Lula define juiz de tribunal que vai julgar cassação de Sergio Moro

Presidente escolheu advogado que já atuou na defesa de Deltan Dallagnol em ação de indenização por danos morais

Por Marina, ContilNet 07/02/2024 às 20:20
O presidente Lula (PT) e o senador Sergio Moro (União-PR): histórico de embates desde a Lava-Jato — Foto: Montagem com fotos de Cristiano Mariz/Agência O Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu nesta quarta-feira (7) indicar o juiz José Rodrigo Sade para o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, onde serão julgadas duas ações que podem levar à cassação do senador Sergio Moro (União Brasil-PR). A indicação pode ser publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira.

Sade tinha o apoio do grupo Prerrogativas e era considerado o favorito a ficar com a vaga, ainda que tenha atuado como advogado de Deltan Dallagnol, ex-coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba que teve o mandato de deputado federal cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023.

O presidente Lula (PT) e o senador Sergio Moro (União-PR): histórico de embates desde a Lava-Jato — Foto: Montagem com fotos de Cristiano Mariz/Agência O Globo

O advogado defendeu Deltan em uma ação privada de indenização por danos morais, fora, portanto, do campo do direito eleitoral. No caso, o ator José de Abreu foi condenado a pagar R$ 41,8 mil a Deltan devido a ofensas pessoais contra o ex-procurador postadas no Twitter.

O TRE do Paraná aguardava a indicação de Lula para agendar a data do julgamento das ações, movidas pelo PT de Lula e pelo PL de Jair Bolsonaro. A análise do caso, que já foi remarcada duas vezes e está imersa em intrigas e especulações, foi suspensa até uma definição de Lula.

Isso porque o Código Eleitoral prevê que julgamentos dessa natureza, que envolvam cassação de mandato, só devem ser feitos com quórum máximo – ou seja, quando o tribunal estiver com todos os juízes.

Segundo a equipe da coluna apurou, o presidente do TRE-PR, desembargador Sigurd Roberto Bengtsson, avalia marcar a data da posse de Sade para esta quinta-feira (8), assim que a nomeação for publicada no Diário Oficial da União. Dessa forma, seria possível iniciar o julgamento de Moro no próximo dia 19, como queria o relator do caso, o desembargador Luciano Carrasco Falavinha.

De acordo com interlocutores de Lula, a disputa pela vaga do TRE do Paraná tomou mais tempo e energia dos auxiliares do petista no Palácio do Planalto do que as polêmicas decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STFDias Toffoli, que suspendeu as multas bilionárias impostas à J&F e à Odebrecht em seus acordos de leniência, com impacto de mais de R$ 14 bilhões aos cofres públicos.

No último dia 1º, o plenário do TSE aprovou a lista da Corte paranaense. Já no dia seguinte, o presidente do tribunal, Alexandre de Moraes, a encaminhou para o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, com currículos e dados pessoais dos três candidatos. A lista chegou ao Planalto na última terça-feira (6).

“Acreditamos que o Sade tem mais condições de examinar com isenção o processo e está menos contaminado das influências do Moro no Paraná”, disse à equipe da coluna o coordenador do grupo Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho.

Moro será julgado por abuso de poder econômico, caixa 2 e uso indevido dos meios de comunicação no pleito de 2022. PT e PL pretendem mostrar que a exposição e os recursos de Moro na pré-campanha para a Presidência da República deram a ele uma vantagem indevida na campanha para o Senado.

O ex-juiz decidiu disputar uma cadeira pelo Paraná após desistir da candidatura à presidência pelo Podemos e migrar para o União Brasil. Em depoimento prestado ao TRE do Paraná em dezembro do ano passado, Moro disse que é alvo de “perseguição política”.

Sade disputou a vaga no TRE paranaense com outros dois advogados: Roberto Aurichio Junior e Graciane Aparecida – considerada fora do páreo por ter sido nomeada por Moro, então ministro da Justiça, como integrante do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, em 2019.

Tanto Sade quanto Aurichio Junior eram juízes substitutos do TRE-PR até o fim do mês passado, quando o mandato dos dois chegou ao fim. Sade vai ocupar a vaga do advogado Thiago Paiva, que se despediu do tribunal no dia 23 de janeiro.

Embora pareça uma questão trivial, a data do julgamento de Moro é importante porque, conforme informou a equipe da coluna, o tempo joga a favor do ex-juiz da Lava-Jato. Isso porque, quanto mais cedo o julgamento for concluído no TRE paranaense, mais cedo ele chegará ao TSE.

Se Moro perder no Paraná, ele ainda pode seguir no cargo e entrar com recurso no TSE, a quem caberá dar a decisão sobre o pedido feito pelo PL e pelo PT para que ele perca o mandato e sejam convocadas novas eleições. Se o TRE absolvê-lo, PT e PL podem recorrer.

A avaliação tanto de aliados de Moro como de seus adversários é de que os ministros do TSE teriam, em tese, mais disposição de encerrar abruptamente o mandato do senador do que os juízes do Paraná, Estado cujo judiciário ainda tem adesão à Lava-Jato e sofre influência do ex-magistrado.

O fator tempo também influi aí por outra razão. No momento, o TSE é presidido por Alexandre de Moraes, que deu um dos sete votos pela cassação do ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo-PR).

Só que, no início de junho, Moraes deixa o TSE e, pelo rodízio entre ministros do Supremo no tribunal, deve abrir uma vaga a ser ocupada por André Mendonça — um magistrado fora da órbita petista e mais simpático ao “legado” do ex-juiz federal na Lava-Jato.

Portanto, quem quer cassar Moro não apenas deseja que o TRE do Paraná o julgue o quanto antes, mas prefere que o caso chegue ao TSE ainda no primeiro semestre, antes da troca de Moraes por Mendonça.

Conteúdo Original / Fonte: O GLOBO

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