Produtor de filme sobre Bolsonaro nega repassar dados financeiros à PF
Um dos responsáveis pela produção de Dark Horse, filme que contará a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, informou que não pretende entregar documentos da empresa às autoridades brasileiras sem uma autorização da Justiça dos Estados Unidos.
De acordo com reportagem publicada inicialmente pelo Metrópoles, a posição foi apresentada por Michael Davis, produtor da Go Up Entertainment LLC. Em um e-mail enviado à produtora Karina Ferreira da Gama, no dia 2 de setembro, ele afirmou que a empresa só poderá fornecer registros financeiros, fiscais, bancários, contratuais e societários seguindo as regras legais norte-americanas.
A mensagem foi divulgada nesta sexta-feira (11), após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornar públicos documentos relacionados à investigação sobre o financiamento do longa-metragem. A Polícia Federal havia solicitado à produtora a apresentação voluntária dos gastos envolvidos na realização do filme.
Investigação apura movimentações financeiras
A Polícia Federal analisa se o dinheiro utilizado para financiar Dark Horse pode ter relação com crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, além de outras possíveis irregularidades.
De acordo com os investigadores, parte dos recursos teria saído da Entre Investimentos, uma empresa offshore registrada nas Bahamas, e sido enviada ao Havengate Development Fund LP, fundo de investimentos localizado nos Estados Unidos.
Somente em 2025, as transferências identificadas somaram US$ 12,33 milhões, valor estimado em aproximadamente R$ 63 milhões. Os repasses ocorreram entre fevereiro, março, abril, maio e setembro daquele ano.
Acordo previa investimento de até US$ 24 milhões
Outro documento encontrado no celular do empresário Daniel Vorcaro chamou a atenção da investigação. O material previa um investimento total de US$ 24 milhões no filme, quantia que correspondia a cerca de R$ 134 milhões na época.
O acordo estabelecia o pagamento em 14 parcelas. As duas primeiras seriam de US$ 2 milhões cada, enquanto as outras 12 teriam o valor aproximado de US$ 1,66 milhão. Os valores são semelhantes aos que foram identificados nas transferências realizadas pela empresa das Bahamas para o fundo norte-americano.
Os investigadores também analisam as estimativas de lucro apresentadas no contrato. O documento previa três possibilidades de retorno financeiro: US$ 45 milhões em um cenário pessimista, US$ 70 milhões em uma previsão considerada conservadora e US$ 100 milhões em uma projeção otimista.
As cifras chamaram a atenção porque ultrapassam, em valores nominais, a bilheteria do filme brasileiro de maior arrecadação até então, Minha Mãe é uma Peça 3, lançado em 2019, que faturou cerca de R$ 120 milhões.
Empresas e pessoas ligadas ao fundo também são analisadas
A investigação ainda examina as conexões do Havengate Development Fund LP. O fundo é relacionado a Altierres Santana, que atua como corretor de imóveis nos Estados Unidos, e ao advogado Paulo Sergio Camin Calixto, responsável pela defesa de Eduardo Bolsonaro.
A recusa de Michael Davis em fornecer os documentos sem autorização judicial norte-americana é mais um ponto analisado pela Polícia Federal no caso, que busca esclarecer a origem e o caminho dos recursos destinados à produção do filme.