Como inteligĂȘncia artificial usa voz e sinais vitais para prever briga de casal

Por BBC 04/03/2019 Ă s 14:44
Como inteligĂȘncia artificial usa voz e sinais vitais para prever briga de casal

Algumas caracterĂ­sticas da fala humana nĂŁo podem ser captadas pelos nossos ouvidos, mas podem revelar como realmente nos sentimos sobre alguĂ©m — Foto: BBC

Suponha que seu relacionamento subiu no telhado. VocĂȘ vem tentando resolver seus problemas a dois, com terapia de casal, mas no final das contas, quer saber se o esforço vai valer a pena. As coisas vĂŁo melhorar ou piorar?

A recomendação pode parecer Ăłbvia: pare por um segundo e escute seu parceiro. Faça isso. Quando falamos um com o outro, nossas vozes contĂȘm todo tipo de informação que pode revelar a resposta. InflexĂ”es sutis no tom, as pausas entre as frases, o volume em que vocĂȘ fala – tudo isso transmite sinais ocultos sobre como vocĂȘ realmente se sente.

Muito disso nós aprendemos intuitivamente. E usamos essas informaçÔes para ajustar o significado de nossas palavras. Pense na diferença entre essas questÔes:

Essa mudança de ĂȘnfase Ă© uma das formas mais Ăłbvias de dar significado Ă  nossa fala. Mas hĂĄ muito mais camadas que adicionamos sem perceber.

HĂĄ uma maneira de extrair essa informação oculta do nosso discurso. Os pesquisadores atĂ© desenvolveram inteligĂȘncia artificial que pode usar essas informaçÔes para prever o futuro dos relacionamentos de casais. A tecnologia jĂĄ Ă© mais precisa em aspectos como esse do que os terapeutas profissionais.

Terapeutas x algoritmos

Em um estudo realizado recentemente, pesquisadores monitoraram 134 casais com dificuldades em seus relacionamentos. Ao longo de dois anos, os casais tiveram duas sessÔes de terapia de 10 minutos. Cada cÎnjuge escolheu um tópico sobre seu relacionamento que considerava importante e discutiu-os juntos. Os pesquisadores também coletaram dados sobre se os relacionamentos dos casais melhoraram ou pioraram e se ainda estavam juntos dois anos depois.

Terapeutas treinados assistiram a vĂ­deos das gravaçÔes. Ao avaliar a maneira como os casais conversavam entre si, o que diziam e sua aparĂȘncia enquanto falavam, os terapeutas fizeram uma avaliação psicolĂłgica sobre o provĂĄvel resultado de seu relacionamento.

Os pesquisadores também treinaram um algoritmo para analisar a fala dos casais. Pesquisas anteriores forneceram à equipe algumas pistas de que certos recursos provavelmente estavam envolvidos na comunicação humana, como a entonação, a duração da fala e como os indivíduos se revezavam para falar. O trabalho do algoritmo era calcular exatamente como esses recursos estavam ligados ao vigor do relacionamento.

O algoritmo foi puramente baseado nas gravaçÔes de som, sem considerar informaçÔes visuais dos vĂ­deos. Ele tambĂ©m ignorou o conteĂșdo de suas conversas – as prĂłprias palavras. Em vez disso, o algoritmo detectou recursos como cadĂȘncia, volume e quanto tempo cada participante falava.

Surpreendentemente, o algoritmo tambĂ©m captou caracterĂ­sticas da fala alĂ©m da percepção humana. Esses recursos sĂŁo quase impossĂ­veis de descrever porque normalmente nĂŁo temos consciĂȘncia deles – como a inclinação espectral, uma função matemĂĄtica complexa da fala.

“Usando muitos dados, podemos encontrar padrĂ”es que podem ser indescritĂ­veis para olhos e ouvidos humanos”, diz Shri Narayanan, engenheiro da Universidade do Sul da CalifĂłrnia, nos Estados Unidos, que liderou o estudo.

Depois de ser treinado nas gravaçÔes dos casais, o algoritmo se tornou marginalmente melhor do que os terapeutas em prever se os casais ficariam juntos ou não. A taxa de acerto do algoritmo foi 79,3%.

JĂĄ os terapeutas – que tinham a vantagem de tambĂ©m poder entender o conteĂșdo do discurso dos casais e observar sua linguagem corporal – chegaram a uma precisĂŁo de 75,6%.

