O termo ansiedade ambiental tem estado em alta nos Ășltimos dias, devido ao desastre ocorrido no Rio Grande do Sul, com as fortes enxurradas enfrentadas pelo estado sulista. Entretanto, isso nĂŁo Ă© uma realidade apenas deles, o prĂłprio estado do Acre sofre, anualmente, com enchentes que impactam grande parte de sua população, com a de 2024 se tornando uma das mais impactantes, sendo a segunda maior na capital e quebrando o recorde histĂłrico em BrasilĂ©ia.
Com isso, Ă© necessĂĄrio que açÔes governamentais e sociais ocorram, como maneiras de socorrer e acalentar as pessoas que sofrem com isso, que para alĂ©m das perdas materiais, muitos deles estĂŁo em um momento de sofrimento psicolĂłgico em decorrĂȘnciaÂ
A expressĂŁo citada anteriormente Ă© definida pela Associação Americana de Psicologia como âmedo crĂŽnico de sofrer um cataclismo ambiental que ocorre ao observar o impacto, aparentemente irrevogĂĄvel, das mudanças climĂĄticasâ.
O NĂșcleo de Estudos ExtensĂŁo e Pesquisa Psicossocial Euclides Fernandes TĂĄvora (Nepse) discute diversos assuntos com impacto social e as pessoas afetadas por desastres ambientais tambĂ©m virou pauta de estudo.

Enchente em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, em 9 de maio de 2024 â Foto: Carlos FABAL / AFP
O professor do curso de psicologia da Universidade Federal do Acre (Ufac) e responsĂĄvel pelo Nepse, Leandro Rosa, juntamente com os alunos que participam do grupo, falaram sobre os impactos possĂveis na saĂșde mental.
âFomos ao abrigo na Expoacre durante a alagação e vimos as pessoas muito ansiosas e estressadas, e isso se refletia tambĂ©m nas crianças, que sĂŁo mais vulnerĂĄveis a essas mudanças. Elas estavam ali preocupadas com os pais, que por sua vez estavam aflitos com situaçÔes que nĂŁo poderiam ser resolvidasâ.
O grupo explica ainda que situaçÔes como esta, onde pessoas sĂŁo vĂtimas diretas dos impactos das mudanças climĂĄticas, podem levar a certos traumas permanentes em suas vidas.
âElas podem sim desenvolver problemas a longo prazo, jĂĄ ouvimos histĂłrias de pessoas que tĂȘm altos nĂveis de ansiedade toda vez que chove, pois jĂĄ passou pela alagação e todo ano pode acontecer, outra de pessoas que dormiram com a ĂĄgua de um jeito e acordaram com a casa alagada e isso causa uma preocupação e ansiedade nessas pessoasâ.Â

Rio Branco registrou a segunda maior enchente da sua histĂłria/ Foto: Pedro Devani/Secom
Rosa enfatiza que muitas dessas situaçÔes são muito recentes e existem poucos estudos a longo prazo acerca dos impactos de sofrer com desastres climåticos de maneira recorrente, como ocorrem no Acre.
AlĂ©m disso, outro ponto salientado por ele Ă© que tambĂ©m nĂŁo se tem conteĂșdo substancial acerca de como lidar com os povos originĂĄrios em situaçÔes como esta.
Grande parte do sofrimento causado relativo a estas situaçÔes sĂŁo decorrentes da organização social em que se vive, que Ă© diferente dos povos indĂgenas, assim a relação deles com estas situaçÔes Ă© diferente, levando a uma maneira diferente de sofrer pelo ocorrido e por isso as abordagens tambĂ©m precisam ser diferentes.
Até mesmo as açÔes de intervenção imediata, que são aquelas que acontecem assim que se då a situação, sejam elas de quaisquer naturezas relativas aos desastres naturais, estão sendo estudadas e refinadas com o passar do tempo.
Quanto aos grupos que potencialmente podem ter maiores impactos psicolĂłgicos envoltos nesses desastres, a Organização Mundial da SaĂșde pontua que algumas figuras precisam receber maior atenção, sendo eles: crianças e adolescentes, pessoas com problemas de saĂșde e deficiĂȘncias e pessoas que correm risco de discriminação ou violĂȘncia.Â

