Cantor e compositor que fez sucesso no paĂ­s, reencontrou o pai cearense no Acre

HistĂłria Ă© contada por advogado que ajudou no reencontro de pai e filho, separados pela saga dos chamados Soldados da Borracha na AmazĂŽnia

Por TiĂŁo Maia, ContilNet 29/05/2023 Atualizado: hĂĄ 3 anos

Falecido aos 91 anos, em 29 de maio de 2020, o cantor e compositor romĂąntico Evaldo Gouveia, famoso por sucessos como “Sentimental Demais”, “AlguĂ©m Me Disse”, “O Que Queres Tu de Mim” e outros imortalizados principalmente pela voz de outro gigante da mĂșsica brasileira, Altemar Dutra, tinha uma relação de amor e Ăłdio com o Acre. A histĂłria Ă© contada por quem a viveu bem de perto, o advogado acreano SĂĄlvio Montenegro, de 82 anos, que vive em Manaus (AM).

Nascido em Rio Branco, Salvio e seu irmĂŁo Silvo Montenegro, jĂĄ falecido, travaram contato com o futuro artista que seria interpretado por Ă­cones da MĂșsica Popular Brasileira como Nelson Golçalves, Altemar Dutra, Gal Costa, Wilson Simonal, Ney Matogrosso, Vinicius de Moraes, Gal Costa e outros, ainda jovens, nos idos dos anos de 1959/1960. “Eu, morando e estudando na Cidade do Rio de Janeiro, Bairro do Flamengo, Rua Silveira Martins, n°140, entre as Ruas do Catete e Bento Lisboa. Nessa altura da Rua, existe uma pequena Tavessa chamada de Carlos SĂĄ, e que na Esquina oposta, havia uma pequena casa com dois Pisos, que os trĂȘs jovens amigos, vindo do CearĂĄ, tentar vencer como cantores, e venceram com o seu Trio NagĂŽ, e que respondiam pelos seguintes nomes: Evaldo Gouveia, Epaminondas Souza e MĂĄrio Alves”, conta o advogado.

“Foi quando eu conheci e me relacionei com o Evaldo Gouveia, este nascido no MunicĂ­pio de OrĂłs, Estado do Ceará”, acrescenta Montenegro. “Voltei para o Acre, e o tempo passou, quando numa bela tarde de domingo, jĂĄ no ano de 1973, eu, juntamente com mais trĂȘs amigos, Hermano DiĂłgenes (Manoca”) e Rufino Farias Vieira e mais um terceiro, cujo nome me foge da lembrança, fomos para um balneĂĄrio chamado de Boa Água, tomar uma cerveja gelada em dia de calor”.

WhatsApp Image 2023 05 29 at 13.37.12

Advogado Salvio Montenegro e a esposa Mariolanda/Foto: cedida ao ContilNet

O “Boa Água” ficava mais ou menos onde hoje Ă© a Avenida CearĂĄ, onde estĂĄ fincada a loja de material de Construção “Agroboi”, no Bairro 7Âș BEC. Ali, na Ă©poca, havia um belo açude e na pequeno bar construĂ­do em madeira, que fazia parte duma Fazendola de propriedade de um certo Augusto Gouveia, um dos muitos cearenses que vieram tentar a sorte no Acre como Soldado da Borracha e que, depois de muito anos no corte de seringa, estava no arremedo de cidade tentando ganhar a vida como comerciante.

Com a palavra, de novo, SĂĄlvio Montenegro com o restante da histĂłria: “LĂĄ pelas tantas, nĂłs tomando cerveja e wysky, tirando o gosto com carĂĄ frito na hora, quando o senhor Augusto Gouveia aproximou-se da nossa mesa, e trazendo uma edição da entĂŁo famosa Revista O CRUZEIRO, nos mostrou uma reportagem nas duas pĂĄginas centrais, do dito Trio NagĂŽ, com destaque para o seu lĂ­der, e sem rodeios nos disse: VocĂȘs estĂŁo vendo esse rapaz, chamado Evaldo Gouveia, pois saibam que ele Ă© meu filho”.

Foi um susto e uma admiração duvidosa, segundo descreve novamente SĂĄlvio Montenegro. “À princĂ­pio, pensamos se tratar de uma boa gozação, mas, aĂ­ ele retrucou, dizendo que um “cearense na minha idade, nĂŁo mente.” Foi entĂŁo que tivemos a curiosidade de melhor ver a citada foto, e vimos que o meu amigo Evaldo Gouveia era o sĂłsia do velho Augusto, aparentando ser uns 20 anos mais novo”, contou o advogado. “Aquela revelação tocou em mim e nos meus dois amigos, Manoca e Rufino Vieira, quando resolvemos tentar trazer o Evaldo Goveia Ă  Rio Branco, para se encontrar com o seu velho pai”.

