Pernalonga chega aos 80 anos provando que inspirou até Seinfeld

Por NOTÍCIAS AO MINUTO 26/07/2020 às 13:53

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Pernalonga faz 80 anos. Mas Ă© impossĂ­vel dizer que o coelho sĂ­mbolo dos estĂșdios Warner tenha amadurecido nesse tempo. Em “The Wild Hare”, sua animação de estreia lançada nas matinĂȘs dos cinemas americanos em 27 de julho de 1940, ele jĂĄ nasceu com a personalidade espertalhona imutĂĄvel que o consagrou.

Quando se fala em personagens de desenho animado, ele sĂł Ă© comparĂĄvel ao Mickey de Walt Disney. Mas Pernalonga estrelou um nĂșmero maior de filmes no cinema, mais de 200.

Bugs Bunny, seu nome original, passou a vida sem que a Warner desse um veredito sobre ele ser um coelho (“rabbit” ou “bunny”, em inglĂȘs) ou uma lebre (“hare”), alternando as nomenclaturas em roteiros.

Como vĂĄrios herĂłis de animação da Warner, Pernalonga surgiu de criação coletiva. Um coelho frequentou muitos curtas do estĂșdio entre 1936 e 1939, mas a paternidade oficial ficou com o animador e diretor Tex Avery, que definiu o nome, o visual e a personalidade dele em “The Wild Hare”.

Avery tinha 38 anos e trazia no currĂ­culo o sucesso dos desenhos do porquinho Gaguinho e do pato preto Patolino.

Desde a estreia, Pernalonga era diferente de Mickey (e qualquer outro) porque estava adiante no tempo. Foi o primeiro dos desenhos dedicados ao pĂșblico infantil a ser curtido por gente grande sem que adultos precisassem despertar a criança dentro de si.

Alguns pais se divertiam mais com ele do que os filhos. O filĂŁo de humor em desenhos para adultos sĂł se desenvolveria bem depois, nos anos 1990.

Pernalonga Ă© o primeiro trapaceiro a se dar bem na cultura pop. AtĂ© os anos 1970, os bandidos em Hollywood nunca tinham sucesso. Mesmo interpretados por galĂŁs charmosos, acabavam punidos no fim da histĂłria, como uma justiça moral imposta pelos estĂșdios. Isso sĂł começou a mudar com “Golpe de Mestre”, de 1973, quando Paul Newman e Robert Redford conseguiram lucrar com suas falcatruas.

Pernalonga Ă© malandro, enganador mesmo, e sempre sai por cima nos confrontos com outros personagens. Ele mente, Ă© arrogante, dissimulado, se veste de mulher, finge ser o que nĂŁo Ă©, prepara armadilhas. E, no final, todos gostam dele.

O coelho teve imenso sucesso logo nos primeiros desenhos e essa popularidade só foi aumentando durante a Segunda Guerra Mundial, até 1945.

A Warner soube usar o coelho no papel de grande desafiador dos inimigos da pĂĄtria. Ele protagonizou desenhos como fuzileiro naval em combate, azucrinando soldados japoneses e infernizando atĂ© Hitler.Muitas tramas criadas nos anos seguintes sĂŁo de humor adulto, complexas, com alusĂ”es a irmĂŁos Marx, Ăłpera, Shakespeare, genocĂ­dio de Ă­ndios americanos, Lei Seca e outras referĂȘncias incompreensĂ­veis para as crianças.

E, na voz original do dublador Mel Blanc, Pernalonga teve durante dĂ©cadas um evidente sotaque nova iorquino que o credenciaria a ser um quinto personagem em “Seinfeld”, jĂĄ que o ritmo de piada verbal Ă© o mesmo. Os diĂĄlogos dos desenhos questionam o comportamento aceito como normal pela sociedade. Mais “Seinfeld” impossĂ­vel.

Em seu processo de desestabilizar o pobre coitado escalado no roteiro como vĂ­tima, quase sempre Gaguinho, Patolino ou Hortelino Troca-Letra -caso raro de um personagem humano entre tantos animais antropomĂłrficos no elenco da Warner-, Pernalonga persegue o absurdo. Chuck Jones, um dos diretores do estĂșdio, exigia que cada desenho tivesse pelo menos um ou dois momentos para desafiar totalmente a lĂłgica.

Jones foi um dos grandes responsĂĄveis pela preservação das caracterĂ­sticas que Avery criou para Pernalonga. Em 1941, uma discussĂŁo com o chefĂŁo do estĂșdio, Leon Schlesinger, fez Avery pedir demissĂŁo e passar para a MGM, rival da Warner na animação. Ele produziu outros desenhos magistrais pelas dĂ©cadas seguintes, mas sem personagens tĂŁo marcantes.

As características de Pernalonga imaginadas por Avery eram tão perfeitas que Jones manteve em piloto automåtico os roteiros e o visual em desenhos impecåveis. Alguns exibem os melhores momentos da chamada Era de Ouro da Animação, até os anos 1960.

Nas Ășltimas quatro dĂ©cadas, a nova geração de animadores nĂŁo preservou a qualidade das aventuras da turma do Pernalonga. Os desenhos deixaram de ter uma produção regular e, na contramĂŁo da alma original do personagem, trataram de infantilizar suas histĂłrias.

As tentativas de modernização incluĂ­ram uma versĂŁo baby do coelho -um fiasco-, uma variação teen com resultados ainda piores–, a adoção de um sobrinho chato e um longa de cinema que pĂŽs Pernalonga ao lado do Ă­dolo do basquete Michael Jordan -“Space Jam”, de 1996.

O agora octogenårio Pernalonga tem sua genialidade preservada nos desenhos clåssicos da Warner. Qualquer curta produzido nas décadas de 1940 e 1950 é diversão inteligente, cínica e åcida.

Esse Pernalonga raiz sempre surpreende, mesmo com alguns elementos cĂŽmicos recorrentes, como a cenoura do canto da boca e a cĂ©lebre frase “what’s up, doc?”. Na dublagem brasileira, “o que que hĂĄ, velhinho?”.

Em alguns desenhos, os roteiristas mandam Pernalonga para outros países. Esses episódios sempre começam com a mesma piada. O coelho vem cavando seu caminho por baixo da terra e então abre um buraco na superfície, aparecendo em algum lugar da Europa.

Ali, diante da torre Eiffel ou do Coliseu romano, ele faz uma cara contrariada e diz “acho que eu deveria ter virado Ă  direita em Albuquerque”, piada que ajudou a divulgar para o mundo a cidade no estado americano do Novo MĂ©xico, a milhares e milhares de quilĂŽmetros da Europa. Um desafio Ă  lĂłgica, como Chuck Jones apreciava.

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