OnlyFans: de imagens sensuais a sexo explĂ­cito, brasileiros contam como ganham dinheiro se exibindo

Por BBC NEWS BRASIL 15/11/2021 Ă s 15:00

Cezar Augusto, de 27 anos, queria comprar um carro novo. PorĂ©m, ele diz que com o salĂĄrio de coordenador de projetos de uma agĂȘncia de eventos, em uma cidade do interior, teria que abrir mĂŁo de muita coisa para isso. Foi assim que ele começou a ganhar dinheiro compartilhando fotos e vĂ­deos sensuais na internet.

Cezar criou um perfil no OnlyFans, plataforma na qual pessoas vendem conteĂșdos de diversos temas, mas que se popularizou pelo material erĂłtico. Em trĂȘs meses, ele diz que conseguiu ganhar o suficiente para comprar o carro. “O dinheiro veio mais rĂĄpido do que eu imaginei.” Mas ele preferiu adiar seu plano e investir o valor em aplicaçÔes financeiras.

Muitos outros brasileiros recorreram ao serviço para ganhar dinheiro no Ășltimo ano. Criado em 2016 pelo britĂąnico Tim Stokely, o OnlyFans tem criadores de conteĂșdo de todos os gĂȘneros, corpos e nacionalidades.

Os usuários se exibem de formas que vão de simples fotos sensuais a cenas de sexo explícito. Ganham ao vender materiais exclusivos ou conquistando assinantes — os pagamentos são em dólar. Os criadores ficam com 80% dos valores, e o OnlyFans, 20%.

Durante a pandemia de covid-19, muita gente viu no site uma salvação financeira em meio Ă  crise, e o nĂșmero de usuĂĄrios cresceu exponencialmente. O OnlyFans afirma ter hoje mais de 130 milhĂ”es de membros no mundo — eram 20 milhĂ”es antes do coronavĂ­rus —, e mais de 1,25 milhĂŁo deles sĂŁo criadores de conteĂșdo. Atualmente, 500 mil novos usuĂĄrios se inscrevem diariamente, diz a empresa Ă  BBC News Brasil.

Hå criadores que conseguem ganhar muito dinheiro, segundo o OnlyFans. O site estima que mais de 300 pessoas jå receberam mais de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5 milhÔes).

Mas, por trĂĄs da ilusĂŁo de dinheiro fĂĄcil, hĂĄ uma rotina de trabalho intenso, na busca por formas para agradar os assinantes, alĂ©m do risco do vazamento indevido de imagens pessoais. Isso demanda uma atenção extra com as polĂ­ticas da plataforma e Ă s mudanças que ela pode fazer no modelo de negĂłcios, o que pode afetar quanto dinheiro entra na conta de quem divulga conteĂșdo por lĂĄ.

O crescimento do OnlyFans

Em reportagem recente do Financial Times, o OnlyFans informou que sua receita cresceu 553% entre janeiro e novembro de 2020. Os usuårios gastaram US$ 2,36 bilhÔes no site, um aumento de sete vezes desde o início da pandemia, nos primeiros meses de 2020.

Esse sucesso Ă© uma convergĂȘncia entre exibicionismo, transformação do corpo em mercadoria e consequĂȘncias da crise econĂŽmica na pandemia, diz Clotilde Perez, professora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de SĂŁo Paulo (USP).

“Muitos quiseram unir o Ăștil ao agradĂĄvel: exponho meu corpo por meio de uma expressĂŁo fetichista, transformando o corpo em mercadoria sem julgamento, e ainda ganho dinheiro com isso durante a pandemia”, diz Perez Ă  BBC News Brasil.

Foi justamente na pandemia que Cezar passou a usar a plataforma, enquanto continuou no emprego. Ele diz que vislumbrou a possibilidade de ganhar dinheiro dessa forma quando passou a publicar fotos sensuais em sua conta no Twitter e viu o nĂșmero de seguidores quadruplicar em um ano.

