Os maiores mitos dos remédios para emagrecer

Por GQ, GLOBO 13/05/2021 Ă s 08:53

Para a maioria das pessoas, emagrecer é um desafio que exige sacrifício e muita disciplina. Nem sempre, porém, apenas a força de vontade é suficiente.

Quando o peso se recusa a ir embora, pacientes com obesidade ou com algum problema de saĂșde decorrente do sobrepeso podem recorrer a medicaçÔes que auxiliam no processo de emagrecimento.

Isso, é claro, se usados com o devido acompanhamento médico e por aqueles que realmente precisam do tratamento: o que não é o caso daqueles que desejam eliminar uns quilinhos a mais por estética.

É preciso, porĂ©m, ter cuidado para nĂŁo cair em mitos que circulam em abundĂąncia na internet e geram medos exagerados em relação aos remĂ©dios.

No Brasil, trĂȘs medicamentos sĂŁo indicados para o controle de peso, sendo eles a sibutramina, a liraglutida e o orlistate – os dois primeiros atuam diminuindo o apetite, enquanto o Ășltimo impede a absorção de 30% da gordura consumida.

AlĂ©m desses remĂ©dios, que tĂȘm a função do emagrecimento descrita em bula, hĂĄ ainda os chamados off labels, como a metformina e o fluoxetina, que nĂŁo possuem a perda de peso como função principal, mas podem ser usadas para auxiliar no processo.

1Âș mito: qualquer um pode tomar remĂ©dios para emagrecer

Segundo o endocrinologista Thiago Napoli, especializado no tratamento da obesidade, o uso Ă© indicado para auxiliar no emagrecimento de pessoas obesas ou com um sobrepeso que resulte em problemas de saĂșde, como dores na coluna, joelhos, diabetes ou colesterol.

“Se uma pessoa Ă© magra e quer perder peso por uma questĂŁo estĂ©tica, ela nĂŁo tem recomendação para o uso de remĂ©dios”, explica Thiago.

Mesmo assim, algumas pessoas insistem no uso das medicaçÔes sem prescrição mĂ©dica, o que pode gerar consequĂȘncias para a saĂșde.

“Como qualquer remĂ©dio, hĂĄ efeitos colaterais, e as doses e medicaçÔes precisam ser ajustadas ao perfil e contraindicaçÔes de cada paciente. Quando vocĂȘ consegue o remĂ©dio por vias tortas, isso nĂŁo acontece.”

2Âș mito: os remĂ©dios emagrecem por si sĂł

As medicaçÔes podem ser uma ajuda valiosa para as pessoas que possuem dificuldades para perder peso, mas elas nĂŁo fazem milagre. “O uso precisa ser atrelado Ă  prĂĄtica de atividade fĂ­sica e mudanças de dieta ou Ă© pouco efetivo”, explica Thiago.

Ele aponta que pessoas que utilizam o remédio e fazem mudanças na rotina costumam ter resultados mais eficientes e duradouros em relação aqueles que enxergam a medicação como uma pílula mågica.

3Âș mito: existem fĂłrmulas milagrosas

Se o orlistate, a sibutramina e a liraglutida podem ser aliados com a devida prescrição médica, o mesmo não se pode dizer das pílulas e shakes milagrosos que prometem secar a barriga.

“O que tem na internet de milagroso, via de regra, Ă© golpe. SĂŁo fĂłrmulas mĂĄgicas com vĂĄrios compostos sem nenhuma evidĂȘncia cientĂ­fica e que podem, inclusive, gerar riscos Ă  saĂșde. Em geral, medicaçÔes para obesidade nĂŁo precisam ser formuladas”, alerta Thiago.

4Âș mito: remĂ©dios emagrecedores viciam

Uma das maiores preocupaçÔes quanto a remĂ©dios para perda de peso Ă© de que eles gerariam algum tipo de dependĂȘncia quĂ­mica. No caso dos remĂ©dios autorizados no paĂ­s e devidamente prescritos por um mĂ©dico, nĂŁo hĂĄ nenhum indĂ­cio de que eles viciem.

