exercício eficaz, legítimo e responsável do poder no século XXI.
Excelências,
A questão resume-se a isto:
Agiremos para garantir que o poder seja regido pelo direito ou pela força?
Pela cooperação ou pela coerção?
Pela responsabilidade para com os jovens e as gerações futuras ou pela indiferença ao destino deles?
Pois os desafios definidores da nossa era não estão dissociados da questão do poder. Elas são expressões disso.
E determinarão se deslizaremos ainda mais para a divisão e a instabilidade – ou se avançaremos rumo à cooperação, à justiça e à segurança coletiva.
Olhando para o futuro, ele será moldado pela forma como enfrentarmos quatro grandes testes de poder:
O poder sobre a guerra e a paz.
O poder que concentra riqueza e impulsiona desigualdade.
O poder que alimenta o caos climático e a guerra contra a natureza.
E o poder desencadeado pela inteligência artificial.
Excelências,
O primeiro grande teste de poder no século XXI é a paz e a segurança.
A paz é muito mais do que a ausência de conflito.
É a presença da contenção do poder pela lei.
É o reconhecimento, consagrado na Carta da ONU, de que a força não pode ser o árbitro final sobre quais vidas, direitos e futuros importam.
Hoje, esse princípio está sob profunda pressão.
Em todo o Oriente Médio, os conflitos estão se multiplicando em cascata.
Os chamados cessar-fogos não passaram de “focos de incêndio menores” – com civis continuando a pagar o preço.
Já basta.
Apelo aos líderes nesta sala para que aproveitem ao máximo esta semana de alto nível em prol da desescalada e do diálogo.
Juntos, vamos enviar uma mensagem clara a partir deste plenário:
Os combates devem cessar.
A ajuda humanitária deve fluir.
E os direitos e liberdades de navegação devem ser plenamente restaurados, em conformidade com o direito internacional.
Em meio à turbulência que assola a região, não podemos perder de vista a situação devastadora no Território Palestino Ocupado.
Já se passaram quase três anos desde os abomináveis ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro.
O que se seguiu foi uma ofensiva contra os palestinos em Gaza, com uma escala de mortes e destruição sem precedentes em todos os meus anos como Secretário-Geral.
A Corte Internacional de Justiça emitiu medidas provisórias juridicamente vinculativas no caso intitulado: “Aplicação da Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio na Faixa de Gaza”.
Em um parecer consultivo no ano passado, a Corte deixou claro que as Nações Unidas precisam ter permissão para cumprir seus mandatos em Gaza – e que nossa equipe e o pessoal humanitário devem ser protegidos.
Todas as partes devem cumprir o direito internacional e as ordens da Corte.
Enquanto isso, a violência, o deslocamento e a expansão de assentamentos na Cisjordânia Ocupada estão destruindo o caminho para a paz e levantando o espectro da limpeza étnica.
Não podemos permitir que a solução de dois Estados desapareça diante de nossos olhos. Na Ucrânia, a invasão em larga escala pela Rússia submeteu um país soberano a uma guerra brutal, em flagrante violação da Carta.
Civis continuam sendo mortos longe das linhas de frente.
Principalmente na Ucrânia, mas também mais recentemente em partes da Rússia, residências, sistemas de energia e água e meios de transporte têm sido alvo de ataques repetidos, ameaçando as cadeias de abastecimento de alimentos e energia em nível global.
No Sudão, uma guerra pelo poder puro, alimentada por atores externos, transformou-se em uma guerra contra civis.
Milhões de deslocados. A fome se alastrando. Drones atingindo hospitais e casas. Violência sexual e ataques de motivação étnica em escalada. E um país sendo dilacerado enquanto o mundo desvia o olhar.
E em Mianmar, outra crise corre o risco de sair do radar global — com o aumento da violência, deslocamentos em massa e a expansão do crime transnacional.
Excelências,
Estes e tantos outros conflitos mostram o que acontece quando o poder sai de controle, a força supera a diplomacia, os orçamentos militares disparam e a responsabilização é deixada de lado.
