Como na canção imortalizada na inesquecível voz de Nelson Gonçalves, ele voltou. Voltou novamente, se o leitor puder descontar o pleonasmo. Mas é exatamente isso que está acontecendo: Aysson Bestene está de volta à Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre) exatos quatro meses depois de ter sido exonerado pelo governador Gladson Cameli para abrir espaço à médica do Distrito Federal Mônica Kannaã e os coronéis da reserva do Exército que a acompanhavam, os quais, pelo jeito, se não aprofundaram os problemas, não resolveram aquilo que o chefe do palácio Rio Branco tem dito parecer ter uma “cabeça de burro” enterrada no setor.
Ele está de volta bem diferente do diletantismo que a música Boemia sugere. O que o espera é trabalho, muito trabalho. Nesta segunda-feira (11), o secretário reempossado recebeu a reportagem do ContilNet para apresentar sua nova equipe e falar do trabalho que pretende executar. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Nova equipe assume a pasta e encontra desafios/Foto: ContilNet
ContilNet- Secretário, já que o governador do Estado está lhe dando a oportunidade de ser secretário de Saúde novamente, eu lhe pergunto: o que o senhor não fez que agora faria ou o que fez que não mais repetiria à frente da pasta?
Alysson Bestene – Muitas coisas. Mas eu gostaria de dizer que, quando assumimos a secretaria naquele primeiro momento, nós tínhamos um planejamento bem coeso diante daquilo com o qual a gente se deparou desde a transição do governo passado para o atual, para receber a Secretaria de Saúde. Ali a gente começou a perceber os gargalos que haviam no sistema…
ContilNet- Que gargalos são esses? São os de sempre? Pessoas em macas improvisadas e tendo que ficar deitadas nos corredores dos hospitais, falta de médicos, de medicamentos e as filas enormes, além das cirurgias represadas? É isso o problema do setor de saúde?
Além de todos esses problemas citados, eu acrescentaria déficit de profissionais. A gente recebeu a Secretaria com problemas como o do Pró-Saúde, com salários atrasados no mês de dezembro de 2018, que não foi honrado pela gestão anterior, além de várias dívidas, em torno de R$ 68 milhões. Eram compromissos que precisavam ser honrados naquele primeiro momento para que a gente pudesse dar continuidade à prestação de serviço. Um dos nossos grandes problemas naquele primeiro momento era voltar a ganhar a credibilidade dos fornecedores.
ContilNet- Entre esses fornecedores estavam o de oxigênio, esse elemento fundamental à vida de muitos pacientes?
Sim. Este era um dos nossos principais problemas. Problemas de contratos vencidos para o fornecimento do produto e nós tivemos que fazer contratos emergenciais para que pudéssemos dar continuidade aos tratamentos às pessoas que estavam na ponta e precisando de cuidados, não sofressem com a descontinuidade do serviço. Então, naquele momento nós criamos as situações para manter o sistema de Saúde em equilíbrio. Recordo-me bem, na minha saída, em junho, na transição para a administração da secretária Mônica Kannaã, a gente já tinha certo equilíbrio no que diz respeito ao abastecimento de medicamentos e ao controle desses contratos, inclusive renovando esses contratos como o do Hospital S anta Juliana, em que havia um atraso da gestão anterior de pelo menos R$ 5 milhões, que nós honramos. Isso tudo foi naquele curto período da nossa primeira gestão e, em momento algum, me arrependo das atitudes e decisões que tomamos naquele momento enquanto equipe.
ContilNet- Ao assumir, e em seu lugar, a então secretária Mônica Kannaã, disse, em claro e bom tom, que na época o grande problema da Secretaria de Saúde era falta de gestão. O que o senhor tem a dizer sobre isso? Onde o senhor acha que ela errou ao ponto de o governador tirá-la e trazer o senhor de volta?
Meu retorno foi uma decisão pessoal do governador. Deixo claro que, diante de alguns acontecimentos de cunho pessoal e profissional de como as coisas vinha sendo conduzidas, o governador tomou a decisão de montar uma nova equipe, cuja montagem passou por uma conversa comigo enquanto secretário de Articulação Política, cargo que ainda estou acumulando com o de secretário de Saúde – e é bom que se diga, que estou secretário de saúde sem ônus para a pasta, já que meu salário é o da Articulação Política. Com essa nova equipe, nós vamos utilizar o resto deste mês de novembro e dezembro para um novo planejamento e dar continuidade ao trabalho que vínhamos fazendo.
