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14 outubro 2021 4:04 am

Vitão quer usar visibilidade para celebrar povos indígenas e preservar a natureza ao lado de ONG ambiental

Vitão integra, a partir de hoje (19), a Brigada Digital do Greenpeace Brasil

POR UOL

Última atualização em 20/09/2021 08:10

O momento em que começou a marchar foi o mais emocionante. O som dos tambores, os pés batendo no chão, o canto. Tudo o emocionou. Ele até cantou junto, mesmo sem saber a letra das músicas. Embalou as melodias e seguiu. “A música é essa coisa que trabalha em prol da humanidade, da mudança, da vida”, diz.

O paulistano Victor Carvalho Ferreira, 22, mais conhecido como Vitão, é cantor e compositor desde 2016. Agrega quase três milhões de ouvintes no Spotify, e o clipe que gravou com Anitta, “Complicado”, registra mais de 82 milhões de visualizações no YouTube.

Tamanha visibilidade fez com que recebesse do Greenpeace o convite para visitar, em Brasília, o acampamento feito por indígenas em frente ao Congresso Nacional contra o Marco Temporal. “Fiquei muito feliz de estar lá e ser muito bem recebido”, contou para a reportagem de Ecoa, enquanto mostrava diversos colares que recebeu de pessoas do acampamento.

A preocupação com causas ambientais e indígenas que o levou até aquele momento veio dos pais. Quando criança, sempre ouvia da mãe a importância de reciclar, economizar água, não jogar lixo na rua. “E hoje em dia, como adulto, acredito que é minha responsabilidade levar isso pra frente.”

Vitão integra, a partir de hoje (19), a Brigada Digital do Greenpeace Brasil. Um grupo de artistas e influenciadores que vai agir nas redes sociais a favor do meio ambiente através de videochamadas com fãs para falar sobre desmatamento, lives com especialistas da ONG, entre outras atividades virtuais. A parceria já o levou para um sobrevoo em regiões afetadas pelo desmatamento na Amazônia.

Apesar de ainda “não ser um expert” sobre o assunto, Vitão compartilhou neste bate-papo com Ecoa sua vontade de aprender mais e contou sobre sua relação com o meio ambiente, a causa indígena e mais.

Tuane Fernandes/Greenpeace

Ecoa – Você surpreendeu muitas pessoas indo ao acampamento indígena em Brasília. Queria saber qual a sua relação com os povos originários e o movimento indígena.

Vitão – Eu nunca tive uma relação muito próxima com o movimento, até porque eu não tinha esse envolvimento que estou tendo com o Greenpeace e as questões que eles abordam. Mas sempre me incomodou, desde a escola, essa coisa que os livros de história chamam de descoberta do Brasil e que na verdade não foi isso. O Brasil já era Brasil, e tinha muita gente morando aqui, muitas religiões e culturas que faziam parte do nosso povo muito antes dos europeus chegarem. Sempre achei confuso como a humanidade endeusa o homem branco europeu, ou seja, o território brasileiro só passa a existir a partir do momento que o homem branco europeu pisou aqui. Só que, na verdade, isso foi uma história de assassinatos, de estupros… uma matança, também, de culturas, muita extração de recursos naturais.

Durante o tempo que você ficou em Brasília, você conversou com lideranças indígenas?

Sim, conversei com a Sônia Guajajara. Ela me recebeu de uma forma super carinhosa e me senti muito grato de poder conversar sobre sua luta e o Marco Temporal. Essa história de só dar o direito das pessoas permanecerem em seu local de origem se elas estiverem lá na data de 1988 é um absurdo, tendo em vista a exploração que os povos indígenas sofreram e o fato deles terem sido expulsos da própria terra.

Ao mesmo tempo que foi muito bonito, foi muito doloroso e triste ver tantas pessoas que saíram de seus territórios e viajaram horas e horas de ônibus para ir até Brasília lutar por espaço para poder viver e resgatar o restinho que eles ainda têm de seus direitos.

Pelas fotos que você publicou, parece que tem muitos fãs entre os indígenas. Isso o surpreendeu?

Eu recebi um carinho enorme das pessoas que estavam lá. A princípio, tive esse pensamento de “nossa, muita gente aqui me conhece, que daora”, só que depois conversando com alguns deles eu caí na real de que a gente tem um conceito dos povos indígenas de que eles são sem comunicação, sem internet, sem nada, que vivem no meio da floresta afastados de tudo. Mas não é isso. Eles são simplesmente povos que vivem na floresta, mantendo suas tradições, mas que têm celular, roupa, escola, que viajam. E eu me peguei sendo mais uma dessas pessoas ignorantes que pensam que os povos indígenas não sabem nada do mundo não indígena.

Como foi a recepção do público nas redes sociais te vendo envolvido com a causa indígena?

