Rio Branco, Acre,


Denise Fraga vive diferentes personagens online com maestria

Vídeos de até dez minutos da série 'Horas em Casa' foram dirigidos pelo marido da atriz, Luiz Villaça. Os dois já haviam trabalhado junto no quadro 'Retrato Falado' do Fantástico

É impossível prever quantos dos incontáveis projetos surgidos durante a quarentena terão sobrevida quando o mundo voltar ao – muitas aspas aqui – normal. Na equação que define este número, as principais variantes serão obviamente o interesse dos envolvidos em continuar e a qualidade do que se apresenta.

O que significa que, se a atriz Denise Fraga e o marido, o diretor Luiz Villaça, tiverem vontade de tocar adiante o “Horas em Casa”, mesmo depois de encerrado o distanciamento, metade do caminho já estará andado. Porque o que não falta à websérie criada pelo casal é qualidade.

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Produzido pela Café Royal e disponível no canal Eu de Você, no Youtube, o programa traz episódios semanais de cerca de dez minutos de duração cada um. Até o momento, já foram publicados 12, que podem ser vistos sem que seja necessário seguir uma ordem específica.

Com o tema “Fronteiras”, a estreia aconteceu em 6 de junho, e traz o formato que vai se apresentar por todos os episódios, até hoje. Fraga está sempre sozinha em todos os quadros e usa um único figurino do início ao fim.

Vestindo personagens que às vezes se repetem nas semanas seguintes, e em outros que fazem uma única aparição, é essa escolha simbólica que prova o tamanho do talento da atriz. Na democracia da não caracterização para nenhum dos papéis, fica a cargo apenas da sua interpretação sublinhar a alternância.

E Denise Fraga, nos palcos e telas desde meados dos anos 1980, se mostra mais uma vez excepcional e constante. Todas as peles que assume são não só verossímeis no mesmo nível, mas também brilhantes em todos os aspectos de sua composição.

Pegue, por exemplo, o entregador de aplicativo. Recostada em uma bicicleta, que por sua vez se apoia num muro, Fraga não precisa da ajuda de qualquer outro objeto de cena para dar vida ao rapaz que confessa que chorou quando recebeu uma nota de R$ 100 para guardar o troco da pizza.

Inserida no terceiro episódio, batizado providencialmente de “Identidades”, a cena é curtíssima, tem menos de um minuto. Mas, mesmo um minúsculo espaço de tempo como esse, já é suficiente para que Fraga comova o público com sua impostação de voz e ritmo do texto.

Vale destaque também a jornalista, que reaparece de fones de ouvido e óculos em diversas ocasiões, sempre diante de uma estante de livros, a exemplo do que se vê nos canais de notícias reais desde o início da pandemia. Uma de suas falas mais interessantes é sobre a invisibilidade.

Outra figura dominante é a mãe, que, quase abraçada à porta do quarto do filho, se comunica com ele ora com broncas e reclamações, ora com chamados delicados – mas invariavelmente clamando por sua presença que nunca aparece, porque, lembrando, Fraga está sozinha na condução do projeto diante das câmeras.

Em live recente da Folha de S.Paulo, a atriz e Luiz Villaça contaram que a ideia de “retratar” o garoto desse modo veio de conversas com amigos, que em uníssono se queixavam dos filhos que, na quarentena, se isolam em seus quartos e interagem muito pouco com os pais.

Na mesma conversa, a atriz também frisou o papel do teatro e de todas as outras formas de expressão artística. “Em tempos de crise, arte”, disse. “Se você está preocupado com o sofrimento do seu povo, incentive a arte, porque a arte nos ajuda a compreender os nossos dramas.”

E é com a sua arte que o casal Denise Fraga e Luiz Villaça oferece as ferramentas não só para que o público enfrente e compreenda a tragédia de ter de se trancar em casa enquanto lá fora morrem milhares de pessoas, mas também para que esse processo seja o mais leve possível.

No mesmo episódio do entregador de aplicativo, uma das personagens diz uma frase extremamente simbólica, e que de tão significativa foi escolhida para seu encerramento. “Eu só sei que estou viva porque existe outra pessoa dizendo isso para mim, mesmo sem dizer.”

Em tempos sombrios, se é possível saber que estamos vivos é porque há joias como “Horas em Casa” para nos dizer isso, mesmo sem dizer.

[Foto de capa: Divulgação]

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