O chamado Santo Daime, ou doutrina do Santo Daime, que consagra uma bebida de origem indĂgena que tem mais de 5.000 anos de uso, a ayahuaska, oferece riscos de fato, caso alguns procedimentos nĂŁo sejam levados em conta. A morte recente de um jovem que participou de um ritual no sul do paĂs, sem ter antes realizado uma anamnĂ©sia para verificação de seu estado de saĂșde fĂsica e mental, comprovou que o uso de ayahuasca nĂŁo Ă© nenhuma brincadeira.
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O Daime Ă© o resultado de um sincretismo religioso elaborado por seu fundador, o maranhense e migrante Raimundo Irineu Serra, na dĂ©cada de 40, no Acre. Envolve a tradição indĂgena, a ritualĂstica catĂłlica e preceitos do espiritismo, dentro de um ritual harmonioso realizado exclusivamente atravĂ©s de cĂąnticos, ou Ăcaros, que sĂŁo os chamados hinĂĄrios, com hinos religiosos de conexĂŁo, ou arrebatamento. A bebida Ă© de fato fortĂssima e tem o poder de aumentar a sensibilidade e o grau de percepção do usuĂĄrio. Os hinos sĂŁo usados para manter e conduzir o bom estado emocional do participante. Ele tambĂ©m precisa se submeter a trĂȘs dias de dieta sexual, para ter energia para o trabalho, que dura atĂ© oito horas consecutivas.
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Dentro do modelo antigo proposto, onde as pessoas jamais sĂŁo convidadas e, mesmo quem se interessa, precisa ficar por pelo menos trĂȘs seçÔes assistindo a tudo, mas sem ingerir nada. Assim, os novos integrantes podem ver para avaliar, e tambĂ©m serĂŁo vistos e avaliados.

Irineu Serra em sessão do Santo Daime no Acre/Foto: Reprodução
A grande referĂȘncia entre as comunidades da ayahuasca Ă© o centro religioso mais antigo, do Alto Santo, fundado pelo Mestre Irineu Serra hĂĄ quase um sĂ©culo e hoje dirigido por sua esposa, D. Peregrina Gomes Serra. Ela nĂŁo costuma dar entrevistas, prefere designar o orador do Centro, Antonio Alves para eventuais contatos com a imprensa. “Toinho”, como Ă© conhecido, informou que conversou com D. Peregrina sobre o noticiĂĄrio recente e ela repetiu as regras e orientaçÔes que mantĂ©m hĂĄ vĂĄrios anos para evitar problemas com o uso inadequado da ayahuasca, que no Alto Santo recebe o nome de Daime.
Primeiro, o centro fundado pelo Mestre Irineu nĂŁo tem filiais, ou seja, nĂŁo se responsabiliza pela distribuição da ayahuasca em outros lugares e outras organizaçÔes. Segundo, faz a sua prĂłpria ayahuasca, que distribui gratuitamente aos seus associados, sem qualquer forma de comercialização. Terceiro, eventuais visitantes sĂł podem tomar Daime no Alto Santo depois de uma preparação e uma avaliação para saber se estĂŁo nas condiçÔes adequadas. Menores de idade, sĂł se estiverem acompanhados ou expressamente autorizados por seus pais ou responsĂĄveis. Pessoas que estĂŁo em tratamento mĂ©dico, tomando remĂ©dios controlados, ou que tenham histĂłrico de dependĂȘncia quĂmica, sĂł apĂłs concluĂrem o tratamento. D. Peregrina afirma que os centros religiosos que seguem esses preceitos nĂŁo registram problemas.
Essas instruçÔes sobre o uso da ayahuasca constam de uma carta assinada hĂĄ mais de 30 anos por diversas organizaçÔes religiosas, conhecida como Carta de PrincĂpios. Os centros e igrejas conhecidas como “tradicionais”, que tem origem no Acre, seguem as regras na distribuição da ayahuasca firmadas na Carta.
Entre esses, o centro do Alto Santo Ă© considerado um dos mais “fechados”, ou seja, que tem mais restriçÔes aos visitantes. D. Peregrina esclarece que apenas mantĂ©m o preceito deixado pelo Mestre Irineu: nĂŁo convidar. A lição Ă© antiga, registrada num hinĂĄrio que se canta desde os anos 30 do sĂ©culo passado: “ensinar quem lhe procura, que nĂŁo vai se oferecer”.


