Sim, Rio Branco jĂĄ tem uma “CracolĂąndia” para chamar de sua; confira o artigo de Roraima Rocha

Por Roraima Rocha, ContilNet 03/11/2023 Atualizado: hĂĄ 2 anos

Por mais de uma dĂ©cada, pude trabalhar na intricada teia da AssistĂȘncia Social de Rio Branco. Tive o privilĂ©gio de vivenciar de perto as mazelas e carĂȘncias de uma esfera frequentemente relegada ao plano secundĂĄrio pelos administradores municipais e, assim posso escrever essas linhas com algum conhecimento, sem que sejam apenas palavras a ermo e “achismos”. É uma ĂĄrea que ganha destaque na grande maioria das vezes oportunamente, em anos eleitorais e em perĂ­odos de alagação, quando os polĂ­ticos aproveitam para fazer assistencialismo barato e posar para fotos que em seguida irĂŁo para suas redes egĂłlatras.

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Foto: Juan Diaz/ContilNet

A problemĂĄtica das ĂĄreas urbanas conhecidas como “cracolĂąndias” Ă© uma questĂŁo que aflige inĂșmeras cidades brasileiras, e em Rio Branco nĂŁo Ă© diferente. Essas regiĂ”es tornaram-se sĂ­mbolos de desafios complexos relacionados ao desenvolvimento urbano, desvalorização imobiliĂĄria, segurança pĂșblica, bem-estar social, saĂșde pĂșblica e, acima de tudo, as polĂ­ticas pĂșblicas de assistĂȘncia social no Brasil.

No contexto nacional, a Constituição Federal de 1988 e a Lei OrgĂąnica da AssistĂȘncia Social (LOAS) estabelecem o direito Ă  assistĂȘncia social como uma forma de proteção Ă  população em situação de vulnerabilidade. O Sistema Único de AssistĂȘncia Social (SUAS) desempenha um papel crucial na implementação dessas polĂ­ticas. No entanto, a eficĂĄcia dessas polĂ­ticas e sua adaptação Ă  realidade local sĂŁo desafios constantes. O Centro de ReferĂȘncia Especializado para a População em Situação de Rua, conhecido como Centro POP, Ă© uma peça-chave nesse quebra-cabeça. Em Rio Branco, o Centro POP desempenha um papel vital, fornecendo atendimento especializado, acolhimento, orientação e encaminhamento para direitos e serviços. AtravĂ©s de serviços psicossociais, busca-se a reintegração social e a recuperação da cidadania daqueles que se encontram em situação de rua. O Centro POP Ă© uma manifestação concreta das polĂ­ticas de assistĂȘncia social, cujo objetivo Ă© melhorar a qualidade de vida da população em situação de rua.

À medida que enfrentamos a realidade local, Ă© preocupante observar o aumento no nĂșmero de pessoas em situação de rua em Rio Branco, que saltou de 325 em 2021 para quase 500 em 2023, segundo o MinistĂ©rio PĂșblico do Acre. Essa tendĂȘncia Ă© um sintoma dos desafios mais amplos que enfrentamos em nossa sociedade, incluindo a dependĂȘncia quĂ­mica, que muitas vezes Ă© a razĂŁo pela qual as pessoas acabam nas ruas. A recuperação de dependentes quĂ­micos Ă© um processo complexo que requer decisĂŁo pessoal, e os esforços das polĂ­ticas pĂșblicas precisam ser direcionados para apoiar essa decisĂŁo.

É crucial destacar que as “cracolĂąndias” nĂŁo afetam apenas aqueles vivem/frequentam/circulam por elas. O aumento na concentração de pessoas em situação de rua nas ĂĄreas urbanas tambĂ©m gera problemas de segurança e degradação do ambiente, impactando a qualidade de vida de todos os cidadĂŁos. É fundamental destacar que a situação em Rio Branco nĂŁo Ă© apenas uma realidade estatĂ­stica. No Ășltimo domingo (29) um trĂĄgico evento ocorreu a menos de 200 metros do Centro POP, onde um morador de rua perdeu a vida, possivelmente devido a uma overdose. Esta Ă© uma dolorosa lembrança de que o problema estĂĄ Ă  porta de nossas instituiçÔes de assistĂȘncia, clamando por açÔes efetivas e imediatas.

ExperiĂȘncias bem-sucedidas em todo o mundo podem nos fornecer liçÔes valiosas. Por exemplo, na Suíça, a criação de “salas de injeção segura” e uma abordagem de redução de danos ajudaram a minimizar os problemas associados ao uso de drogas em ĂĄreas urbanas, inclusive a Suíça tinha a maior taxa de infecção por HIV na Europa Ocidental, em parte devido ao compartilhamento de seringas para injetar drogas. Entre 1991 e 2010, o nĂșmero de overdoses fatais no paĂ­s caiu pela metade, ao mesmo tempo, as infecçÔes por HIV foram reduzidas em 65%, e a quantidade de novos usuĂĄrios de heroĂ­na caiu 80%.

