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“Você vai superar?” O que Freud quis dizer com “trabalho de luto” e por que uma perda não precisa ser esquecida

Por robertosouza 21/09/2026 20:30
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“Você vai superar” costuma ser uma tentativa de consolar quem perdeu alguém. A frase, porém, pode dar a impressão de que existe um momento em que a pessoa simplesmente deixa a perda para trás. Para Sigmund Freud, a questão era mais complexa. Ao estudar o luto, o psicanalista descreveu um processo doloroso de adaptação à ausência, no qual os vínculos construídos com quem morreu não desaparecem de uma hora para outra

A própria história de Freud ajuda a entender essa discussão. Em 1920, ele perdeu a filha Sophie, aos 26 anos, durante a pandemia de gripe. Nove anos depois, escreveu ao psiquiatra Ludwig Binswanger, que havia perdido um filho. Na carta, Freud reconheceu que a fase mais aguda do luto diminuiria, mas também afirmou que a perda não encontraria um substituto.

O que Freud chamou de “trabalho de luto”?

Quando alguém perde uma pessoa importante, a ausência não desaparece simplesmente porque a vida precisa continuar. Uma leitura possível para esse processo está no chamado “trabalho de luto” descrito por Freud, conceito que a psicanalista, Jessica Oliveira, aborda ao explicar por que seguir em frente não significa necessariamente esquecer quem morreu.

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O conceito aparece em “Luto e Melancolia”, texto publicado por Freud em 1917. Nele, o psicanalista descreve o luto como uma reação diante da perda de alguém querido ou de algo que ocupava um lugar significativo na vida.

A realidade da perda precisa ser reconhecida gradualmente, enquanto lembranças, expectativas e outros vínculos relacionados àquilo que foi perdido continuam presentes. É nesse processo que Freud utiliza a noção de “trabalho de luto”, entendido como um processo psíquico que envolve tempo e elaboração.

O chamado trabalho de luto diz respeito à maneira como a pessoa passa a lidar psiquicamente com aquilo que perdeu. Freud também diferenciou o luto da melancolia, que, em sua formulação, apresenta características próprias, entre elas uma forte redução da autoestima e autorrecriminações. No luto, a reação está diretamente relacionada à perda reconhecida.

Por que Freud dizia que ninguém substitui quem morreu?

A ideia aparece em uma carta enviada por Freud a Binswanger em 12 de abril de 1929, após a morte do filho do psiquiatra. Freud escreveu que a dor mais intensa diminuiria, mas que não haveria um substituto para a pessoa perdida. Um novo vínculo seria, simplesmente, outra coisa.

A reflexão ajuda a diferenciar elaborar uma perda de apagar alguém da própria história. Para Freud, seguir a vida não significava necessariamente deixar de sentir a falta ou encontrar outra pessoa para ocupar o mesmo lugar.

Superar significa esquecer?

Não necessariamente. O chamado trabalho de luto está relacionado à transformação da maneira como a perda é vivida, e não ao desaparecimento da lembrança.

Assim, quando alguém diz “você vai superar”, isso pode significar que a dor vai mudar com o tempo, e não que a pessoa será esquecida. A vida pode continuar sem que a importância de quem morreu deixe de existir.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por robertosouza.

Conteúdo Original / Fonte: robertosouza
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