Cezar Augusto

CRÉDITO,ELIAS ARANHA

Legenda da foto,‘O dinheiro chegou muito mais rĂĄpido do que eu imaginei’, diz Cezar

“Eu nĂŁo ganhava dinheiro (no Twitter), era sĂł ‘biscoitagem’ (exibição) e nada muito explĂ­cito. Mas vi que o pessoal gostou. Muitos fĂŁs pediram para criar um perfil no OnlyFans. Eu tinha um pouco de preconceito. Relutei muito”, diz Cezar.

Ele conta que mudou de ideia ao ver famosos aderindo ao OnlyFans e, em novembro passado, passou a produzir imagens para o site com a ajuda de um fotĂłgrafo e alguns conteĂșdos com nudez explĂ­cita.

Com o tempo, passou a planejar publicaçÔes conforme os pedidos dos fĂŁs e diz que isso ajudou tambĂ©m a atrair novos assinantes. “Eu postava uma prĂ©via no Twitter, e o pessoal acabava assinando”, lembra.

Cezar diz que chegou a ter 150 assinantes. As mensalidades variavam de US$ 10 (cerca de R$50) a US$ 13 (cerca de R$ 65), além das eventuais gorjetas.

Ele conta que seus relatos sobre o OnlyFans no Twitter incentivaram alguns de seus seguidores a criar seus prĂłprios perfis. “Muitos vieram pedir informação, perguntar como funcionava, como se inscrevia. AtĂ© meninas, mas para muitas delas acaba sendo mais complicado pelo machismo”, conta Cezar.

Ele diz ter ouvido alguns comentĂĄrios sobre esse seu trabalho na cidade onde mora, Umuarama, no interior do ParanĂĄ. “As pessoas pensavam: nossa, ele estĂĄ no OnlyFans. Mas, depois viram que deu certo, que estava rendendo dinheiro, e entenderam e apoiaram”, comenta.

Escritora e produtora de conteĂșdo adulto

Para evitar comentårios de conhecidos, hå criadores que não falam abertamente sobre o assunto, como a escritora Lara, de 28 anos, que começou na plataforma em janeiro deste ano. Ela assumiu esse nome para esse trabalho. Sua família não sabe de nada.

“Meus amigos e parceiros sabem. Minha namorada Ă© quem tira 90% das minhas fotos, mas nĂŁo quero ter essa conversa (com a famĂ­lia) se nĂŁo precisar”, diz.

Lara tem emprego fixo em SĂŁo Paulo e usa o OnlyFans para complementar a renda. “Ganho entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por mĂȘs (com o site)”, afirma. Hoje, ela conta que dedica de trĂȘs a quatro horas diĂĄrias Ă  criação de conteĂșdo e interação com centenas de fĂŁs.

Lara posa de costas enquanto tira a blusa

CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL

Legenda da foto,‘Quero melhorar o conteĂșdo e estudar para crescer na plataforma’, relata Lara, que conta ganhar cerca de R$ 2 mil por mĂȘs com o OnlyFans

Ela ficou desempregada durante alguns meses no Ășltimo ano. Mas, ao contrĂĄrio de muitos que recorreram ao OnlyFans por dificuldades financeiras na pandemia, preferiu se restabelecer profissionalmente.

“Eu pensava: se fizer sĂł porque estou precisando do dinheiro, talvez faça do jeito errado. EntĂŁo, amadureci a ideia, fiquei pensando para entender o tipo de conteĂșdo que se produzia e o que eu poderia fazer”, conta.

Militante dos movimentos pela celebração de corpos diversos e LGBT, Lara afirma que jå estava acostumada a se expor na internet. Logo que criou o perfil no OnlyFans, compartilhou fotos de lingerie e praticando pole dance, como fazia em outras redes.

Conforme ganhou experiĂȘncia, ajustou seu conteĂșdo de acordo com os pedidos dos assinantes. “Comecei a produzir algumas coisas mais explĂ­citas sob demanda, para fidelizar os clientes”, conta.

