Marcus Alexandre: “Se temos problemas nas ruas de Rio Branco, imaginem na BR-364”

Por Marina, ContilNet 06/08/2017 às 18:09

Concentrando a metade da população acreana, cerca de 400 mil pessoas, Rio Branco é uma cidade complexa com problemas de toda ordem. As ocupações desordenadas, aliada a negligência de um planejamento eficaz, a fez piorar com os passar dos anos.

O saneamento básico e a proteção ao meio ambiente são uma verdadeira tragédia. Despeja-se, sem tratamento prévio, cerca de 80% dos esgotos no Rio Acre e nos igarapés que cortam a cidade. Houve aumento do desmatamento, não existe despoluição de nenhum manancial e não separamos nem reaproveitamos os resíduos sólidos. Tudo isso, aliado a outras mazelas, faz a tal sustentabilidade ser uma mera peça de retórica.

Mas essas e outras responsabilidades são compartilhadas pelo fato de o governo estadual ainda realizar muitos trabalhos do município: habitação popular, pavimentação, saneamento, fiscalização do trânsito e gestão dos parques. Quando o ente município resgatará o domínio sobre a sua própria administração?

Uma das marcas do gestor petista é estar cedo nas ruas/Fotos: assessoria

No tocante à política, algo inusitado aconteceu em 2016. Desde a Redemocratização, todas as eleições haviam sido equilibradas, com o os candidatos ganhando por pequena margem de votos. Contudo, na última disputa, o prefeito reeleito Marcus Alexandre colocou quase 45 mil votos de diferença na sua principal concorrente no exato momento em que seu partido, o PT, estava sendo varrido das administrações e execrado por uma parte considerável da opinião pública.

Enquanto as relações dos políticos com as pessoas estão cada vez mais distantes, o prefeito acredita que, em geral, elas precisam de muito, mas, no fundo, o que querem é tão pouco que o poder púbico tem a obrigação de procurar atendê-las dentro do menor espaço de tempo possível. Um dos caminhos para esse atendimento imediato, segundo ele, é a presença do gestor púbico nas ruas, em contato direto com o povo, com quem precisa.

A equação simplista é o método pelo qual o alcaide se utiliza para fazer um mandato popular e se inserir historicamente entre os gestores mais atuantes da Capital. Acorda às 5 da manhã porque, a seu ver, sobra mais tempo para os compromissos. O fato é que o político se tornou uma referência como líder carismático, assemelhando-se a nomes como Jorge Viana, Flaviano Melo, Nabor Júnior e Jose Guiomard Santos.

Mas nem tudo são flores. A crise econômica e os revesses das administrações dos presidentes Dilma Rousseff e agora Michel Temer, que repercutiram em cortes no Fundo de Participação dos Municípios (FPM), obrigam o gestor a ser mais comedido.

Quanto à crise vivenciada pelo seu partido, Marcus Alexandre não aceita que criminalizem a legenda e conclama os dirigentes para fazerem uma reflexão: “acima de tudo é preciso humildade e assumir erros”, assim concebe ele, para quem o PT, por ter bandeiras como a justiça social e democracia, ainda é um partido ideológico.

Recém-chegado de Brasília, ele recebeu a nossa reportagem em um gabinete improvisado na Secretaria Municipal de Assistência Social, a Semcas, para falar sobre a sua administração, as recentes pesquisas eleitorais, a confluências das crises que assolam o país e de suas propostas para comandar o Acre, caso seja escolhido como candidato ao governo.

Vejam os principais trechos.

Marcus Alexandre em suas andanças pelas comunidades de Rio Branco

ContilNet – O senhor apareceu bem em uma pesquisa divulgada na semana passada. Como analisa aqueles números?

Marcus Alexandre – Primeiro com humildade. Depois como um incentivo para continuarmos trabalhando. Eu fico feliz por meu nome ser lembrado. Talvez seja por causa da nossa presença nas ruas, conversando com as pessoas, dizendo sim quando puder e não quando não puder, isto é, sendo sincero e verdadeiro. Eu procuro ser assim em tudo que eu faço para honrar as pessoas, a minha família e a população. Ainda estamos distantes do processo eleitoral. A pesquisa é sempre um retrato do momento. O governador lançou um processo inovador, democrático, vez que temos quatro pré-candidatos em discussão. Muito me honra estar ao lado de Daniel Zen, Nazareth Araújo e Emylson Farias, que são pessoas de competência comprovada, honradas e de caráter

ContilNet – O senhor renunciaria ao cargo de prefeito para ser candidato ao governo do Acre?