“Os seres humanos sĂŁo bons em decodificar muitas informaçÔes”, diz Narayanan. “Mas nĂŁo podemos processar todos os aspectos da informação disponĂ­veis.”

Como inteligĂȘncia artificial usa voz e sinais vitais para prever briga de casal

Nossas vozes revelam mais sobre nossos pensamentos e emoçÔes do que somos capazes de captar com nossos ouvidos — Foto: BBC

‘Vazando’ emoçÔes

A ideia Ă© que estamos “vazando” mais informaçÔes sobre nossos pensamentos e emoçÔes do que nĂłs, como seres humanos, podemos entender. Mas os algoritmos nĂŁo estĂŁo restritos apenas Ă  decodificação dos recursos de voz que as pessoas tendem a usar para transmitir informaçÔes. Em outras palavras, existem outras dimensĂ”es “ocultas” em nosso discurso que podem ser acessadas pela inteligĂȘncia artificial.

“Uma das vantagens dos computadores Ă© a capacidade de encontrar padrĂ”es e tendĂȘncias em grandes quantidades de dados”, diz Fjola Helgadottir, psicĂłloga clĂ­nica da Universidade de Oxford. “O comportamento humano pode dar uma visĂŁo sobre os processos mentais subjacentes”, diz ela.

“No entanto, os algoritmos de aprendizado de mĂĄquina podem fazer o trabalho difĂ­cil de classificar, encontrar informaçÔes pertinentes e fazer uma previsĂŁo sobre o futuro.”

Um algoritmo que prevĂȘ se seu relacionamento estĂĄ ou nĂŁo fadado ao fracasso pode nĂŁo ser a ideia mais atraente. Especialmente porque sĂł consegue atingir 75% de precisĂŁo. Tal previsĂŁo poderia mudar o curso do seu relacionamento e como vocĂȘ se sente em relação ao seu parceiro.

Mas decifrar a informação escondida na maneira como falamos – e em como nossos corpos funcionam – pode ser usado para melhorar nossos relacionamentos.

TermĂŽmetro de discussĂŁo

Theodora Chaspari, engenheira de computação da Texas A & M University, nos Estados Unidos, vem desenvolvendo um programa de inteligĂȘncia artificial que pode prever quando Ă© provĂĄvel que os conflitos aumentem em um relacionamento. Chaspari e seus colegas coletaram dados de sensores nĂŁo intrusivos – como uma pulseira de fitness – que 34 casais usaram por um dia.

Os sensores medem o suor, a frequĂȘncia cardĂ­aca e os dados de voz, incluindo o tom da voz, mas tambĂ©m analisam o conteĂșdo do que os casais disseram – se usaram palavras positivas ou negativas. Um total de 19 dos casais experimentou algum nĂ­vel de conflito durante o dia em que usaram os sensores.

Chaspari e seus colegas usaram o aprendizado de måquina para treinar um algoritmo para entender os padrÔes associados aos argumentos que os casais relataram ter. Depois de receber treinamento sobre esses dados, o algoritmo conseguiu detectar conflitos em outros casais usando apenas os dados dos sensores, com uma precisão de 79,3%.

Agora, a equipe estĂĄ desenvolvendo algoritmos preditivos que espera usar para detectar sinais de uma possĂ­vel briga e alertar o casal antes de a briga ocorrer.

Ao monitorar seus nĂ­veis de transpiração, batimentos cardĂ­acos e a maneira como vocĂȘ estĂĄ falando, o algoritmo faria um cĂĄlculo da probabilidade de enfrentar um atrito com seu parceiro.

A maneira como ele funciona Ă© a seguinte: vocĂȘ teve uma pĂ©ssima jornada no trabalho, saiu uma reuniĂŁo estressante e estĂĄ a caminho de casa. O dia do seu parceiro foi igualmente difĂ­cil. Ao monitorar os dois nĂ­veis de transpiração, os batimentos cardĂ­acos e o modo como vocĂȘ vem falando nas Ășltimas horas, o algoritmo faria um cĂĄlculo da probabilidade de uma briga entre vocĂȘs acontecer.

“Nesse ponto, podemos intervir para resolver o conflito de maneira mais positiva”, diz Chaspari.

Isso pode ser feito simplesmente enviando uma mensagem aos casais antes que uma discussão venha à tona, diz Adela Timmons, psicóloga do projeto baseado no Centro de Psicologia Clínica e Quantitativa para Crianças e Famílias da Universidade Internacional da Flórida, nos Estados Unidos.