O teste diante de nós é saber se o poder será exercido em conformidade com a lei — ou à margem dela.
Precisamos passar nesse teste.
Devemos defender a Carta sem dois pesos e duas medidas.
Proteger civis sem exceções.
Garantir acesso humanitário sem obstruções.
Proteger o pessoal humanitário sem falhas.
Promover a não proliferação nuclear e o desarmamento sem demora.
E exigir responsabilização sem medo ou favorecimentos.
Devemos também reformar o Conselho de Segurança para que ele reflita o mundo atual, com a legitimidade e a eficácia que os desafios de hoje exigem.
O Conselho de Segurança foi concebido no pós-Segunda Guerra Mundial.
Mas o mundo mudou fundamentalmente desde então.
Uma mudança que está longe de ser refletida no Conselho de Segurança.
O exemplo mais gritante é a África.
Quando a ONU foi fundada, a maior parte da África ainda estava sob domínio colonial.
Hoje, a África ainda não possui assento permanente no Conselho.
Um Conselho de Segurança do século XXI sem representação africana permanente é injusto e indefensável.
Isso precisa mudar.
(Em francês)
Excelências,
O segundo teste do poder é a desigualdade.
A desigualdade é frequentemente apresentada como um problema econômico.
É um problema de poder.
Poder sobre oportunidades, recursos, voz.
Nunca a humanidade possuiu tanta riqueza, conhecimento e capacidade tecnológica.
Contudo, para bilhões de pessoas, o progresso permanece fora de alcance.
Eles veem a prosperidade ao seu redor, mas não em suas próprias vidas.
Dizem-lhes que a globalização expande horizontes, mas eles vivenciam a exclusão.
Prometem-lhes que a tecnologia abrirá novas possibilidades, mas muitos temem que ela tire seus meios de subsistência.
Enquanto isso, bilhões de pessoas ainda vivem sem o essencial contido nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Alimentação.
Água potável.
Educação.
Trabalho decente.
Cuidados de saúde.
Dignidade.
Excelências,
Nenhum país deveria ter negado um futuro sustentável por estar do lado errado de um sistema financeiro profundamente desigual.
No entanto, tantos no mundo em desenvolvimento estão sendo esmagados por uma dívida insustentável.
Atingidos por desastres pelos quais pouco fizeram para causar.
E excluídos do acesso a financiamento acessível.
É por isso que criamos novos espaços políticos para avançar a reforma da arquitetura financeira internacional.
Este não é um debate técnico, mas uma questão de representação, equidade e poder.
Para um alívio da dívida oportuno, eficaz e justo.
Para Bancos Multilaterais de Desenvolvimento maiores, mais arrojados e melhor equipados para fornecer financiamento de longo prazo acessível em grande escala e alavancar massivamente o financiamento privado.
Para que os Direitos Especiais de Saque beneficiem os países que mais precisam deles.
Excelências,
Nenhuma discussão sobre a desigualdade pode ignorar sua forma mais universal:
A desigualdade entre mulheres e homens.
Em todos os lugares, mulheres e meninas continuam a enfrentar discriminação, violência, exclusão e abusos.
Ao redor do mundo, seus direitos estão sendo retrocedidos. Suas vozes silenciadas. Seus corpos transformados em campos de batalha. E suas liberdades tratadas como moedas de troca.
Isso é uma indignidade – e um profundo desperdício para a humanidade.
A paz é mais duradoura quando as mulheres estão à mesa.
As economias são mais dinâmicas quando as mulheres têm oportunidades iguais.
As sociedades são mais resilientes quando as meninas podem aprender, liderar e viver livres do medo.
E as instituições são mais eficazes quando o poder é compartilhado de forma igualitária.
Ao longo da última década, alcançamos um marco enorme.
Tenho o orgulho de lhes relatar hoje que as Nações Unidas alcançaram a paridade de gênero pela primeira vez na história em toda a alta liderança… em todas as sedes… e em todo o quadro profissional internacional.