Ela criou uma tabela de preços em seu perfil: uma foto sensual custa US$ 5, e um vĂ­deo personalizado de strip tease, o item mais caro, US$ 12. “Estou constantemente perguntando para a audiĂȘncia o que procuram, para ver o que posso oferecer que estĂĄ dentro dos meus limites”, diz.

Lara acredita que o contato com os assinantes Ă© uma das partes mais importantes do trabalho. “Mantenho o OnlyFans sempre aberto no meu celular para ir checando para ver se tem gente nova. Mando mensagem para quem se inscreve, agradeço comentĂĄrios, troco ideia.”

Ela busca por novos assinantes dentro do prĂłprio OnlyFans, por meio de outras criadoras de conteĂșdo. Elas fazem acordos e divulgam umas as outras para seus fĂŁs.

Enquanto muitos optam por manter o perfil apenas para assinantes, Lara permanece por enquanto com sua pĂĄgina gratuita e ganha dinheiro com conteĂșdos personalizados. “HĂĄ fĂŁs que compram tudo, e sei que se eu resolver focar num perfil fechado, que Ă© meu plano, essas pessoas vĂŁo acompanhar”, afirma Lara. “Estou apostando muito em melhorar o conteĂșdo e para crescer.”

Para Lara, uma das principais vantagens sĂŁo os pagamentos em dĂłlares. “VocĂȘ pode cobrar baixo e mesmo assim ganhar bastante”, diz. Ela conta que seu pĂșblico Ă© formado majoritariamente por usuĂĄrios do exterior.

“Acho que sĂł tem esse movimento tĂŁo grande de brasileiras produzindo para o OnlyFans porque Ă© um site gringo”, diz. “Quando vocĂȘ estĂĄ lidando com pessoas do Brasil, pensa: ‘putz, essa pessoa pode pegar o carro e vir atĂ© minha casa’. Isso dĂĄ medo.”

‘É o trabalho perfeito’

Entre os que se exibem no OnlyFans, hĂĄ pessoas que trabalham com conteĂșdo sexual na internet hĂĄ anos e tĂȘm na plataforma uma nova oportunidade para faturar, como Emanuelly Raquel, que começou a fazer shows de webcam aos 18 anos. Na Ă©poca, ela se exibia por meio do extinto programa de mensagens MSN.

Emanuelly Raquel

CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL

Legenda da foto,Emanuelly diz que estĂĄ entre o 1% de criadores da plataforma que atingem ganhos substanciais

“Comecei porque Ă© uma coisa que eu gosto, e me identifiquei desde o princĂ­pio. Para mim, Ă© o trabalho perfeito”, afirma ela, que hoje tem 31 anos.

Emanuelly, que mora em BalneĂĄrio CamboriĂș, em Santa Catarina, diz que criou esse nome fictĂ­cio para manter sua privacidade. Ela relata que a famĂ­lia e os amigos sabem do trabalho erĂłtico. “Tenho muita sorte, porque nunca sofri preconceito. Às vezes, leio algum comentĂĄrio ruim na internet, mas lido de forma tranquila com isso”, diz.

No passado, ela diz que buscava clientes em salas de bate-papo. Quando alguém se interessava, acertava um show no MSN. Depois, migrou para outros sites, e, no fim de 2020, passou a focar no OnlyFans, após começar a ganhar menos com a plataforma à qual se dedicava.

“De um dia para o outro, meu salĂĄrio caiu pela metade. Por isso, decidi investir no OnlyFans, comecei a postar todos os dias, e se tornou a minha principal plataforma de trabalho”, comenta.

Ela diz ter atualmente mais de mil assinantes — muitos de outros paĂ­ses. Estima que ganha cerca de US$ 10 mil por mĂȘs no OnlyFans, o maior valor desde que começou a produzir conteĂșdo erĂłtico na internet. “Estou entre os menos de 1% que conseguem esse valor”, afirma.

Ela cobra US$ 9,99 por assinatura, na qual a pessoa pode ver os vĂ­deos e fotos que ela compartilha, e oferece conteĂșdos sob demanda. SĂŁo fotos nua, vĂ­deos de masturbação e cenas de sexo com um parceiro.