“Acreditamos que podemos ser mais eficazes em nossos tratamentos se pudermos administrĂĄ-los na vida real das pessoas nos pontos em que eles mais precisam”, diz ela.

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O aprendizado de mĂĄquina Ă© capaz de captar informaçÔes da maneira como falamos e nĂŁo das palavras que usamos para fazer previsĂ”es sobre a duração de um relacionamento — Foto: BBC

Intervenção antes do conflito

O modelo tradicional de terapia nĂŁo Ă© capaz de cumprir o objetivo de intervenção direta. Normalmente, uma sessĂŁo pode ocorrer durante uma hora por semana, quando os pacientes lembram o que aconteceu desde a Ășltima sessĂŁo e discutem os problemas que surgiram.

“O terapeuta nĂŁo pode estar presente no momento em que alguĂ©m realmente precisa do apoio”, diz Timmons. “HĂĄ muitas etapas no processo tradicional, em que qualquer intervenção pode ser menos eficaz.”

Mas um alerta automatizado baseado no monitoramento consistente da fisiologia e da fala das pessoas poderia preencher o sonho em tempo real da intervenção terapĂȘutica. TambĂ©m poderia permitir uma forma mais padronizada de tratamento, afirma Helgadottir.

“NinguĂ©m realmente sabe o que acontece entre quatro paredes em uma sala de terapia “, diz Helgadottir, que desenvolveu uma plataforma baseada em evidĂȘncias usando a IA para tratar a ansiedade social. “Às vezes, as tĂ©cnicas mais eficazes nĂŁo estĂŁo sendo usadas, pois exigem mais esforço da parte do terapeuta. Por outro lado, os componentes clĂ­nicos dos sistemas de terapia de IA podem ser completamente abertos e transparentes.

“Eles podem ser projetados e revisados pelos principais pesquisadores e profissionais da ĂĄrea. AlĂ©m disso, os computadores nĂŁo tĂȘm dias de folga, e nĂŁo hĂĄ diferença se 1.100 ou 1.000 usuĂĄrios estiverem se beneficiando ao mesmo tempo.”

No entanto, hĂĄ riscos. NĂŁo existe garantia de que uma mensagem em seu celular avisando vocĂȘ ou seu parceiro sobre a suscetibilidade de uma discussĂŁo nĂŁo vai “colocar mais lenha na fogueira”. O momento da intervenção Ă© crucial.

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Monitorar os fatores que podem aumentar o risco de um casal ter uma briga permitiria que ela fosse evitada — Foto: BBC

“Provavelmente, nĂŁo queremos realmente intervir durante um conflito”, diz Timmons. “Se as pessoas jĂĄ estĂŁo chateadas, elas nĂŁo ficarĂŁo totalmente receptivas a solicitaçÔes em seus telefones para que se acalmem. Mas se pudermos pegar as pessoas no perĂ­odo em que a discussĂŁo estĂĄ começando a ganhar força, mas elas nĂŁo perderam a capacidade de regular seu comportamento – esse Ă© o ponto ideal da intervenção.”

Existem muitos obståculos tecnológicos a serem superados antes que um aplicativo como esse possa ser implementado. A equipe precisa refinar seus algoritmos e testar sua eficåcia em uma variedade maior de pessoas. Hå também grandes questÔes sobre privacidade.

Uma violação de dados de um dispositivo que armazena dados em seu relacionamento com seu parceiro colocaria em risco muitas informaçÔes confidenciais. AlĂ©m disso, o que aconteceria com os dados se houvesse um suposto crime, como a violĂȘncia domĂ©stica?

“Temos que pensar em como lidarĂ­amos com essas situaçÔes e maneiras de manter as pessoas seguras, protegendo a privacidade delas”, diz Timmons. “Essas sĂŁo questĂ”es sociais mais amplas que continuaremos a discutir.”

Se esse modelo de terapia for realmente bem-sucedido, ele tambĂ©m poderĂĄ abrir portas para formas semelhantes de melhorar outros tipos de relacionamento – como na famĂ­lia, no trabalho ou na dinĂąmica mĂ©dico-paciente. Quanto mais nossos diferentes sistemas corporais sĂŁo monitorados – desde os movimentos dos nossos olhos atĂ© a tensĂŁo muscular – mais pode ser revelado sobre o futuro dos nossos relacionamentos.

Pode haver muito mais camadas de significado, além de nossa fala e reaçÔes fisiológicas båsicas, que podem ser melhor decodificadas pelas måquinas.

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