Nos anos 1980 e 1990, Frankfurt (Alemanha) enfrentou um desafio significativo com uma grande concentração de dependentes quĂ­micos nas proximidades de sua estação ferroviĂĄria. No entanto, a cidade alemĂŁ conseguiu superar esse problema atravĂ©s da implementação de terapias de substituição, substituindo a heroĂ­na por opioides controlados. Essa abordagem nĂŁo focava na abstinĂȘncia, mas sim na melhoria da saĂșde fĂ­sica e mental dos dependentes, bem como na reintegração social. Hoje, mais de 30 anos depois, a antiga “CracolĂąndia” de Frankfurt Ă© uma pĂĄgina virada na histĂłria da cidade, destacando a eficĂĄcia das terapias de substituição no tratamento de dependentes quĂ­micos.

É curioso, e talvez um tanto irĂŽnico, que, ao abordar a problemĂĄtica das “cracolĂąndias” em nosso paĂ­s, sejamos compelidos a lançar um olhar distante, quase utĂłpico, a realidades que, num primeiro olhar, parecem inatingĂ­veis Ă  luz de nossa legislação (sei que algumas ideias precisariam de aprovação da CĂąmara e do Senado) e das complexidades singulares que enfrentamos. Entretanto, Ă© na contemplação dessas experiĂȘncias distantes, em terras estrangeiras, que vislumbramos uma possibilidade: a de refletir sobre boas prĂĄticas que, de alguma forma, podem lançar luz sobre nosso prĂłprio caminho.

A criação de “salas de injeção segura” na Suíça e as terapias de substituição na Alemanha, sĂŁo exemplos de esforços que transcendem fronteiras geogrĂĄficas. NĂŁo podemos ignorar que tais realidades distantes nem sempre se ajustam perfeitamente Ă  nossa prĂłpria, mas desvelam um potencial de inspiração.

Reconheçamos que nĂŁo Ă© necessĂĄrio reinventar a roda. O que se faz vital Ă© a capacidade de discernimento, a habilidade de analisar essas experiĂȘncias sob a lente de nossa prĂłpria realidade, considerando nossa legislação, cultura e desafios Ășnicos. O que se torna essencial Ă© a percepção de que, apesar das disparidades evidentes, Ă© possĂ­vel extrair liçÔes valiosas, princĂ­pios orientadores e, acima de tudo, a compreensĂŁo de que o enfrentamento das “cracolĂąndias” exige uma abordagem multidisciplinar, unindo assistĂȘncia social, tratamento de vĂ­cios e medidas de segurança.

Em Ășltima instĂąncia, Ă© na busca pela combinação apropriada desses elementos, moldada pela realidade de Rio Branco e do Brasil como um todo, que reside a esperança de transformar o cenĂĄrio sombrio que envolve as “cracolĂąndias” em um horizonte mais promissor, onde a dignidade e a recuperação se tornem realidade, nĂŁo apenas uma utopia distante.

Retornando Ă  nossa Rio Branco, o Centro tornou-se, lamentavelmente, um campo de batalha para facçÔes criminosas, que disputam o domĂ­nio dos pontos de venda de drogas. Essa disputa se estende do centro da cidade aos bairros da Base, Cadeia Velha, Papouco, Dom Giocondo, atĂ© a ladeira do Bola Preta, criando uma teia de violĂȘncia e instabilidade que afeta toda a sociedade.

Com a proximidade das eleiçÔes municipais em 2024, a missĂŁo dos candidatos a Prefeito de Rio Branco Ă© clara: Ă© urgente enfrentar esse problema complexo e multifacetado. A solução requer o envolvimento de diversos atores, desde as autoridades locais atĂ© a sociedade civil, passando por especialistas em saĂșde pĂșblica, assistĂȘncia social e segurança. A prioridade deve ser a implementação e aprimoramento das polĂ­ticas pĂșblicas de assistĂȘncia social, com especial atenção Ă  recuperação de dependentes quĂ­micos e Ă  reintegração da população em situação de rua. AlĂ©m disso, Ă© necessĂĄrio desenvolver estratĂ©gias de segurança que garantam a tranquilidade das ĂĄreas urbanas afetadas sem, no entanto, colocar ainda mais essas pessoas Ă  margem da sociedade.

Este Ă© um desafio que nĂŁo pode ser resolvido por uma Ășnica entidade ou por açÔes isoladas. É um problema que requer uma abordagem coletiva e a compreensĂŁo de que, ao cuidar dos mais vulnerĂĄveis em nossa sociedade, todos se beneficiarĂŁo. O futuro de Rio Branco depende de nossa capacidade de enfrentar esses desafios e construir uma cidade mais justa, segura e inclusiva para todos os seus cidadĂŁos.

*Advogado e Membro da ComissĂŁo da Advocacia Criminal da OAB/AC.

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