As situaçÔes vividas podem desencadear diversos tipos de adoecimentos mentais, dentre eles a depressão
âO problema Ă© que depois de sair dos abrigos a pessoa continua exposta a um lugar de vulnerabilidade. NĂŁo adianta cuidar da pessoa no primeiro momento e depois ela ficar numa situação de misĂ©ria, sem casa, num territĂłrio que nĂŁo reconhece mais como dela. Isso produz diversos adoecimentos pra elaâ, explica Rosa.Â
Ele reforça que Ă© necessĂĄrio uma maior rede de apoio para elas quando saĂrem da situação de emergĂȘncia, porĂ©m a atual estrutura nĂŁo comporta com eficiĂȘncia o cenĂĄrio presente, entĂŁo Ă© difĂcil para o estado conseguir absorver o acompanhamento dessas pessoas.
Um dos integrantes do grupo de pesquisa Ă© Alberto Siqueira, estudante do curso de psicologia da Ufac, e foi atingido pela enchente de 2023, quando o igarapĂ© SĂŁo Francisco transbordou e atingiu diversas famĂlias que moravam prĂłximas ao local.
âA Ășltima vez que que atingiu a minha famĂlia foi a cerca de uns 15 anos atrĂĄs, e aĂ teve essa do ano passado, a gente nĂŁo achou que a ĂĄgua ia subir tanto mas foi subindo e subindo. AtĂ© que a gente teve que sair com roupa do corpo de casaâ.
Ele relata ainda que o pior momento nĂŁo foi ver as ĂĄguas tomando as casas, mas o retorno ao local que antes era moradia e agora estĂĄ destruĂdo foi o que impactou o estudante.Â

Grupo de alunos participantes do Nepse, junto do professor responsåvel, em uma de suas açÔes de extensão/Foto: Cedida
âFoi muito difĂcil voltar, parecia um cenĂĄrio de destruição do pĂłs-guerra, tinha um monte de lixo na rua, casas tinham sido arrastadas, o cheiro de lama demorou muito para sair. Eu meio que me perdi, perdi minha saĂșde mental e acho que estou perdido atĂ© hojeâ.
O estudante conta que, quando chove muito, tem alguns episĂłdios de ansiedade, pensando em como iria fazer para conseguir sair do seu bairro e cuidar da mĂŁe enquanto sai de casa. âNinguĂ©m quer ter que passar por isso de novoâ.
O jovem revela ainda o momento que percebeu, ainda muito novo, quando ocorreu a alagação de sua casa pela primeira vez. âEu via ĂĄgua chegando e alguns redemoinhos. Minha mĂŁe conta que eu cheguei a vomitar na ĂĄgua quando vi. O momento mais marcante foi quando estĂĄvamos saindo de casa em um canoa e eu sĂł tinha a roupa do corpo, que estava cortada para uma fantasia de carnavalâ, relatou.
Em outros anos, mesmo com pouca ĂĄgua atingindo a casa, ele relata que jĂĄ entrava em um estado de alerta constante. âEm alguns outros anos a ĂĄgua chegava a uns dois dedos dentro de casa e isso jĂĄ me bateu uma ansiedade imensaâ, explica.
O efeito da alagação na mente de Siqueira se mantém até hoje. Ele destaca que, mesmo gostando muito de natação, em algumas situaçÔes não consegue realizar seus treinos, por marcas deixadas pelas åguas barrentas das enchentes.
âQuando eu vejo que a ĂĄgua tĂĄ subindo, vejo aquela coisa barrosa, eu nĂŁo consigo mais nadar, eu tenho medo. Gosto muito mas quando tem esses momentos assim eu nĂŁo consigo. Ă como se eu tivesse voltando para aquele momentoâ revela.
Apesar das situaçÔes postas, o grupo de pesquisa relata que, no que tange a saĂșde mental, um dos movimentos que mais tem tido efeitos Ă© o engajamento pessoal em açÔes que ajudam a combater o agravamento do aquecimento global e outros que estĂŁo prejudicando cada vez mais o meio ambiente.
Entretanto, o professor pontua que, para fins pråticos, açÔes individuais podem trazer grandes avanços locais, mas não irão mudar o cenårio mundial. Assim, são necessårias açÔes coletivas para pressionar mudanças de postura de governantes ao redor do mundo para que exista uma melhora no quadro mais amplo. à preciso mudar a nossa forma de sociedade, a qual prioriza o consumo, concentração de riqueza e a exploração de humanos e da natureza.
Por fim, o grupo ressalta que o melhor caminho que tem se observado a princĂpio, Ă© que o autocuidado, se integrando a coletivos que estejam praticando açÔes em prol do meio ambiente tem um resultado positivo.
âA gente tem que pensar em como chegar no dia a dia dessas pessoas, seja atravĂ©s de projetos sociais mais estruturados ou outras instituiçÔes como a igreja, no futebol, nos bares , mas isso Ă© preciso chegar em todos, principalmente na base, levar essa consciĂȘncia Ă© uma possibilidade de ação Ă© o que precisa ser feitoâ.
O que pode ser observado atĂ© o momento Ă© que o conforto de alguĂ©m que Ă© atingido diretamente pelo impacto do descaso ambiental mundial Ă© saber que, mesmo em escala pequena, essas pessoas estĂŁo lutando pelo seu direito de viver nos seus espaços, no seu local de direito, onde sua cultura existe, um espaço que seja ela seja pertencente. Agir em prol do meio ambiente e do seu espaço dentro dele Ă© tambĂ©m agir em prol da sua saĂșde mental.
[videopress 4I41kIsl]

