Rio Branco, Acre,


No altos rios, o furo é mais embaixo e o progresso esbarra na cachoeira

No tempo que ainda falta para o sertão virar mar e o mar virar sertão, o povo vai vivendo nas voltas que o rio dá

O que sobe o rio

Faz tempo que não subo o rio, de batelão e canoa, com águas muitas ou poucas. É grande minha saudade do Alto Juruá, de seus muitos povos e dos bons amigos que muitas vezes me acolheram em suas casas simples e cheias de vida. Caldo de piaba, mandim frito, carne de queixada, sempre com a melhor farinha, tabaco forte e café fraco. E as histórias espantosas dos séculos vividos na floresta.

Agora a memória renovou com as imagens do novo “furo” do Juruá, que está cortando caminho abaixo do Lago Preto e impedindo a subida de grandes barcos para Porto Walter e Thaumaturgo. E como fica o abastecimento, o comércio, o combustível para a energia elétrica, o transporte da produção, a circulação do capital? Não sei, minha preocupação é maior com a descida dos velhinhos para receber a aposentadoria em Cruzeiro do Sul, as viagens em grandes canoas dos times de futebol que disputam encarniçadas partidas aos domingos e dos músicos que vão tocar nas festas – ah, meu Deus, como estará a subida do Tejo no novenário de São Raimundo Nonato, no final de agosto?

Com o tempo, todo mundo se adapta às mudanças do rio, que são certas mas sempre inesperadas. Lembro de passar ao pé de uma grande árvore num roçado entre a vila Restauração e a terra dos Kuntanawa e notar que havia um desnível no terreno bem perto da sapopemba. Seu Milton me explicou: o rio passava bem aqui, a gente já estava esperando que essa árvore tombasse no barranco, mas ele desviou o curso e, com o tempo, uma grande e bonita restinga tornou a crescer no terreno areiusco da várzea. Às vezes é assim, a mudança vai pro outro lado.

Lembro de descer o Juruá à noite, com o saudoso Zé da Água no leme de um batelão vazio aproveitando a lua para chegar rápido em Cruzeiro, com a água baixando e o risco de ficar um ano encalhado. De repente, entramos num lago e ficamos horas rodando para encontrar novamente o furo e voltar para o curso do rio. Lago grande, bonito, rodeado de floresta alta. Muita fartura de peixe, caça, fruta, legume, trabalho e alegria.

Dizem que por esses dias chega a friagem que vai abrir de vez o verão. Isso apressa os debates sobre o tal desenvolvimento, principalmente agora que os sojeiros estão animados com a abertura do Acre, última fronteira que ainda falta ultrapassar. Por mim, todas as discussões são fora de tempo quando ninguém diz o que fazer com os rios e os povos que vivem às suas margens. O que o agronegócio, gigantesco e milionário, pode fazer pela família do Zé do Rube -ele, a mulher e nove filhos-, que passou muitos anos na seringa, depois na produção de feijão e farinha, depois escapando com o Funrural do vovô…?

Desde os tempos de Wilson Pinheiro e do velho Soeiro Kaxinauá, muita gente fez a pergunta aos sucessivos governos federais e estaduais: o que os grandes projetos trazem para o povo da floresta além da ordem de “fasta pra lá que nós vamos ficar com a tua terra”? A cada anúncio de um novo tempo, um novo ciclo, um novo surto de progresso, uma nova ordem econômica, a pergunta se repete.

Alguns certamente vão propor a construção de eclusas no Juruá, como já propuseram no rio Acre. Outros vão dizer que o destino do rio é virar um grande esgoto para o escoamento dos resíduos urbanos, com a construção de uma estrada e a instalação de centenas de vilas entre as grandes plantações e pastagens. Já houve quem sugerisse a construção de um conjunto habitacional em Cruzeiro do Sul para que as milhares de famílias indígenas fossem morar na cidade e deixassem suas terras para alguma “atividade produtiva”.

O rio não discute, nem mesmo avisa o que vai fazer. Mas se entende, sem palavras, com os povos que vivem nele e dele há muito tempo. E briga com as máquinas que comem as árvores e os barrancos promovendo desastrosas mudanças de consequências incontroláveis e prejuízos incalculáveis. O rio reage, esturra nas madrugadas de chuva, resiste à morte que parece inevitável. Ninguém sabe quanto tempo vai durar essa luta.

Cada vez que subo o rio, encontro-o diferente. Mais pobre, na proporção da riqueza que alguns acumulam longe de suas margens. E o povo lembra da profecia do Irmão José: onde hoje corre o Juruá, vai andar carroça de boi. Espero que esse dia demore a chegar, ainda quero subir aquele velho rio nem que seja numa ubá ligeira com burro preto na popa, pra tomar o piarentsi com os ashaninka do Amônia e comer uma paca torrada no óleo do cocão com os kuntanawa no Tejo.

Desenvolvimento, pra aqueles amigos, é uma coisa boa e bem diferente desse que tem na cidade e que, pra chegar lá, tem que passar na Cachoeira do Gastão… e tomara que não passe.

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