Isso aconteceu porque removemos barreiras, desafiamos premissas e nos recusamos a aceitar que o poder deva ter a mesma aparência de sempre.
Em cada etapa, nunca comprometemos a qualidade e a competência.
A igualdade não é um sonho. É uma decisão.
Se as Nações Unidas podem mudar, os governos também podem.
Os Parlamentos também podem.
As empresas também podem.
Os processos de paz também podem.
E esta Assembleia Geral também pode.
(Novamente em inglês)
Excelências,
O terceiro grande teste do poder é a crise climática.
Em muitos aspectos, é o desequilíbrio de poder intergeracional mais profundo de todos.
Uma geração consumindo o futuro da próxima.
Um grupo lucrando, enquanto aqueles que menos têm responsabilidade sofrem primeiro e mais gravemente.
Há três anos, nas montanhas do Nepal, soei o alarme sobre o derretimento acelerado das geleiras – alertando que os telhados do mundo estão desabando.
Alguns descartaram tudo isso como um exagero dos perigos.
Mas – como eventos trágicos têm demonstrado – os impactos estão chegando mais cedo, atingindo com mais força e se espalhando para mais longe do que muitos antecipavam.
Agora enfrentamos uma violação quase certa do limite de 1,5 grau, com um El Niño de grandes proporções avançando diretamente contra a humanidade.
Os perigos são reais.
Mas a esperança também é.
A última década impulsionou uma das mudanças de poder mais promissoras do nosso tempo.
A ascensão da energia limpa.
O sol não pertence a ninguém.
O vento não pode sofrer embargos.
A inovação pode vir de qualquer lugar.
Trata-se de um reequilíbrio profundo das relações de poder.
As energias renováveis são agora a fonte mais barata de nova eletricidade na maior parte do mundo.
E o caminho mais viável para a segurança energética, a independência e o crescimento sustentável.
Excelências,
Um futuro além dos combustíveis fósseis está à vista.
A questão é como.
Será uma transição justa e ordeira, construída sobre a cooperação internacional — ou caótica e dispendiosa, deixando pessoas e países para trás?
Hoje, me dirijo a todos os governos para que adotem um plano nacional de transição para o fim dos combustíveis fósseis alinhado com o limite de 1,5 grau, com cronogramas claros e proteção para os trabalhadores e comunidades afetados.
Sabemos que os interesses dos combustíveis fósseis não se afastarão por conta própria.
Por décadas, as grandes empresas de petróleo trataram a atmosfera como um esgoto a céu aberto – e lucraram com as consequências.
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, cinco grandes empresas petrolíferas ocidentais embolsaram quase meio trilhão de dólares em lucros.
Compare isso com apenas 34 bilhões de dólares em financiamento público internacional para adaptação destinados aos países em desenvolvimento no último ano relatado.
Enquanto isso, cidadãos comuns estão pagando mais por energia, alimentos e seguros.
Já vimos esse tipo de abuso de poder antes.
Quando os danos das grandes empresas de tabaco se tornaram inegáveis – os governos agiram.
A crise climática exige a mesma determinação.
Aqueles que mais poluíram – e mais lucraram – devem fazer muito mais para reparar os danos que causaram.
Os poluidores devem pagar.
E aos líderes, cidades, sociedade civil e cidadãos que trabalham para responsabilizá-los:
Vocês estão do lado certo da história.
Continuem.
E os governos devem continuar em todas as frentes.
Para acabar com o desmatamento.
Investir em redes elétricas e armazenamento.
Reduzir as emissões de metano.
Mas essas ações não são suficientes.
Precisamos de justiça climática com foco em adaptação e financiamento.
Os países desenvolvidos devem respeitar seus compromissos.
Eles devem triplicar o financiamento para adaptação.
E fazer o Fundo para Perdas e Danos funcionar em grande escala.