ContilNet- O senhor não concorda que há muito planejamento e pouca ação? O que vai ser feito concretamente?
Não concordo com a primeira pergunta porque, na administração pública, tudo o que se faz é com o mínimo de planeamento. Quanto à segunda pergunta, garantimos que nosso foco principal é olhar para quem está na ponta, para quem mais precisa do atendimento. Eu, enquanto profissional de saúde, com a experiência de 20 anos na minha profissão (ele é odontólogo), aliado com a doutora Paula Mariano, que é médica cardiologista, que é a secretária-adjunta, e com o Paulo Justino, que é o administrativo, que são os substituto dos dois que estavam assumindo as funções de auxiliares da então secretária (os coronéis da reserva do Exército Jorge Rezende e Marcos Faustino) – o coronel Lauro Lemos deve continuar à frente da direção do Hospital da Fundação Hospitalar do estado (Fundacre).
ContilNet- O senhor acha que agora as coisas se resolvem nesta área?
Estou confiante ,sobretudo, por causa da equipe que montamos. A doutora Paula Mariano tem um currículo invejável como cardiologista e profissional de saúde, com mais de 20 anos de experiência e é uma acreana que conhece bem o sistema. Já o Paulo é outro acreano com larga experiência no serviço púbico. Aliado a esses dois profissionais nos quais a gente tem extrema confiança, a gente pretende, nestes dois primeiros meses, além de fazermos a gestão com o exercício financeiro em equilíbrio, buscarmos o atendimento imediato para quem realmente precisa do atendimento de saúde, com a gente se colocando no lugar daqueles que estão acamados ou precisando de atendimento, e buscando uma forma de, em 2020, resolvermos esses gargalos.
ContilNet- Onde estão esses gargalos de fato?
Nossa expectativa é de melhorias tanto na parte de cirurgias que estão reprimidas, no Pronto Socorro e em diversos outros setores. Nós já estamos agindo em relação a isso e acabamos de criar uma sala de situação, um gabinete de crise para enfrentarmos esses principais gargalos que nós temos e que são evidentes perante os olhos da sociedade. A depender do esforço desta equipe, que não há de faltar, esses problemas hão de ser resolvidos.
ContilNet- Mas, voltando à primeira pergunta, que o senhor não respondeu: o que o senhor não fez na sua primeira passagem pela Secretaria e que faria agora?
Eu não poderia responder assim, de pronto, porque, como todos sabemos, o sistema de saúde é algo muito complexo e que não dar para as coisas acontecerem senão dentro de um planejamento. Isso requer ações a médio, curto e longo e prazo. Minhas ações em curto prazo, creio eu, seria a manutenção desses contratos assistenciais para evitarmos um colapso, como teríamos naquele primeiro período se não tomássemos tais medidas. A gente focou muito nisso pensando na continuidade nos serviços que existiam, mas de um forma melhorada em relação ao que foi feito ao longo de 20 anos da gestão anterior. Queríamos fazer um rompimento, mas se você romper sem planeamento, quem vai sofrer é quem está na ponta. Tudo aquilo em que a gente trabalhou ao longo de cinco meses à frente da gestão foi dar continuidade ao serviço, mas com um enfoque voltado para a humanização.
ContilNet- Como é que é isso?
É simples assim: a gente passou a motivar o servidor, passou a ter diálogo muito mais próximo com os sindicatos, buscando maior credibilidade com os fornecedores. Eu acho que isso foi fundamental naquele momento. Retomo agora para buscar aquele planejamento que nós tínhamos, no qual a gente tem, sim, algumas propostas de mudanças que vão atingir, por exemplo, o setor de cirurgias, que a gente sabe que é o nosso maior gargalo. Um exemplo das nossas tomada de decisões, logo no início da gestão: com relação aos municípios: a Secretaria de Saúde digamos que é uma espécie de mãe em relação aos municípios. Nós temos que ter essa relação com a atenção primária. A atenção primária não fazendo o seu papel, isso vai recair sobre a média e alta complexidade.
