Alvo da CPI da Covid no Senado, o uso de verbas federais para combate ao coronavĂrus por Estados e municĂpios já rendeu 75 operações especiais da PolĂcia Federal desde o inĂcio da pandemia. As irregularidades investigadas atingem prefeituras ou governos de 23 Estados e somam quase R$ 2,2 bilhões, valor que representa 3,5% dos R$ 64 bilhões repassados pelo Sistema Ăšnico de SaĂşde (SUS).
As investigações tiveram inĂcio em abril de 2020, a partir de denĂşncias de superfaturamento em contratos envolvendo recursos federais. A prefeitura de Aroeiras (PB) foi alvo da primeira ação, que teve como foco a compra, sem licitação, de livros e cartilhas educativas sobre o vĂrus – material que, na Ă©poca, era oferecido pelo MinistĂ©rio da SaĂşde sem custo.
De lá para cá, mais 93 municĂpios entraram na mira da PF e de outros ĂłrgĂŁos federais, como a Controladoria-Geral da UniĂŁo (CGU) e o MinistĂ©rio PĂşblico Federal (MPF), que geralmente participam das operações. Em um ano, foram cumpridos 1.160 mandados de busca e apreensĂŁo, que levaram Ă prisĂŁo temporária de 135 pessoas e Ă prisĂŁo preventiva de outras 12.
A lista de detidos inclui atĂ© um senador. Chico Rodrigues (DEM-RR), que naquela Ă©poca era vice-lĂder do governo de Jair Bolsonaro no Senado, acabou preso em outubro do ano passado por suspeita de participar de um esquema que teria desviado recursos de emendas parlamentares destinadas ao enfrentamento da doença em Roraima. Durante a abordagem dos policiais, Rodrigues escondeu R$ 33 mil na cueca. Rodrigues, que nega as acusações, pediu licença do mandato e ficou quatro meses afastado, retomando a atividade parlamentar em fevereiro. Ele afirmou que o dinheiro encontrado Ă© lĂcito e seria usado para o pagamento de funcionários de uma empresa familiar.
Rodrigues nĂŁo integra a CPI, mas casos como o dele devem ser abordados ao longo da ComissĂŁo Parlamentar de InquĂ©rito que deve ser instalada na prĂłxima terça-feira. Com a ampliação do escopo da investigação – apĂłs pressĂŁo do governo Jair Bolsonaro -, denĂşncias de irregularidades no uso de verba federal por Estados e municĂpios podem levar governadores e prefeitos a compor a lista de “convidados” pelo grupo.
O prefeito de Manaus, David Almeida (PSC), deve ser um dos primeiros a serem ouvidos no subgrupo da CPI que terá como alvo a crise de oxigênio no Amazonas. O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello já responde a processo aberto pelo Ministério Público Federal (MPF) no Estado por improbidade administrativa derivada de suposta omissão durante o colapso.
‘Iceberg’
Defensor da ampliação do escopo da CPI, o senador Eduardo GirĂŁo (Podemos-CE) afirmou que “as operações da PF sĂŁo de muita relevância por permitir que os recursos alocados no combate Ă covid cheguem ao povo brasileiro”. Sobre o fato de as apurações policiais alcançarem apenas 3,5% do total de repasses feitos pelo SUS, o parlamentar disse que o valor pode ser apenas a “ponta do iceberg”. “Apurar o destino de R$ 64 bilhões requer mais tempo, Ă© um valor considerável.” GirĂŁo se coloca como candidato a presidir a CPI da Covid. Pelo acordo feito entre os partidos, porĂ©m, o posto de presidente deve ficar com Omar Aziz (PSD-AM) e a relatoria, com Renan Calheiros (MDB-AL). Os cargos serĂŁo oficializados na primeira reuniĂŁo do colegiado, na terça-feira.
O senador Izalci Lucas (PSDB-DF) acredita que a quantidade de operações policiais e o volume de recursos sob investigação justifica a ampliação do escopo da CPI. “É justo que se apure tudo mesmo. Os indĂcios sĂŁo muito fortes de irregularidades no uso de recursos federais por Estados e municĂpios nĂŁo sĂł pelo governo federal.”
Para o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), autor do pedido de CPI, mesmo que o valor identificado em operações da PF nĂŁo seja tĂŁo importante quando se olha o total, ainda assim diz respeito a recursos pĂşblicos, o que justifica fazer a investigação. “A CPI sĂł vai poder atuar naquilo que for conexo com o fato principal, ou seja, aquilo que tiver repercussĂŁo nacional. Identificando algum indĂcio de movimentação atĂpica ou indĂcios de crime ou infração administrativa, o relatĂłrio da CPI poderá fazer o encaminhamento aos ĂłrgĂŁos de controle.”
Segundo a PF, apenas o Rio tem sob investigação R$ 850 milhões de recursos enviados pelo governo federal em razão da pandemia. A operação desencadeada no Estado provocou o afastamento do governador Wilson Witzel (PSC), que foi denunciado pelo MPF, acusado de corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e de organização criminosa. Ele alega inocência.
Os governadores do Amazonas, Wilson Lima (PSC), e do Pará, Helder Barbalho (MDB), tambĂ©m já foram alvo de operações. Ambos sĂŁo investigados pela compra de respiradores. Em fevereiro, a PF pediu o indiciamento de Barbalho pela transação fracassada de compra de 400 aparelhos por R$ 50 milhões. Segundo a polĂcia, o contrato dos equipamentos se deu sem licitação e com pagamento de metade do valor adiantado, mesmo com atraso na entrega. Há suspeitas de direcionamento na licitação. O governador nega.