SĂĄlvio Montenegro conta ainda que, partindo dali, o trio de amigos entrou em contato com o Evaldo. “Lhe expus a essa singular situação, o que a princĂ­pio o deixou desnorteado, chegando quase Ă  nĂŁo acreditar no que estava ouvindo, jĂĄ que ele e sua famĂ­lia pensavam ou – melhor – tinham certeza de que o seu dito pai, hĂĄ muitos anos tinha morrido, jĂĄ que que ele, desde que tinha vindo para a AmazĂŽnia cortar seringa e prometendo que tĂŁo logo pudesse, voltaria ao CearĂĄ para trazer sua mulher e seus trĂȘs filhos, de 1, 2 e 3 anos, o que nĂŁo o fez e tambĂ©m, jamais sequer deu notĂ­cias suas”.

WhatsApp Image 2023 05 29 at 13.38.09

Evaldo Gouveia, famoso por sucessos como “Sentimental Demais”/Foto Reprodução

Em seguida, os amigos conseguiram agendar um show do Trio Nagî no Clube Social Rio Branco. “Na data aprazada, num fim de semana, aconteceu o belo Baile/Show. No domingo, já estava antecipadamente marcado o pretendido encontro de pai e filho, sob a expectativa nada agradável, de que iríamos assistir um triste reencontro. No domingo, levei o Evaldo e seus colegas para um bom almoço, na casa da minha mãe Carmelita, e de lá partimos para o Balneário Boa Água. Nisso, eu fui na frente pra preparar o espírito do velho Augusto Gouveia. E cerca de trinta minutos, chegaria mais dois carros, o amigo Rufino Vieira e o outro, do Hermano Diógenes”, conta Sálvio.

WhatsApp Image 2023 05 29 at 13.37.13

Salvio com uma de suas filhas/Foto: Cadida ao ContilNet

No BalneĂĄrio Boa Água havia um pequeno bar, medindo aproximadamente quatro metros de frente, por 10 metros de fundos. “PossuĂ­a a frente e as laterais gradeadas de ripas de madeira, com um pequeno portĂŁo de entrada, e na parte de fundo, um balcĂŁo com uma geladeira Ă  querosene, jĂĄ que na Ă©poca nĂŁo havia energia elĂ©trica. Conforme o combinado, 30 minutos depois, chegou a pequena caravana. AĂ­, dentro do pequeno recinto, estava apenas o senhor Augusto, por dentro do pequeno balcĂŁo, portando um autĂȘntico chapĂ©u de couro, batido na testa, e a sua velha viola em cima do pequeno balcĂŁo. “Nisso, sozinho se aproximou o Evaldo Govueia adentrando uns trĂȘs metros onde parou. AĂ­ o seu pai abriu a cancelinha de acesso e ficaram os dois, Ă  distĂąncia de uns dois metros um doutro, um olhar fixo. O silĂȘncio era sepulcral, quase dando para se se ouvir o bater de asas de moscas e outros insetos tal a apreensĂŁo da pequena plateia entre atĂŽnita e ao mesmo tempo apavorada, Ă  espera dum desfecho trĂĄgico, tal era a raiva que o Evaldo estava deixando transparecer”, conta o advogado, que testemunhou a cena.

“Mais ou menos passados cerca de trĂȘs minutos, vimos sim, muitas lĂĄgrimas rolarem nas faces, daqueles dois seres humanos seguidas de fortĂ­ssimos abraços, certamente se perdoando mutuamente, e agradecendo Ă  Deus pelo feliz e inesperado reencontro entre pai e filho, mostrando ao mundo que a força do sangue falou mais alto que sentimentos ofendidos”, concuiu SĂĄlvio Montegro.

Natural de OrĂłs, no interior cearense, Evaldo se mudou para Fortaleza aos 11 anos e, aos 19, jĂĄ iniciava sua carreira musical, tocando em bares locais. Em 1950, formou o Trio NagĂŽ, que se apresentou em capitais do Sul e Sudeste e abriu portas para que Evaldo se fixasse no Rio de Janeiro, a entĂŁo capital do Brasil.

Autor de sucessos como Sentimental Demais, AlguĂ©m me disse, Deixe que ela se vĂĄ, Tango pra Tereza e atĂ© do samba enredo O mundo melhor de Pixinguinha, defendido pela Portela em 1974, Evaldo Gouveia teve suas composiçÔes – muitas em parceria com Jair Amorim – gravadas por entre outros grandes nomes da mĂșsica brasileira.

O cantor e compositor cearense foi abatido pela Covid-19, no auge da pandemia em 2020, e partiu levando essa histĂłria em segredo.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.