A atriz Lorena Comparato assume o primeiro papel protagonista de sua trajetória profissional na pele de uma das figuras mais notórias da crônica policial brasileira contemporânea. O longa-metragem Elize: Sombras de Uma Mulher, produção original da Netflix, estreia no catálogo da plataforma de streaming nesta quarta-feira (22/7). Em entrevista, a artista descreveu o sentimento de interpretar Elize Matsunaga como uma intersecção entre o entusiasmo pelo avanço na carreira e o peso da responsabilidade temática.
O interesse pelo projeto manifestou-se logo na etapa de testes, motivado pelo potencial de aprofundamento cênico proporcionado pelo enredo. De acordo com Comparato, a composição da personagem exigiu um mergulho em camadas psicológicas complexas e na densidade histórica que envolve o assassinato de Marcos Matsunaga, ocorrido em 2012.
A atriz abordou de forma crítica o fenômeno contemporâneo de espetacularização e a eventual simpatia do público em relação à figura da criminosa. “Acho muito complexo a gente ser fã de uma assassina. Acho sempre muito complexo a gente falar dessa questão da violência e de, nós, mulheres, acharmos que retribuindo na mesma moeda da violência que é tão feita com a gente, vai ter uma solução”, avaliou.
A expectativa da protagonista é que a obra audiovisual funcione como um catalisador para debates públicos urgentes. O filme foca em temas como a política de desarmamento, a dinâmica de relacionamentos tóxicos e as engrenagens sociais que propiciam desfechos trágicos.
Apesar da imersão no papel, Comparato evitou emitir juízos de valor sobre as deliberações íntimas de Elize. A atriz ressaltou que a narrativa fílmica expressa o recorte artístico idealizado pelo diretor Felipe Vellas e desenvolvido pelos roteiristas Raphael Montes e Mariana Torres.
“Eu acho que são todas escolhas de um ponto de vista dessa mulher. E é uma construção de uma personagem ficcional. Ali é tudo imaginado. É um filme baseado em fatos reais. Eu acho que tem uma liberdade muito grande da gente poder contar esse recorte. E, ao mesmo tempo, eu sinto que, durante o processo todo, foi tudo feito com muito respeito e responsabilidade, porque a gente está fazendo um filme sobre um crime e em nenhum momento a gente se esqueceu disso”, declarou. O método de trabalho da produção utilizou a base documental histórica como matriz para filtrar e edificar os personagens.
O assassinato de Marcos Matsunaga, então herdeiro e diretor executivo da indústria de alimentos Yoki, obteve ampla repercussão nacional em maio de 2012 devido às circunstâncias brutais de sua execução. Quatorze anos depois, o caso permanece como alvo frequente de desdobramentos editoriais, incluindo livros, documentários e produções de ficção.
Consumidora declarada de narrativas de true crime (crimes reais), Comparato revelou manter o hábito de pesquisar exaustivamente os autos e os bastidores das histórias após assistir a produções do gênero, buscando discernir os limites entre a realidade histórica e as licenças dramáticas. A atriz aposta que o público manterá esse comportamento investigativo ao consumir o novo longa-metragem.
Para a protagonista, a persistência do interesse por tragédias reais reflete uma necessidade de catarse e aprendizado social. “Eu acho que é muito fascinante para a gente, como sociedade, ver esses horrores no palco, como diria Nelson Rodrigues: ‘como são as tragédias gregas’, justamente para a gente aprender e não replicar. Para a gente refletir e se distanciar deles”, concluiu.
Classificado como um suspense dramático, Elize: Sombras de Uma Mulher propõe uma investigação biográfica que antecede o homicídio. A obra acompanha a trajetória da personagem desde a infância em um ambiente humilde, perpassando sua migração para a capital paulista, o matrimônio com o empresário e os bastidores de um cotidiano conjugal marcado por rupturas, infidelidades e embates domésticos. O trailer oficial já se encontra disponível nos canais de divulgação da plataforma.