A produção e a divulgação sĂŁo feitas por ela prĂłpria. “Gravo trĂȘs vezes por semana, umas 12 horas por dia. Nos outros dias, me dedico Ă s minhas redes”, explica. No Instagram, onde compartilha imagens sensuais e divulga intensamente seu perfil no OnlyFans, tem 424 mil seguidores.

Emanuelly diz que o modo de faturar na internet com conteĂșdo adulto amador estĂĄ se tornando cada vez mais profissional. “No começo, era complicado, porque nĂŁo tinha sites como hoje. Atualmente, Ă© mais fĂĄcil conseguir clientes, porque muitos estĂŁo esperando por esse tipo de conteĂșdo. No passado, a gente precisava ir atrĂĄs das pessoas atĂ© montar uma clientela”, afirma.

Com o que ganhou ao longo dos anos na carreira, diz ter comprado apartamentos e que estĂĄ construindo duas casas. “SerĂŁo a minha aposentadoria”, planeja.

Emanuelly diz que viu muitas mulheres perderem empregos na pandemia e abrirem contas no site. “Os perfis das pessoas que ganham dinheiro nessas plataformas mudou. Antes, eram mais tĂ­midas e tinham medo de se exibir, mas aĂ­ veio o boom do OnlyFans”, comenta.

‘Isso nĂŁo vai sujar a minha imagem’

Muitos dos que jĂĄ se exibiam no site antes da pandemia viram seus ganhos saltarem nesse mesmo perĂ­odo. JoĂŁo Marcos, de 28 anos, diz que foi assim com ele.

“Hoje, se souber fazer direito, pode ganhar atĂ© R$ 50 mil. Conheço gente que ganha nessa faixa, mas hĂĄ outros que nĂŁo conseguem nada. Muitos, quando filmam sexo, Ă© algo mecĂąnico. Isso nĂŁo atrai assinantes, porque as pessoas querem ver um prazer real”, afirma JoĂŁo.

JoĂŁo conta que atualiza o perfil trĂȘs vezes por semana com vĂ­deos de sexo ao lado do companheiro ou de outros homens. “O conteĂșdo precisa ser espontĂąneo. As pessoas nĂŁo gostam de sexo por obrigação”, afirma.

JoĂŁo Marcos

CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL

Legenda da foto,‘Todo mundo faz sexo, sĂł que entre quatro paredes. A diferença Ă© que o que eu faço Ă© exposto’, diz JoĂŁo Marcos

Ele começou no OnlyFans em maio de 2019. No ano anterior, tinha começado a compartilhar fotos eróticas no Twitter, após ver outros perfis que faziam isso. Na época, diz ele, era por puro prazer, sem receber nada.

A decisĂŁo de criar um perfil no Onlyfans, diz JoĂŁo, veio apĂłs vĂĄrios pedidos de pessoas de diferentes paĂ­ses no Twitter, onde tem mais de 195 mil seguidores. “Quando criei, era bem mais difĂ­cil ganhar dinheiro e atĂ© de receber pagamentos aqui no Brasil”, diz. Ele avalia que a situação melhorou no ano passado, com o aumento de usuĂĄrios da plataforma.

Para JoĂŁo, esse trabalho mudou sua vida. Foi no OnlyFans que ele conheceu seu companheiro e conseguiu dinheiro para se mudar do interior do Rio de Janeiro para a capital. “Toda a mobĂ­lia da minha casa foi comprada com dinheiro do OnlyFans”, diz.

Ele afirma que faz os vĂ­deos pelo prazer de se exibir e porque precisa ter um meio de ganhar dinheiro. Estima que fatura aproximadamente R$ 10 mil por mĂȘs — cada assinatura de seu perfil custa US$ 3 no primeiro mĂȘs e, depois, sobe para US$ 10.