Marcus Alexandre – Ainda é muito cedo. A Frente Popular está fazendo uma discussão interna. Na época em que o Jorge Viana foi prefeito e cogitaram o seu nome para ser candidato a governador, ele tinha apenas um ano e quatro meses na gestão. Não renunciou, ao contrário do Flaviano Melo, que tinha o mesmo tempo, mas abdicou para ser candidato ao governo em 2002. No ano que vem, estarei completando seis anos de mandato. Existem diferenças entre esses três momentos. Vamos aguardando o debate na Frente Popular, pois você não se convida, mas é convidado.

ContilNet – Tendo por base o zoneamento ecológico-econômico do Acre, o que o senhor faria para alavancar a economia acreana?

Marcus Alexandre – Pela Secretaria de Planejamento, eu tive a oportunidade de participar da elaboração do zoneamento e depois da sua revisão. Em primeiro lugar, temos que aproveitar no limite as áreas abertas, com respeito ao meio ambiente e à legislação ambiental. Eu acredito muito na força do agronegócio. Estamos vendo os exemplos de outros estados, inclusive superando a crise. O governador Tião Viana apostou na piscicultura, no milho e no incentivo à instalação da indústria Dom Porquito em Brasileia. Também acredito na agroindústria da fruticultura, mas com a desburocratização das linhas de créditos.
Também acredito muito na geração de renda através dos créditos de carbono, nessa relação que temos como o mundo. Em Tarauacá e Manoel Urbano, temos indústrias ligadas à extração racional da madeira. Em Cruzeiro do Sul, temos a fábrica de beneficiamento do peixe.

Precisamos nos adequar à vocação de cada região, buscando ciência e tecnologia de parceiros como as universidades, o Ifac, a Embrapa, entre outros. O governador Tião Viana está no caminho certo. Eu não tenho uma visão romântica sobre a economia. No toante a produção, precisamos ser mais pragmáticos e quebrar paradigmas.

ContilNet – A questão ambiental e o saneamento básico não foram prioridades nas administrações petistas. Por quê?

Marcus Alexandre – Eu discordo em parte porque grandes investimentos têm sido feitos em água e esgoto. O governador Tião Viana, de forma corajosa, assumiu esse setor em 2011. Melhorou muito de lá para cá. Vou dar exemplos, como a construção da adutora da Via Verde, saindo da ETA II para abastecer vários bairros do Segundo Distrito. Também construímos a ETE São Francisco, que é a maior estação de tratamento de esgoto. Além disso, tem os investimentos feitos no interior, com destaque para os municípios sem acessos rodoviários como Jordão, Santa Rosa do Purus, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo.

Houve ainda grande investimento na Cidade do Povo, beneficiando mais te três mil famílias com o sistema de água e esgoto. OPrograma Ruas do Povo, que só em Rio Branco beneficiou cerca de 60 bairros. Foram feitos, sim, grandes investimentos neste setor que tem demandas históricas. O Tião Viana foi o governador que mais investiu em saneamento básico.

Marcus não descarta a sua condidatura em 2018 para governador

ContilNet – E a BR-364 no sentido Rio Branco-Cruzeiro do Sul? Existem tecnologias para se fazer uma estrada de qualidade naquela região?

Marcus Alexandre – O nosso estado tem duas regiões distintas. Uma delas é o Vale do Acre. As estradas que ligam Rio Branco, Xapuri e Brasileia, a de Plácido de Castro, a que liga este município a Acrelândia, a de Porto Velho e até a que vai para Boca do Acre, no Estado do Amazonas, todas têm características diferente por causa do solo.

A margem direita da Bacia do Rio Acre tem a oferta da piçarra, a chamada laterita. Nós só vamos encontrar outra região com boas condições de solo na margem esquerda do rio Juruá, abrangendo os municípios de Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves e Mâncio Lima. No entanto, do município do Bujari até mais da metade de Tarauacá, não temos solos de qualidade para rodovias. É uma região de solo sedimentares e expansivos, principalmente a Bacia do Purus, sem suporte e muita argila [tabatinga].

O projeto que nós executamos ao longo do trecho foi aprovado pelo DNIT, que previa a incorporação de cimento para melhorar as condições do solo. Existem muitos aterros e cortes na região do Jurupari. As boas condições da rodovia estão ligadas à conservação. Quando o governo do Estado entregou essa responsabilidade para o DNIT, se não me engano em 2013, a viagem até Cruzeiro do Sul era feita em um pouco mais de sete horas. Desde então, com a precariedade da manutenção principalmente no inverno, ela chegou às condições que se encontra hoje.

Se temos problemas nas ruas de Rio Branco, imaginem na BR-364 com a vegetação lateral, como os diversos cursos d’água elevando o lençol freático. Em suma, é uma das obras de maior complexidade se comparada outras regiões do país.

