O Congresso Nacional colocou no radar a possibilidade de adiar o decreto de calamidade pĆŗblica no PaĆs para 2021 se os efeitos da pandemia de covid-19 se estenderem para o próximo ano. A prorrogação daria aval para o governo Jair Bolsonaro gastar mais no próximo ano com a justificativa de combater as consequĆŖncias econĆ“micas da doenƧa.
Parecer das consultorias da Câmara e do Senado sugere colocar uma brecha na Lei de Diretrizes OrçamentÔrias (LDO) pavimentando o terreno para o adiamento da calamidade pública. A proposta enviada pelo governo não traz essa possibilidade, mas poderÔ ser alterada pelo Congresso. A tramitação da LDO estÔ parada em função do apagão das comissões do Legislativo.
A discussão vem na esteira da articulação para aumentar gastos e aproveitar as regras da pandemia para fazer investimentos, conforme o Estadão revelou. O decreto de calamidade possibilitou a aprovação do chamado orçamento de guerra, criando uma conta paralela para as despesas relacionadas à covid-19.
No projeto da LDO, o governo sugere adotar uma meta fiscal de resultado das contas pĆŗblicas flexĆvel em 2021 por causa das incertezas provocadas pela covid-19. O EstadĆ£o antecipou que o nĆŗmero de referĆŖncia Ć© um dĆ©ficit de R$ 150 bilhƵes, mas esse valor nĆ£o Ć© considerado a meta do ano.
O parecer das consultorias, porĆ©m, propƵe fixar uma meta com valor definido – assim como nos anos anteriores -, mas permitindo um “afrouxamento fiscal” com o possĆvel adiamento do estado de calamidade.
“Se a doenƧa atravessar o ano em expansĆ£o, deve adiar”, afirmou o lĆder do PSD no Senado, Otto Alencar (BA). O partido indicarĆ” o relator da LDO neste ano, que deverĆ” ser o senador IrajĆ” Abreu (PSD-TO).
A Comissão Mista de Orçamento, responsÔvel por votar a LDO e a Lei OrçamentÔria Anual, estÔ parada em função do apagão das comissões do Congresso.
EstratƩgia
Na avaliação de parlamentares e técnicos do Congresso, o adiamento da calamidade serviria para o Executivo federal colocar em campo a estratégia de fazer investimentos com regras fiscais mais leves. O Planalto poderia, dessa forma, aproveitar a pandemia para colocar recursos no programa Pró-Brasil, o programa de investimentos públicos do governo. Em versões preliminares, o programa reuniria de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões em investimentos divididos em 137 obras executadas entre 2021 e 2022.
“A reconstrução da economia nacional, que serĆ” necessĆ”ria a partir dos efeitos da pandemia, vai exigir medidas extraordinĆ”rias e isso pode ensejar o pedido por parte do Executivo como forma de dar maior margem utilizando o orƧamento de guerra”, afirmou o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), que foi relator do decreto de calamidade na CĆ¢mara.
O lĆder do governo no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO), admitiu que o adiamento da calamidade estĆ” no radar do Planalto. “Só nĆ£o sabemos se a caracterĆstica vai ser a mesma. Talvez seja outro instrumento”, afirmou. Antes disso, declarou, serĆ” preciso resolver questƵes mais emergenciais, como o alongamento do auxĆlio emergencial atĆ© o fim de 2020.
Procurados, a Presidência da República, o Ministério da Economia e o Ministério da Saúde não responderam sobre a possibilidade de adiar o decreto de calamidade pública para 2021.