A repercussĂŁo nas redes chegou a familiares e conhecidos. “Vieram me falar que aquilo poderia sujar minha imagem e que nĂŁo teria nenhum retorno. Isso nĂŁo Ă© sujar a minha imagem. Todo mundo faz sexo, sĂł que entre quatro paredes. A diferença Ă© que o que eu faço Ă© exposto.”

‘Com a internet, a dimensĂŁo Ă© gigantesca’

Em meio aos perfis de sexo explĂ­cito e outros conteĂșdos erĂłticos, o OnlyFans atrai muitas pessoas por nĂŁo se restringir a essa temĂĄtica, diz a cientista social Lorena RĂșbia Pereira Caminhas, que Ă© doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e estĂĄ desenvolvendo um projeto de pĂłs-doutorado sobre o OnlyFans no paĂ­s.

“Como nĂŁo Ă© inicialmente uma plataforma voltada a esse tipo de trabalho e sim de financiamento, as pessoas se veem mais aceitas ao colocar seus conteĂșdos ali”, explica. “AtĂ© a (cantora) Anitta estĂĄ no OnlyFans, e ela nĂŁo faz trabalho sexual.”

Mas muitos que estĂŁo na plataforma dizem que jĂĄ ouviram propostas para fazer programa. PorĂ©m, muitos reforçam que suas atividades nĂŁo vĂŁo alĂ©m das telas — apesar de nĂŁo verem problema com quem se prostitui.

“Para mim, nĂŁo tem nada a ver com prostituição. A pessoa estĂĄ se exibindo, sem contato fĂ­sico. Alguns homens confundem. HĂĄ meninas que se exibem nessas plataformas e tambĂ©m fazem programas, mas nĂŁo sĂŁo todas”, comenta Emanuelly. Ela ressalta que nĂŁo se incomoda quando pensam isso dela. “Cada um tem a sua opiniĂŁo.”

JoĂŁo Marcos tambĂ©m diz que nĂŁo faz programa, mas afirma que jĂĄ foi associado a isso por causa dos vĂ­deos. “Esse tipo de pensamento Ă© mais incomum hoje, depois que se popularizou essa coisa de exibicionismo na internet. A galera viu que a gente quer ganhar dinheiro com a nossa imagem e transando com quem a gente sente prazer”, afirma.

Entre aqueles que assinam plataformas como o OnlyFans, hĂĄ um “prazer voyeurista”, pontua Clotilde Perez. Ela afirma que o site representa hoje, nas devidas proporçÔes, algo como os shows erĂłticos do passado ou as seçÔes de filmes pornogrĂĄficos em videolocadoras. “A questĂŁo Ă© que, agora, com a internet, a dimensĂŁo Ă© gigantesca.”

Com os vĂ­deos e fotografias compartilhados na rede, hĂĄ tambĂ©m os riscos da exposição. “Isso pode transbordar e chegar a outros lugares. Como a pessoa estĂĄ se exibindo para desconhecidos, alguĂ©m pode gravar a tela e reproduzir em outras redes. Quem entra na plataforma precisa estar ciente disso”, declara Perez.

A “dimensĂŁo gigantesca” da internet fez com que vĂ­deos de Cezar fossem compartilhados com conhecidos que nĂŁo tinham acesso Ă  plataforma. “Fui alertado por amigos”, diz.

Enquanto hĂĄ criadores de conteĂșdo no OnlyFans que afirmam nĂŁo se importar, Cezar se incomodou com a situação. “JĂĄ sabia que poderia acontecer e nĂŁo impactou minha vida profissional, mas meio que coloquei tudo na balança e preferi dar um tempo”, comenta.

Quando o episĂłdio ocorreu, ele jĂĄ havia atingido a meta de cerca de R$ 20 mil e parou de atualizar seu perfil. “Estava consumindo minha energia, por mais que o dinheiro seja atrativo”, relata.

À BBC News Brasil, o OnlyFans diz que proĂ­be a cĂłpia, duplicação ou gravação de conteĂșdos sem a devida permissĂŁo e frisa que isso Ă© proibido por lei.