Também devemos garantir que a mineração de minerais críticos não aprofunde ainda mais as desigualdades do passado.
Os países produtores e as comunidades afetadas devem reter uma parcela muito maior do valor criado a partir de seus recursos.
Chega de saques. Chega de exploração.
Excelências,
O quarto teste do poder é a tecnologia, e sobretudo a inteligência artificial.
Por séculos, o poder vinha do território. Depois da indústria. Depois das finanças.
Hoje, o poder vem cada vez mais dos dados, da capacidade de processamento e dos algoritmos.
Esse novo poder é altamente concentrado.
Está avançando a uma velocidade extraordinária.
E correndo à frente da nossa capacidade de compreender suas totais consequências.
Em 2017, a IA mal estava no radar do mundo.
No entanto, no meu primeiro discurso na abertura da Assembleia Geral, alertou-se:
“A inteligência artificial é um divisor de águas que pode impulsionar o desenvolvimento e transformar vidas de forma espetacular. Mas também pode ter um impacto dramático nos mercados de trabalho e, de fato, na segurança global e na própria estrutura das sociedades.”
Aqui estamos, quase uma década depois.
A IA é de fato um divisor de águas – com uma enorme promessa de avançar a medicina, acelerar descobertas científicas, expandir oportunidades e melhorar vidas.
Não se enganem.
O perigo não é a tecnologia.
O perigo é a tecnologia sem responsabilidade.
Capacidade sem supervisão.
Tomada de decisões sem transparência.
E esse perigo não pode ser minimizado.
Os próprios desenvolvedores que estão construindo esses sistemas estão agora soando o alarme.
Excelências,
O primeiro dever de um governo é proteger seu povo.
Os governos devem assumir suas responsabilidades.
E os governos com as maiores capacidades de IA têm as maiores responsabilidades para com a humanidade.
Para estabelecer canais de diálogo, transparência, confiança e cooperação.
Não apesar da rivalidade geopolítica – mas precisamente por causa dela.
Em um momento crucial durante a Guerra Fria, rivais estratégicos reconheceram a necessidade de gerenciar riscos existenciais compartilhados.
Eles construíram mecanismos para reduzir mal-entendidos, gerenciar a escalada de conflitos e evitar catástrofes.
A inteligência artificial exige a mesma clareza de propósito e senso de urgência.
Os países que lideram essa revolução tecnológica devem compartilhar informações sobre riscos emergentes à segurança. Cooperar em testes e avaliações. E trabalhar em prol de salvaguardas comuns que protejam a todos nós.
Mas como isso afeta a todos nós, a coordenação global é indispensável.
E há apenas um lugar onde cada país tem voz na construção do nosso futuro comum:
As Nações Unidas.
Por meio do Pacto Digital Global, vocês concordaram pela primeira vez sobre princípios universais para a governança da IA.
Por meio do Diálogo Global sobre Governança da IA, criamos uma plataforma para que governos, cientistas, líderes da indústria e a sociedade civil trabalhem juntos.
Por meio do Painel Científico Internacional Independente sobre IA, reunimos conhecimento especialista global para garantir que as políticas sejam guiadas por evidências.
Ainda ontem, o Painel Científico de IA lançou um relatório temático sobre a segurança da IA e os riscos da perda de controle humano.
Com base nesses esforços, devemos dar os próximos passos.
Primeiro, para avançar as condições para o ritmo responsável da IA e as salvaguardas adicionais necessárias para enfrentar os riscos.
Segundo, devemos trabalhar em direção a uma Estrutura Multilateral de Gestão de Riscos de IA, apoiada por uma supervisão credível e independente.
A inteligência artificial deve ser moldada pela humanidade, com a humanidade e para toda a humanidade.
E ao enfrentarmos os desafios que virão, não recuemos de dois princípios fundamentais.
Lhes digo com uma só voz:
As crianças nunca devem se tornar cobaias para sistemas não regulamentados.
E resolvamos que decisões de vida ou morte nunca devem ser entregues às máquinas.