A maioria das pessoas trouxe comentários legais. E as pessoas que não se sensibilizam com essa causa são pessoas que não se importam com a vida dos próprios seres humanos e do país. Não faço questão de ter essas pessoas perto de mim. Eu sei que quem escuta mesmo a minha música pensa no próximo. Essas poucas pessoas que criticam não se identificam com a minha música porque ela prega o amor e é isso que eu estava fazendo em Brasília, pregando o amor.

O que você viu na luta indígena em Brasília que acha que precisa ser replicado na sociedade não indígena?

A receptividade, o amor e o carinho. Ali eu vi uma coisa que é algo que não vejo no meu dia a dia, que é esse carinho e amor entre pessoas que não se conhecem.

Victor Moriyama/Greenpeace
Victor Moriyama/Greenpeace

A gente falou bastante sobre a questão indígena, mas queria saber se tem outra causa com a qual você se identifica?

A questão dos animais. Toda hora a gente vê notícias de animais que entram em extinção e isso está ligado à questão do meio ambiente também. Eu tenho pensado sobre nosso consumo excessivo de carne, que implica na matança dos animais, mas que também é algo péssimo para o meio ambiente, porque as áreas de criação de gado vêm muito do desmatamento. Nunca fui vegetariano, mas tenho diminuído o consumo de carne por pensar nessas questões. Se a gente comesse carne só uma vez por semana, já ia fazer muita diferença.

Vi em uma entrevista que você estudou em uma escola com a pedagogia Waldorf, que tem um ensino mais humanista, voltado às artes também. Essa formação te ajudou a se interessar por causas sociais?

Minha escola sempre teve um ensino mais humanizado e voltado à natureza. Eles não enxergam as pessoas como uma máquina que precisa tirar tais notas para passar de ano, para passar no vestibular. É uma escola que abre um outro universo para o aluno, tem muita aula de música, teatro, culinária, costura, horta. Enfim, com certeza a escola plantou essa semente no meu coração desde cedo. Essa sementezinha que diz que tem coisas muito mais importantes do que simplesmente ganhar dinheiro.

Esse lado mais social seu já passou por alguma música sua ou tende a passar?

Com certeza isso vai começar a aparecer na minha composição porque eu escrevo sobre o que vivo e cada vez mais tenho me engajado nessas causas e aprendido sobre. Mas falarei e escreverei mais principalmente quando eu construir mais embasamento para poder falar.

Cada vez mais tenho visto as crianças mais próximas do meu trabalho. E acho que colocar essa preocupação com o meio ambiente na cabeça delas é dar essa oportunidade que eu tive de aprender essas coisas desde muito cedo.

Tuane Fernandes/Greenpeace

Como podemos construir um ambiente saudável nas redes sociais?

Tem o meio de criar regras, mecanismos que escaneiem qualquer tipo de comentário de ódio e que apaguem aquilo ou que a pessoa fique uma semana sem poder usar a rede social. E essa é uma via mais punitiva, de castigo. E tem a via que eu acho mais saudável, e que talvez seja a mais utópica, que é a gente mudar a nossa forma de ser, primeiro, fora da internet. A origem de tudo é a sociedade. Essas questões já existiam muito antes da internet, mas ela é uma facilitadora porque leva essas coisas para frente. Muita coisa a gente tem que mudar como ser humano antes de ir para a internet.

Como o envolvimento de artistas no apoio a causas sociais e ambientais pode ajudar na construção de uma sociedade melhor?

Eu vi a importância artística de estar ali. Toda a questão indígena e de meio ambiente, para mim, é muito mais uma questão de humanidade do que algo puramente político que envolva direita ou esquerda. Minha pauta nunca foi falar sobre isso. Esse posicionamento político, para o artista, gera uma divisão de fãs, sim, até porque tem gente que escuta música pautado nisso. Mas eu nunca fui o artista de ficar me posicionando sobre voto ou político até porque eu nunca vi alguém que me representasse. Só que obviamente a pauta indígena se opõe ao governo atual porque esse governo quer mais que os indígenas e a natureza se fodam.

Você já falou em outros momentos que gosta muito do Emicida, do Mano Brown. Queria saber se eles te inspiram também para além da música.

Com certeza, o rap nasce como música de protesto. Emicida, Racionais, RZO, Rael, Criolo, Rashid, Projota, todos esses foram professores para mim e me mostraram que o mundo é muito mais do que eu vivi. Eu nunca fui uma criança rica, mas sempre tive condições de estudar em uma escola daora, nunca me faltou nada. Poder ter outra perspectiva de vida, que é a vida da grande maioria do nosso país, foi algo que esses artistas me ensinaram desde muito cedo. Meu ímpeto de conscientizar as pessoas hoje em dia e gerar debates e mudanças com certeza vem muito desses artistas do hip hop que sempre tiveram essa veia de luta.

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