ContilNet- A atenção primária então é responsabilidade das prefeituras?
É das prefeituras e, desde o primeiro momento, a gente procurou ter essa relação e com um compromisso de fazer aquilo que fazia mais de seis anos não era feito: o repasse dos recursos às Prefeituras para o abastecimento das farmácias básicas dos municípios. Assim que assumi a Secretaria de Saúde, em primeiro de janeiro de 2019, procuramos repassar, mensalmente, os recursos destinados à aquisição de medicamentos da farmácia básica das Prefeituras, para que os municípios comprem os médicos, abasteçam os postos de saúde e possam atender. Agora, sempre será necessário ter essa boa relação com os municípios para que eles façam a parte deles no que diz respeito ao atendimento médico para que os programas de prevenção possam de fato acontecer e consequente reduzir em muito a parte da média e da alta complexidade. Isso a gente vai ter. Por isso, vamos intensificar as conversas com as prefeituras, principalmente com a prefeita da Capital, para que, unidos, possamos fazer um trabalho mais amplo e melhor.
ContilNet- Aquelas políticas implementadas pela gestão da médica Kannaã, de retirar médicos da Fundação Hospitalar, vão ser mantidas?
Na verdade, a gente vai ter uma tomada de decisão nas próximas horas. O que penso é que a gente precisa retomar aquelas atividades que vinham sendo feitas, como as cirurgias…
ContilNet- Que a secretária desmanchou?
Sim, desmanchou. Talvez, ali foram tomadas decisões com equívocos, a meu ver. A gente sabe que a Fundação Hospitalar é uma unidade de alta complexidade, onde são feitas o maior número de cirurgias eletivas e por isso a gente não pode deixar uma unidade daquelas sem retaguarda. Algum planejamento que a doutora Mônica havia feito, que a gente identifica como positivos, vão continuar, mas alguns que sofreram processo que causaram represamento nas ações, como é o caso das cirurgias, a gente vai mudar isso e dar uma atenção melhor para a Fundação, porque não podemos deixar aumentar essas filas de cirurgias, como a gente está percebendo, com cirurgias paralisadas. A doutora Paula Mariano tem experiência por ter trabalhado no complexo regulador e ela vai nos ajudar neste sentido, porque já temos esse levantamento em mãos. Então, neste primeiro período a gente vai atacar no que é emergencial para fechar bem o ano e trabalhar num planejamento para médio e longo prazo a partir de 2020.
ContilNet- Qual seria o prazo que o senhor daria à sociedade e ao governador Gladson Cameli, que por certo está ansioso e também cobra por isso, para por fim àquelas cenas bizarras de pessoas deitadas em macas improvisadas pelo chão dos hospitais, com a falta de médicos, de medicamentos e em também em relação às filas à espera de atendimento?
A gente sabe que não podemos encontrar soluções para isso da noite para o dia. A médio e em longo prazo a gente vai ter, podemos assim dizer, uma forma de respirar melhor no segundo semestre do próximo ano. Este é o nosso prazo máximo. Eu só agradeço a confiança do governador Gladson Cameli de novo e dizer que estou pronto para o desafio, que a gente sabe que não é pequeno porque a saúde é uma área complexa na qual a gente precisa da união de todos, em especial dos servidores. Espero que todos tenham confiança na equipe e que responsam aos nossos sinais de motivação e que estejam unidos conosco, porque nós conhecemos as ações necessárias à população e as dificuldades do setor e sabemos que temos também bons profissionais da área de saúde. É com essas pessoas que queremos ter uma boa relação porque, com certeza, a saúde, uma vez unidade, dará as respostas à população. A depender dos nossos profissionais, isso será possível porque eu posso dizer que, na saúde do Acre, nós temos muitos bons profissionais e que estão dispostos a fazer saúde púbica de qualidade.
ContilNet- Na Fundação Hospitalar vai haver mudanças também?
Não. Vamos manter a relação com a Fundação e sua direção e já tive uma conversa com o coronel Lauro, que é uma pessoa que tem larga experiência em gestão hospitalar. Diante do que a gente conversou, nossos planos convergem e tudo em que for possível a gente fortalecer aquela unidade de saúde, nós vamos fazer.
Foto: Odair Leal
