AC tem 17 municípios ameaçados de calor extremo por desmatamento e mudanças climáticas

Por TON LINDOSO, DO CONTILNET (COM ASCOM) 04/10/2021 às 14:44 Atualizado: há 5 anos

Dos 22 municípios que compõem o Acre, 17 deles estão ameaçados de calor extremo por desmatamento e mudanças climáticas. O dado faz parte de um estudo publicado pelos pesquisadores Beatriz Alves de Oliveira, da Fiocruz; Marcus Bottino e Paulo Nobre, ambos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); e Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP).

De acordo com o levantamento, Tarauacá é o município mais afetado, seguido de Feijó, Manuel Urbano e outras 14 cidades que terão a temperatura aumentada e podem passar para o estado de Savana Amazônica. Sob condições ambientais desfavoráveis ​​que incluem alta exposição à temperatura e umidade, as capacidades de resfriamento do corpo são enfraquecidas, resultando em aumento da temperatura corporal. A exposição sustentada a tais condições pode ocasionar desidratação e exaustão e, em casos mais graves, tensão e colapso das funções vitais, levando à morte. Além disso, o estresse causado pelo calor pode afetar o humor, os distúrbios mentais e reduzir o desempenho físico e psicológico das pessoas.

O ESTUDO

Segundo os resultados do estudo Desmatamento e mudanças climáticas projetam aumento do risco de estresse tĂ©rmico na AmazĂ´nia Brasileira, existe um limite de desmatamento da AmazĂ´nia que impactará a sobrevivĂŞncia da espĂ©cie humana. Esse limite Ă© acompanhado por um “efeito extremo na saĂşde” que deixará, atĂ© 2100, aproximadamente 12 milhões de pessoas da regiĂŁo Norte do Brasil expostas ao risco extremo de estresse tĂ©rmico, quando teremos atingido os limites de adaptação fisiolĂłgica do corpo humano devido ao desmatamento. Em outras palavras, nĂŁo seremos capazes de manter nossa temperatura corporal sem adaptação.

“As condições extremas de calor induzidas pelo desmatamento podem ter efeitos negativos e significativamente duradouros na saĂşde humana. Precisamos entender globalmente que se o desmatamento continuar nas proporções atuais, os efeitos serĂŁo dramáticos para a civilização. Essas descobertas tĂŞm sĂ©rias implicações econĂ´micas que vĂŁo alĂ©m dos danos Ă s lavouras de soja”, afirma Paulo Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE.

No Brasil, os efeitos combinados do desmatamento e das mudanças climáticas já estão sendo relatados com base em dados observacionais , com os valores de aquecimento mais extremos relatados em grandes áreas desmatadas de 2003 a 2018.

Nas modelagens climáticas realizadas pelos pesquisadores, a combinação de mudança no uso da terra e aquecimento global pode ampliar ainda mais os riscos ocupacionais. Além disso, fatores induzidos pelo homem responsáveis ​​pela savanização da Amazônia, como aumento do número de incêndios florestais, bem como expansão de áreas agrícolas e atividades de mineração, tendem a impulsionar o crescimento desordenado e um processo de urbanização não planejado, com falta de infraestrutura sanitária básica e trabalho informal mais frequente. Esses fatores estão associados ao processo de desmatamento e ao aumento da desigualdade e da vulnerabilidade, que atuam em sinergia com os efeitos das mudanças climáticas, aumentando ainda mais a demanda por serviços de saúde e proteção social na região da Amazônia brasileira.

Os resultados do estudo mostram que os efeitos serão em escala regional, com os maiores impactos diretos na região Norte do país. Do total de 5.565 municípios brasileiros, 16% deles (30 milhões de pessoas) sofrerão impactos por estresse térmico com a savanização da Floresta Amazônica. Da população impactada, 42% residem em municípios da região Norte, que apresenta baixa capacidade de resiliência e alta vulnerabilidade social. Nesta região, aproximadamente, 12 milhões de pessoas poderão ser expostas ao risco extremo de estresse por calor até 2100. Com a savanização da Amazônia e as limitações na capacidade de adaptação da região Norte do Brasil, a população dessa região poderá viver em condições precárias de sobrevivência, impulsionando efeitos como a migração em massa, afirmam os autores.

AlĂ©m disso, o aumento da exposição ao estresse tĂ©rmico poderá impactar várias áreas da economia, com redução da produtividade do trabalho, uma vez que os trabalhadores estarĂŁo expostos a condições tĂ©rmicas fatais. No Brasil, os trabalhadores que trabalham ao ar livre já estĂŁo expostos ao estresse tĂ©rmico, e as projeções apontam para um aumento da exposição a alto risco nas prĂłximas dĂ©cadas. O aumento de 1,5° C na temperatura mĂ©dia global, com base nas projeções dos modelos climáticos dos pesquisadores, poderá representar 0,84% das perdas de jornada de trabalho atĂ© 2030, o equivalente a 850 mil empregos de tempo integral, principalmente nos setores agrĂ­cola e de construção civil – na agricultura, o alto risco associado ao trabalho intenso e Ă  sobrecarga tĂ©rmica já foi observado entre os cortadores de cana-de-açúcar.

Os pesquisadores enfatizam a necessidade urgente de medidas coordenadas para evitar efeitos negativos sobre as populações vulneráveis. “Os efeitos locais das mudanças no uso da terra estĂŁo diretamente ligados Ă s polĂ­ticas e estratĂ©gias de sustentabilidade das florestas, e as mudanças nessas áreas estĂŁo ao alcance da sociedade. Nessas áreas, o setor de saĂşde poderia ser um importante motivador na formulação de polĂ­ticas integrativas para mitigar o risco de estresse tĂ©rmico e a redução da vulnerabilidade social”, afirma Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Nas estimativas dos pesquisadores não foi considerado o crescimento populacional ou as mudanças na estrutura demográfica ou expectativa de vida. Assim, os resultados expostos no estudo refletem os efeitos isolados da mudança climática e da savanização e podem ser interpretados para representar os efeitos que seriam observados se a população atual fosse exposta às distribuições projetadas de estresse térmico. Já a vulnerabilidade da população exposta foi avaliada por meio do Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) dos municípios brasileiros. Este índice é baseado em 16 indicadores que refletem fragilidades no sistema de saúde e educação (capital humano), infraestrutura urbana e renda e trabalho.

Municípios do Acre ameaçados

– Acrelândia

– Bujari

– Capixaba

– Cruzeiro do Sul

– FeijĂł

– JordĂŁo

– Manoel Urbano

– Marechal Thaumaturgo

– Plácido de Castro

– Porto Walter

– Rio Branco

– Rodrigues Alves

– Santa Rosa do Purus

– Senador Guiomard

– Sena Madureira

– Tarauacá

– Porto Acre

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