ValĂ©ria Valenssa: ‘Minha vinheta como Globeleza nĂŁo faria sucesso hoje’

Por UOL 21/02/2022 Ă s 08:30

Durante 15 anos, a vinheta da Globeleza, na Globo, teve o mesmo rosto: o da carioca Valéria Valenssa, 50, que ocupou o posto dos 18 aos 33 anos, quase sem parar. Todos os anos, no Carnaval, ela aparecia sambando, nua, coberta apenas por pinturas corporais. E, apesar de ser lembrada assim por geraçÔes, ela conta, em entrevista a Universa, que não se via como símbolo de sensualidade.

“Eu nĂŁo me sentia sex symbol porque a Globeleza nĂŁo era sobre o corpo ou o nu em si. NĂŁo passava pela minha cabeça que fosse algo sexualizado. Era um trabalho muito artĂ­stico, desde a designer que fazia todo o desenho, o maquiador, toda a equipe envolvida”, lembra. “Era um trabalho bonito. Essa nĂŁo era a intenção e, justamente por isso, passava em todos os horĂĄrios. Às vezes vocĂȘ olha uma pessoa de roupa muito mais sensual do que uma pessoa nua”, diz.

“Mas as pessoas me viam daquela forma, sim. Muitas vezes eu ia a algum lugar e achavam que eu chegaria pintada. Trabalhar com o nu exige uma certa postura, pois as pessoas te veem nuas, acham que vocĂȘ vai estar nua o tempo todo. Precisei manter uma postura firme para as me olharem com respeito e nĂŁo com vulgaridade”.

Embora lembre com carinho a admiração do trabalho que “transformou sua vida”, como conta, ValĂ©ria acredita que a sua Globeleza, a primeira de todas, que estreou em 1990, nĂŁo faria tanto sucesso atualmente por causa das mudanças na TV e na ideia de padrĂŁo de beleza.

“Hoje, a vinheta do Carnaval nĂŁo faria tanto sucesso quanto fez na Ă©poca. Estamos em outro tempo. A TV era mais liberal. E aquela era a Ă©poca do topless da Monique Evans, da Luma de Oliveira, o biotipo da mulher hoje Ă© totalmente diferente, antes era mais natural. A gente tem que respeitar a passagem do tempo”.

Nesta entrevista, concedida por telefone e a poucos dias da data em que ocorreria o Carnaval, adiado para abril, a eterna Globeleza também fala sobre racismo, representatividade e a depressão que sofreu após ser demitida da Globo.

Valéria Valenssa - Reprodução/Instagram - Reprodução/InstagramValéria Valenssa - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram

 

“Nunca sofri racismo. Ou, pelo menos, nunca percebi”

ValĂ©ria Valenssa conta que, desde criança, seus interesses estavam ligados Ă  beleza e Ă  dança. Sonhava em ser chacrete, uma das dançarinas do programa do Chacrinha, fez cursos de modelo e participou de concursos de beleza – um deles, em 1989, foi o ponto de virada que a transformou na Globeleza.

Ela lembra que, naquele ano, venceu o concurso Garota Tropical e foi convidada a participar também do Garota de Ipanema, que tinha como inspiração HelÎ Pinheiro, a mulher branca e loira, hoje com 76 anos, que inspirou a canção de AntÎnio Carlos Jobim.

“Falei: ‘Mas esse concurso nĂŁo tem nada a ver comigo’ [por ser uma mulher negra]. Mas me disseram que estavam com poucas candidatas e precisavam de mim sĂł para preencher as vagas da primeira eliminatĂłria”.

As fases foram passando, e ValĂ©ria chegou Ă  final. Ficou em quarto lugar da competição que tinham como jurados JosĂ© BonifĂĄcio de Oliveira Sobrinho, o Boni, entĂŁo diretor na Globo, e Hans Donner, diretor artĂ­stico da emissora responsĂĄvel por criar a Globeleza — e com quem ValĂ©ria foi casada por 22 anos.

Quando questionada sobre racismo, ValĂ©ria Ă© rĂĄpida na resposta: diz que nunca sofreu nenhuma discriminação. Segundos depois, ponderou: “Ou, pelo menos, nunca percebi”.

“Comecei a fazer a vinheta do Carnaval bem novinha, aos 18 anos. Querendo ou nĂŁo, a Globeleza, o alcance que ela tinha e o fato de estar na Globo me davam alguma blindagem. Se as pessoas me olhavam de uma forma diferente ou me tratavam de uma forma diferente, eu nĂŁo percebia”, disse.

Depois de tantos anos no ar, todos os Carnavais, ela entende que sua Globeleza foi importante como referĂȘncia para meninas negras.

“Tinha uma representatividade muito grande. A identidade de uma criança ou adolescente Ă© formada quando vocĂȘ tem referĂȘncias. NĂłs precisamos disso. Mas na Ă©poca eu nĂŁo tinha ideia disso, nĂŁo tinha esse conhecimento, sĂł entendi de uns anos para cĂĄ. Hoje em dia, representatividade e autoestima sĂŁo muito discutidas. Ainda bem.”

Valéria Valenssa - Divulgação - Divulgação

Valéria Valenssa Globeleza - Divulgação - Divulgação

Imagem: Reprodução/Instagram

“Quando fui demitida da Globo, vivi depressĂŁo profunda”

De 1990 a 2005, Valéria esteve na vinheta de Carnaval da Globo todos os anos, inclusive em suas duas gestaçÔes. Na primeira, de João, gravou gråvida, quando a barriga ainda não aparecia; na segunda, de José, teve o corpo todo digitalizado para a propaganda.
No ano seguinte, foi demitida — e sofreu um enorme baque.

“Depois que eu tive os meninos, me programei para fazer pelo menos mais dois carnavais antes de me aposentar, mas eles me dispensaram. Eles nĂŁo me deram oportunidade de ficar. É duro trabalhar por tantos anos numa empresa, com contrato de exclusividade, e ser desligada da noite para o dia. SaĂ­ com uma tristeza muito grande, passei seis meses em uma depressĂŁo profunda”, lembra.

“Tinha consciĂȘncia que aquele nĂŁo era um trabalho para sempre, pois era um trabalho muito voltado para o corpo, e a idade chega. Mas, naquele momento, eu nĂŁo estava preparada, e tive um sentimento de perda. Estava realizada como mĂŁe, mas sentia que tinha perdido algo”.

“Naquele momento, eu estava muito sensĂ­vel, com dois bebezinhos, totalmente fora de Ăłrbita. Eu sĂł chorava e meus filhos eram meu remĂ©dio, porque eu tinha que cuidar deles, eles dependiam de mim. Eu nĂŁo saĂ­a de casa, vivia entre meu quarto e o quartinho deles”.
“Sempre quis ser mĂŁe, era um sonho, e saĂ­ no auge. Mas hoje acho que tudo aconteceu no momento certo”, completa.

Hoje, ValĂ©ria leva uma vida mais tranquila: se dedica aos filhos, de 17 e 18 anos, e ao seu canal no YouTube, onde conta passagens da trajetĂłria na Globo, fala de autoestima e recebe alguns convidados. No Carnaval, nada de bloco ou avenida: depois de anos “vivendo intensamente” essa Ă©poca do ano, ela prefere descansar, ficar longe da cidade.

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