ContilNet – Uma das principais marcas da sua administração é a participação popular, notadamente no orçamento participativo, onde líderes comunitários ajudam a decidir quais e quantas serão as intervenções da prefeitura. Como isso se dá?

Marcus Alexandre – Ninguém é diferente de ninguém. Perante a Deus somos todos iguais. Como engenheiro e, principalmente no Deracre, eu aprendi que não se pode construir sem ouvir os interessados.

Fazer uma obra sem conversar com as pessoas é um erro grande. Eu fico angustiado quando não visito um bairro. Praticamente todos os dias eu vou a alguma comunidade. Eu acredito que, dizendo a verdade, vai-se longe e as pessoas, graças a Deus, acreditam na gente.

O diálogo franco é a melhor maneira de se relacionar e, dessa forma, a gente acerta mais do que erra. Por dia, eu recebo mais de 250 ligações de moradores e líderes comunitários. De todos os gestores quem está mais próximo da população é o prefeito.

ContilNet – O senhor exerce um cargo público e pode ser candidato a outro ainda maior. Como é ser político num momento em que a classe está descrédito?

Marcus Alexandre – Estamos vivendo um momento muito difícil no país. Estamos precisando de muita oração. A crise econômica é profunda e se agrava com a crise política, ética e moral. A crise chegou aos lares de todos os brasileiros. Precisamos achar um caminho e esse caminho é a democracia. É nesses momentos difíceis que se conhecem os gestores, principalmente por causa da escassez de recursos.

Eu tenho apertado o cinto e me adequando a essa realidade. O compartilhamento das decisões como a população é a única forma para os governantes acertarem. Isso legitima um governo, em qualquer que seja a esfera, ao mesmo tempo em que divide as responsabilidades.

ContilNet – O que é inversão de prioridades?

Marcus Alexandre – Inversão de prioridades é oferecer ou levar os serviços essenciais com o máximo de eficiência. Nenhuma nação ou povo se desenvolveu sem investir maciçamente em educação. Essa é a minha prioridade zero. Outra prioridade é a saúde, que precisar ser verdadeiramente humanizada, onde as pessoas se sintam acolhidas, tratadas com respeito. Inversão de prioridades é fazer da política aquilo que é seu único propósito: servir as pessoas. As creches, por exemplo, são de extrema necessidade. Fizemos 11 e vamos fazer mais quatro. Nós temos 55 unidades de saúde e 25 foram construídas na minha gestão. E estamos fazendo mais seis.

ContilNet – O que mais lhe dá satisfação em ser prefeito de Rio Branco?

Marcus Alexandre – O meu maior orgulho como é ter uma relação de respeito e carinho com a população. Somos a prefeitura que mais construiu creches e unidades de saúde. Tivemos um fantástico investimento no esporte, sobretudo por entendermos que é um dos instrumentos mais eficazes para a inclusão social. Também implantamos a internet social, o mercado do peixe, entre outras ações.

ContilNet – Qual é a sua relação com a Câmara Municipal?

Marcus Alexandre – É uma relação institucional e de respeito com as autonomias dos poderes Executivo e Legislativo. Acredito na democracia como valor universal e no sistema de freios e contrapesos proporcionado por essa republicana divisão de poder. Se fizermos política com grandeza, colocando os interesses da população acima de qualquer coisa, o entendimento e o diálogo fluirão.

Raio-X:

Marcus Alexandre Médici Aguiar Viana tem 40 anos, é formado em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de São Paulo, veio para o Acre em 1999, onde trabalhou nos seguintes cargos: Chefe do Departamento de Planos, Programas, Projetos e Captação de Recursos, da Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação, Rio Branco – Acre; Secretário Adjunto da Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Econômico Sustentável – SEPLANDS, de 2003 a 2006; Coordenador do Projeto PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento BRA 99/005 – Desenvolvimento Humano Sustentável do Acre; Coordenador da Unidade Executora do Contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento BID 1399/OC-BR – Programa de Desenvolvimento Sustentável do Acre; Diretor Geral do Deracre – Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre de 2007 a 2012.

É casado com a também Engenheira Civil, Gicélia Viana da Silva Melo Aguiar, tem três filhos, Ian, Caio e Alexandre Gael. Foi eleito prefeito de Rio Branco em 2012 com 50,77% dos votos válidos (90.557 votos) e reeleito em 2016 com 54,87% dos votos, o que corresponde a 104.311 votos.

O prefeito chegou ao Acre em 1999 e já ocupou vários cargos antes de chefiar o Executivo municipal

 

Conteúdo Original / Fonte: JORGE NATAL, DA CONTILNET

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