Mais de 30 anos depois de, como presidente da RepĂşblica, ter comandado a polĂtica econĂ´mica mais audaz e traiçoeira da histĂłria do paĂs, com o confisco da poupança dos brasileiros, o ex-presidente Fernando Collor, tem, nesta quarta-feira (24), em BrasĂlia, um encontro com a histĂłria e a Justiça.
Para quem nada sofreu por causa daquela medida que levou centenas de milhares Ă misĂ©ria, quando alguns chegaram atĂ© a se suicidar e outros simplesmente enlouqueceram, Fernando Collor, cujo impeachiment da presidĂŞncia da RepĂşblica se deu por outras razões, pode terminar o dia, nesta quarta-feira (24), como um condenado a caminho da prisĂŁo com uma pena de 30 anos de prisĂŁo a cumprir. As razões sĂŁo outras, mas a sensação de Justiça contra o polĂtico sĂŁo as mesmas, principalmente para a famĂlia Kairala, de BrasilĂ©ia, no interior do Acre.

Fernando Collor de Melo. Foto: Reprodução
É que hoje o Supremo Tribunal Federal (STF) retoma o julgamento do ex-presidente e ex-senador Fernando Collor. A Corte já tem dois votos favoráveis para condená-lo pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa no perĂodo em que estava no Senado, de 2010 a 2014. A corrupção seria atravĂ©s da BR-Distribuidora, uma subsidiária da Petrobrás atravĂ©s da qual o entĂŁo senador se beneficiava na escolha de quem seria contratado a prestar serviços Ă estatal.
O relator do processo é o ministro Edson Fachin, que votou para fixar uma pena de 33 anos, dez meses e dez dias de reclusão em regime inicial fechado para o ex-presidente. Seu voto foi acompanhado pelo ministro Alexandre de Moraes — o magistrado, entretanto, analisará a parte relativa às penas posteriormente. Assim, restam os pareceres de oito ministros do STF.
Faltam votar os ministros Dias Tofolli, Risa Weber e Gilmar Mendes, cujos votos serĂŁo conhecidos nesta quarta-feira.
AlĂ©m da pena de prisĂŁo, o relator propĂ´s pagamento de multa de cerca de R$ 1,7 milhĂŁo (em valores corrigidos pela inflação) e interdição para exercĂcio de cargo ou função pĂşblica “pelo dobro do tempo da pena privativa de liberdade aplicada”.
O caso em julgamento Ă© uma ação contra Collor por supostos recebimentos de propinas em contratos da BR Distribuidora, antiga subsidiária da Petrobras na venda de combustĂveis. As investigações começaram na Operação Lava Jato e a denĂşncia foi apresentada em 2015 pela Procuradoria-Geral da RepĂşblica (PGR) e aceita em 2017 pela 2ÂŞ Turma do STF.
Os crimes teriam ocorrido entre 2010 e 2014. A PGR acusou o ex-presidente e seu grupo de terem recebido R$ 30 milhões em propina. De acordo com a denúncia, a suposta organização a qual Collor pertenceu teria recebido vantagens indevidas em contratos da BR Distribuidora em um suposto esquema que envolveria a influência do então senador para indicações estratégicas na empresa.
Além de Collor, respondem à ação Pedro Paulo Bergamaschi de Leoni Ramos, apontado como operador particular e amigo do ex-presidente, e Luis Pereira Duarte de Amorim, apontado como diretor financeiro das empresas do ex-senador.
O relator votou para condenar os outros dois réus. Bergamaschi a uma pena de oito anos e um mês de reclusão, e Amorim a uma pena de 16 anos e dez meses de reclusão, ambas em regime inicial fechado.
Fachin votou para determinar o pagamento de uma indenização por danos morais coletivos em R$ 20 milhões. Conforme o relator, o valor deve ser pago por Collor, Bergamaschi e Amorim.
No Acre, para a famĂlia Kairala, de BrasilĂ©ia, a possĂvel prisĂŁo de Collor chega tambĂ©m com a sensação de Justiça e alĂvio, uma vez que o ex-presidente e ex-senador Ă© o herdeiro polĂtico do entĂŁo senador Arnon de Melo. O pai de Collor foi o homem que, em 6 de dezembro de 1962, matou com um tiro, no plenário do Senado, em BrasĂlia, o senador acreano Kairala JosĂ© Kairala.
É certo que, na verdade, Arnon de Melo quisesse matar seu adversário na polĂtica em Alagoas, o tambĂ©m senador Silvestre PĂ©ricles, que o havia ameaçado de morte. Mas, ao atirar no adversário, Arnon de Melo errou a mira e acertou o senador acreano, que nada tinha a ver com os dois e apenas tirava fotografias com a famĂlia como lembranças de sua passagem pelo Senado durante trĂŞs meses como suplente do entĂŁo senador JosĂ© Guiomard Santos.