Robôs assassinos não devem ter lugar no nosso futuro.
(Em espanhol)
Excelências,
Paz e segurança.
Desigualdade.
Clima.
Inteligência artificial.
Estes são os quatro grandes testes de poder do futuro.
E eles estão interligados.
A guerra aprofunda a desigualdade, destrói o desenvolvimento e acelera a fome.
A desigualdade determina quem tem os meios para enfrentar choques climáticos e de outra ordem, e quem fica exposto.
A crise climática alimenta a instabilidade e o deslocamento.
A inteligência artificial poderia ajudar a resolver todos esses desafios, ou piorá-los.
(Novamente em inglês)
Excelências,
Em todos os quatro testes, a questão decisiva é o poder.
Poder sobre a força, o dinheiro, a energia, a tecnologia, as regras e o futuro.
É por isso que a Carta da ONU – e o trabalho das Nações Unidas – importam mais do que nunca.
As Nações Unidas existem porque o poder exige regras – e a humanidade precisa de um lugar onde o poder responda a princípios.
E a Carta não deixa espaço para leituras seletivas.
A Carta criou uma Organização enraizada em três pilares.
Paz. Desenvolvimento. E direitos humanos.
Estas não são agendas concorrentes.
Elas são uma única realidade.
Não há paz sem desenvolvimento.
Nenhum desenvolvimento sem paz.
E nenhuma paz ou desenvolvimento sem direitos humanos.
Fingir que a paz pode ser separada da dignidade, da oportunidade e dos direitos é uma ilusão.
Mas defender esta verdade não significa defender o status quo.
O Pacto para o Futuro e a iniciativa UN80 têm como objetivo tornar a ONU mais ágil, mais eficaz, mais coerente, mais transparente, mais focada em resultados, mais disciplinada com os recursos e mais presente onde as pessoas precisam de nós.
O mundo não precisa de uma Nações Unidas mais fraca.
Precisa de uma ONU forte o suficiente para enfrentar o mundo como ele é – e determinada o suficiente para construir o mundo como ele deveria ser.
Excelências,
Após dez anos, mantenho uma convicção ainda mais forte do que quando cheguei:
O maior poder não é o poder de dominar.
É o poder de construir um futuro que funcione para todos.
O nosso futuro compartilhado será forjado dependendo de se a humanidade consegue governar o poder de forma sábia.
Apoiando a lei antes que a impunidade se torne normalizada.
Acabando com as guerras antes que elas consumam gerações.
Enfrentando a desigualdade antes que as sociedades se fraturem.
Acelerando a ação climática antes que os pontos de inflexão sejam ultrapassados.
E governando a inteligência artificial antes que ela nos governe.
Este é o desafio diante desta Assembleia Geral, das Nações Unidas e da própria humanidade.
Excelências,
Diante de uma catástrofe global há mais de 80 anos, as Nações Unidas foram criadas como um ato de desafio.
O desafio de pessoas que se recusam a entregar o futuro ao medo.
O desafio contra a ideia autodestrutiva de que a força faz o direito.
O desafio de países que sabem que nossos futuros estão entrelaçados.
O desafio da esperança.
Carregarei esse espírito de firmeza e determinação ao longo de cada um dos 100 dias que me restam no cargo.
Mas o compromisso com os valores e princípios das Nações Unidas não começa com um mandato. E não termina com ele.
Eles são maiores do que qualquer cargo – e perduram além de qualquer título.
Portanto, em 1º de janeiro, quando eu não for mais Secretário-Geral, estejam certos disto:
Onde quer que eu esteja, o que quer que esteja fazendo — continuarei defendendo a convicção de que a paz é possível.
De que a dignidade humana é universal.
De que o poder da lei deve prevalecer sobre a lei do poder.
E de que vale a pena lutar pelo nosso futuro comum.
Continuarei a defender os valores da Carta das Nações Unidas.
E eu nunca, jamais desistirei.
Obrigado.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por tiagotortella.