Segundo a endocrinologista Rafaela Fontenele, o que acontece Ă© que algumas pessoas voltam a ganhar peso quando param a medicação, criando uma falsa sensação de que o corpo teria “viciado” no remĂ©dio, e atĂ© mesmo preferem seguir com o uso para tentar manter o nĂșmero na balança.

Isso faz com que muitas pessoas acreditem que, caso comecem a tomar medicação, teriam que aderí-la para o resto da vida, o que é uma mentira. Por isso mesmo, o acompanhamento profissional é tão importante.

De acordo com os especialistas, hĂĄ alguns casos, principalmente em pessoas que perderam grandes quantidades de peso, em que o uso pode ser prolongado, jĂĄ que o esforço necessĂĄrio para manter-se em forma Ă© muito grande – mas eles sĂŁo uma exceção.

“A maioria das pessoas ficam com o remĂ©dio atĂ© se engajarem na dieta e nas atividades, a partir daĂ­ ele vai sendo retirado aos poucos”, conta a Dra. Rafaella.

5Âș mito: remĂ©dio causa ‘efeito sanfona’

Na mesma linha do falso vĂ­cio, os remĂ©dios de emagrecimento tambĂ©m ganharam fama de vilĂŁo do ‘efeito sanfona’, jĂĄ que uma das maiores preocupaçÔes Ă© a de que a pessoa recupere o peso caso interrompa a medicação.

Isso realmente pode acontecer, mas não por causa do remédio.

“Na natureza, quando um animal perde peso, ele geralmente estĂĄ prĂłximo da morte de alguma forma. O corpo humano tambĂ©m interpreta o emagrecimento como um sinal de perigo e se encarrega de recuperar a gordura perdida assim que possĂ­vel”, explica o Dr. Thiago.

A retomada, porĂ©m, Ă© uma tendĂȘncia humana e acontece tambĂ©m em caso de dietas restritivas sem o uso de medicamentos, conforme explica a Dra. Rafaela:

“O que acontece Ă© que a pessoa nĂŁo muda o estilo de vida, mas mesmo que mude, ela ainda pode recuperar o peso, porque isso faz parte do processo metabĂłlico”.

Para evitar a flutuação de peso, é importante que haja um acompanhamento constante de profissionais como endocrinologistas, nutricionistas e preparadores físicos. Uma equipe multidisciplinar pode ajudar a estabelecer um programa que reduza a volta do peso.

6Âș mito: emagrecer com remĂ©dios nĂŁo Ă© saudĂĄvel

Muita gente acredita que o uso de remédios para emagrecer pode trazer malefícios ao organismo e que saudåvel mesmo é perder peso apenas com dieta e exercícios.

A situação, porém, não é tão simples, jå que envolve questÔes genéticas e até mesmo psicológicas como a compulsão alimentar.

Segundo a endocrinologista Rafaela Fontenele, essa crença é fruto de uma visão rasa, e até preconceituosa, sobre o que é a obesidade.

“Algumas pessoas tĂȘm mais dificuldade em perder peso por questĂ”es fisiolĂłgicas. Muitas pessoas emagrecem aderindo a dietas malucas e isso Ă© muito mais perigoso do que uma medicação bem orientada.”

O mito, no entanto, vira verdade quando se fala no uso inadequado das medicaçÔes. Sem o acompanhamento médico, as substùncias podem agravar crises de ansiedade, reduzir a absorção de nutrientes e aumentar riscos cardiovasculares em quem possui pré-disposição.

“Seu amigo que te arruma uma receita de fundo de quintal atua muito mais como um traficante do que como alguĂ©m que quer te ajudar, porque ele estĂĄ te dando acesso a uma medicação sem conhecer os danos que ela pode ter para vocĂȘ”, alerta Thiago.

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