LĂ­der do PCC condenado Ă© preso na BolĂ­via apĂłs anos foragido

Gerson Palermo, que fugiu em 2020 após decisão polêmica de desembargador de MS, foi capturado em ação internacional e será entregue à Polícia Federal

Por Fhagner Soares, ContilNet 26/05/2026 Ă s 12:51

O narcotraficante Gerson Palermo, apontado como um dos principais líderes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), foi preso na manhã desta terça-feira (26) em território boliviano, na região de fronteira com o município de Corumbá, em Mato Grosso do Sul. Palermo estava foragido do sistema penitenciário brasileiro desde abril de 2020 e acumula uma condenação penal unificada de 126 anos de reclusão.

A confirmação da captura do megatraficante foi divulgada pela emissora CNN. De acordo com as autoridades de segurança envolvidas na operação internacional, o criminoso está sob custódia e as forças policiais bolivianas preparam os trâmites burocráticos para entregá-lo oficialmente à Polícia Federal (PF) em Mato Grosso do Sul.

No histĂłrico de delitos de Palermo constam ações criminosas de grande porte e o envolvimento indireto na derrocada jurĂ­dica de um magistrado de segundo grau. No ano de 2017, ele foi o alvo central da Operação All In, deflagrada pela PF para desarticular rotas de tráfico de cocaĂ­na. No ano passado, seu nome voltou aos relatĂłrios policiais sob a acusação de arquitetar o sequestro da prĂłpria filha. Contudo, suas ações remontam a dĂ©cadas anteriores: na dĂ©cada de 1990, sua imagem estampava mais de 50 mil cartazes de “procura-se” espalhados pela PF em todo o paĂ­s e, no dia 16 de agosto de 2000, liderou o sequestro de um Boeing da Vasp que havia decolado de Foz do Iguaçu (PR), obrigando o piloto a pousar em Porecatu (PR) para roubar R$ 5,5 milhões em malotes do Banco do Brasil.

O episódio que garantiu sua liberdade provisória ocorreu no dia 21 de abril de 2020, feriado nacional de Tiradentes. Durante o plantão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), o desembargador Divoncir Schreiner Maran concedeu um habeas corpus permitindo que Palermo migrasse para o regime de prisão domiciliar, sob a alegação da defesa de que o detento tinha mais de 60 anos, sofria de diabetes e hipertensão, enquadrando-se no grupo de risco da pandemia de Covid-19.

A decisĂŁo liminar foi cassada apenas 24 horas depois, em 22 de abril, pelo relator oficial do processo, desembargador Jonas Hass Silva JĂşnior. Cont entanto, apenas oito horas apĂłs instalar o equipamento, o chefe do PCC rompeu a tornozeleira eletrĂ´nica e desapareceu do radar das autoridades.

Investigações subsequentes da Polícia Federal apontaram indícios de venda de sentença e manipulação administrativa no gabinete do magistrado. Relatórios revelados em maio de 2024 pela ministra Maria Isabel Gallotti, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), indicaram que a minuta da soltura de Palermo começou a ser redigida antes mesmo de o pedido de habeas corpus ser distribuído formalmente no sistema.

Mensagens interceptadas mostraram que uma assessora do gabinete alertou superiores sobre a fragilidade do pedido, que nĂŁo continha laudos mĂ©dicos, avisando que seria necessária uma “gambiarra” jurĂ­dica para fundamentar a soltura, configurando supressĂŁo de instância. Na ocasiĂŁo, o desembargador Divoncir tambĂ©m apagou as mensagens de seu celular antes das perĂ­cias.

A PolĂ­cia Federal passou a seguir o fluxo financeiro da famĂ­lia do magistrado aposentado, suspeitando que os valores obtidos com a suposta venda da decisĂŁo judicial tenham sido ocultados por parentes. O advogado Vânio Maran, filho do desembargador, passou a ser investigado como operador do esquema apĂłs movimentar R$ 1,074 milhĂŁo em um intervalo de nove meses, montante incompatĂ­vel com sua renda mensal declarada de R$ 7,6 mil Ă  Ă©poca. A PF apontou o uso de transações agropecuárias simuladas, conhecidas como “boi de papel”, para lavar o dinheiro — acusação que Ă© negada pela defesa do investigado.

A esposa do magistrado, Viviane Alves Gomes de Paula, também foi incluída nos inquéritos por evolução patrimonial incompatível. Conforme novas interceptações telefônicas e detalhes expostos recentemente pelo programa Fantástico, da TV Globo, Viviane é suspeita de pagar em dinheiro vivo despesas de uma mansão de alto padrão orçada em R$ 2,1 milhões em um condomínio de luxo em Campo Grande.

Os diálogos indicam pagamentos em espécie de R$ 650 mil para móveis planejados e R$ 40 mil em ferragens, muitas vezes entregues no interior de veículos para evitar o rastreamento bancário e contornar as regras das empresas fornecedoras, que exigiam boletos ou Pix. Desde o início das operações de busca e apreensão, a defesa do desembargador Divoncir Schreiner Maran e de seus familiares nega categoricamente qualquer envolvimento no comércio de decisões judiciais ou em atos de lavagem de dinheiro.

ConteĂşdo Original / Fonte: Fhagner Soares, ContilNet

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