12/09/2026

Celular pode ajudar a proteger o cérebro dos idosos, mas exige cuidados

Uso de dispositivos digitais foi associado a menor risco de declínio cognitivo

Por Redação ContilNet
Idosos conectados: como o celular afeta a saúde dos idosos — Foto: Magnific

O celular pode ser um aliado da saúde dos idosos — mas o excesso também pode cobrar seu preço. Enquanto pesquisas associam o uso de dispositivos digitais a menores taxas de declínio cognitivo, o tempo prolongado diante da tela e movimentos repetitivos podem favorecer dores e sobrecarga nas mãos, punhos e pescoço.

De acordo com o Extra, no Brasil, 80,3% dos idosos tinham um aparelho celular para uso pessoal em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O percentual representa um crescimento de 18,3% em relação ao ano anterior.

Com a popularização dos aparelhos entre essa faixa etária, atividades como digitar, deslizar a tela e segurar o celular por longos períodos passaram a fazer parte da rotina de muitos idosos. O problema, segundo especialistas, é que as articulações e a musculatura podem ser mais vulneráveis com o avanço da idade.

Para Roberto Luiz Sobania, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM), o uso do celular exige atenção especial entre os idosos.

“As pessoas idosas já gastaram mais as articulações e perderam um pouco de massa muscular.”

Por isso, segundo o especialista, o uso excessivo do aparelho pode aumentar a possibilidade de dores e desconfortos.

“O uso excessivo do celular tem uma chance maior de causar dor, desconforto e de fazer com que eles tenham que fazer pausas mais frequentes.”

Polegar e pescoço estão entre as áreas mais afetadas

O risco pode ser maior para quem já apresenta artrose, principalmente nas articulações próximas às pontas dos dedos e no polegar.

Segurar o aparelho com as duas mãos e utilizar os dois polegares para digitar pode aumentar o desconforto. O pescoço também pode ser sobrecarregado quando a pessoa permanece por muito tempo com a cabeça inclinada para olhar a tela.

Braços e mãos também ficam submetidos a esforço quando o celular é segurado durante períodos prolongados.

Apesar disso, a recomendação não é abandonar a tecnologia. A principal orientação é modificar a maneira de utilizar o aparelho e respeitar os sinais apresentados pelo corpo.

“A recomendação é adaptar a maneira com que usa o aparelho e respeitar os sinais do corpo.”

Entre as estratégias sugeridas pelo especialista estão fazer pausas durante o uso, alternar atividades e substituir parte da digitação por mensagens de áudio ou recursos de digitação por voz.

Outra alternativa é mudar a forma de segurar o aparelho. Em vez de utilizar os dois polegares para digitar, o idoso pode segurar o celular com uma mão e usar o dedo indicador da outra para tocar na tela.

Para atividades mais longas, o computador também pode ser uma opção mais confortável. A tela maior permite manter os pés apoiados no chão, a coluna apoiada e os antebraços sobre a mesa.

Dor persistente merece avaliação

O desconforto provocado pelo uso prolongado pode melhorar com descanso e redução do tempo diante do celular. Mas a persistência dos sintomas exige atenção.

Se a dor começar a atrapalhar tarefas simples, como segurar objetos, girar uma chave ou abrir potes e garrafas, a recomendação é procurar avaliação médica.

A atenção deve ser ainda maior quando já existem deformidades nos dedos ou outros sinais de alterações articulares.

Além de reduzir o tempo de uso e mudar a maneira de segurar o aparelho, exercícios podem fazer parte da rotina. Alongamentos das mãos e dos punhos e movimentos de fortalecimento podem ajudar a preservar a musculatura e proteger as articulações.

“A tecnologia deve facilitar a vida e não se transformar em fonte de dor.”

Uso de tecnologia também pode beneficiar o cérebro

Se, para as mãos e o pescoço, o excesso de celular exige cuidado, para o cérebro o cenário pode ser diferente.

Uma análise de 57 estudos, envolvendo 411.430 adultos mais velhos, encontrou associação entre o uso de dispositivos digitais e menores taxas de declínio cognitivo.

Os pesquisadores da Universidade do Texas e da Universidade Baylor, nos Estados Unidos, identificaram que os usuários de tecnologias digitais apresentaram 58% menos chances de desenvolver declínio cognitivo e uma taxa 26% menor de perda das funções cognitivas ao longo do tempo.

Os participantes tinham mais de 50 anos e idade média de 69 anos. Os resultados foram publicados na revista Nature Human Behaviour.

Segundo Jared Benge, neuropsicólogo clínico do Centro de Memória Abrangente da UT Health Austin, o benefício pode estar relacionado à forma como os dispositivos são utilizados.

“As ferramentas podem ajudar as pessoas a se envolverem em atividades complexas e a fortalecerem suas conexões sociais, o que parece ser benéfico para o cérebro em processo de envelhecimento.”

Os pesquisadores, porém, fazem uma ressalva: o estudo não permite afirmar que o uso da tecnologia seja responsável por evitar o declínio cognitivo. Também é possível que pessoas com melhores habilidades cognitivas tenham maior tendência a utilizar dispositivos digitais.

O jeito de usar faz diferença

Os autores também destacam que os efeitos da tecnologia podem depender da maneira como ela é incorporada à rotina.

Michael Scullin, neurocientista cognitivo da Universidade Baylor e coautor do estudo, afirma que o uso passivo e sedentário dos aparelhos não necessariamente oferece os mesmos benefícios.

“Nossos computadores e smartphones também podem ser mentalmente estimulantes, proporcionar conexões sociais e compensar as habilidades cognitivas que declinam com a idade.”

As descobertas, segundo os pesquisadores, questionam a ideia de que o simples tempo diante das telas necessariamente provoque a chamada “demência digital”.

Assim, o celular pode ocupar um espaço útil na rotina dos idosos, seja para comunicação, informação, entretenimento ou estímulo cognitivo. A recomendação, porém, é encontrar equilíbrio: usar a tecnologia de forma ativa e socialmente útil, fazer pausas e evitar movimentos repetitivos que provoquem dor ou sobrecarga física.

Conteúdo Original / Fonte: Extra

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