TambĂ©m afirma ter uma equipe antipirataria que cuida dos direitos dos conteĂșdos produzidos na plataforma para que sejam removidos de outros lugares da rede, caso sejam compartilhados indevidamente. “A taxa de sucesso dos pedidos de remoção de conteĂșdos compartilhados indevidamente Ă© de mais de 75%”, diz.

Os cuidados com plataformas que comercializam conteĂșdo adulto

OnlyFans exibido no celular e no computador

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Legenda da foto,Especialistas chamam atenção para questĂ”es de segurança de dados e dependĂȘncia do modelo de negĂłcios de plataformas com o OnlyFans

A cientista social Lorena RĂșbia Caminhas faz ainda outro um alerta, especialmente para quem nĂŁo estĂĄ acostumado ao trabalho sexual ou nĂŁo pretende adotĂĄ-lo a longo prazo: Ă© preciso estar atento aos termos de uso dos sites.

“As plataformas mudam os termos o tempo todo, entĂŁo, se vocĂȘ nĂŁo tiver ciĂȘncia das mudanças, pode acabar perdendo esse conteĂșdo ou sendo impedido de publica-lo em outro lugar”, aponta.

“Quem jĂĄ faz camming (transmissĂŁo erĂłtica pela internet) ou pornĂŽ entende mais ou menos (a dinĂąmica), mas pessoas que estĂŁo entrando agora para fazer por seis meses e sair podem nĂŁo estar atentas”, diz.

De acordo com a polĂ­tica de privacidade do OnlyFans, o criador de conteĂșdo concorda em ceder Ă  empresa o direito de uso, reprodução, modificação e distribuição de suas imagens e permite que a empresa as compartilhe com terceiros.

O site afirma que a clĂĄusula existe apenas para que possa fazer operaçÔes rotineiras, como a aplicação de marcas d’ĂĄgua para proteção das imagens, e que jamais venderĂĄ o conteĂșdo para outras companhias.

Especialistas afirmam que tambĂ©m Ă© preciso observar com cuidado a evolução do modelo de negĂłcios dessas plataformas. Priscila Magossi, pesquisadora e fundadora do New Camming Perspectiv (NCP), projeto que oferece treinamento para mulheres que trabalham com camming, com foco na defesa dos interesses das profissionais, diz que a publicidade do setor confunde, propositalmente, sobrevivĂȘncia financeira com empreendedorismo.

Segundo ela, o Brasil nĂŁo estĂĄ protegido de uma possĂ­vel “evolução problemĂĄtica” do mercado. De acordo com a pesquisadora, com o surgimento e popularização de novas plataformas e de modelos nos quais trabalhadores sĂŁo pagos por meio de gorjetas durante exibiçÔes gratuitas, houve uma precarização do trabalho sexual virtual.

“Quando esse mercado começou, na RomĂȘnia — berço do camming —, tudo acontecia em sessĂ”es privadas e pagas, vocĂȘ sĂł podia ver a foto se pagasse”, conta a pesquisadora. “Hoje, vocĂȘ tem mulheres recebendo 12% de comissĂŁo por gorjetas para fazer coisas muito extremas em salas abertas ao pĂșblico.”

Lorena RĂșbia Caminhas tambĂ©m chama a atenção para a dicotomia entre a suposta liberdade do criador de conteĂșdo e a dependĂȘncia das decisĂ”es da empresa. “Se amanhĂŁ o OnlyFans aumentar a taxa para vocĂȘ publicar seu conteĂșdo, vocĂȘ nĂŁo tem muita opção para onde ir. EntĂŁo, vocĂȘ fica confinada aos critĂ©rios da plataforma”, reforça.

Priscila Magossi diz ser preocupante que os criadores estejam desamparados nessa profissĂŁo e que a Ășnica informação que se tenha (a respeito do trabalho sexual virtual) seja o marketing das prĂłprias plataformas. “A pessoa muitas vezes nĂŁo pensa que o objetivo Ă© gerar lucro ao proprietĂĄrio da plataforma, nĂŁo cuidar do futuro ou da saĂșde de alguĂ©m.”

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