Em “Woman’s World”, Katy Perry nos lembra de um pop raso que não faz falta

Entre sĂĄtira e hino feminista sincero, novo single da cantora sĂł Ă© uma nulidade

Por Omelete 12/07/2024 Ă s 12:43

Longe de mim subestimar Katy Perry, ou a marca indelĂ©vel que ela deixou na mĂșsica pop desde sua explosĂŁo, no finzinho da dĂ©cada de 2000, com a inesquecĂ­vel “I Kissed a Girl”. Dentro de um cenĂĄrio de inovaçÔes espetaculares, ela construiu uma imagem popularesca e descontraĂ­da sem nunca deixar de lado o fato de que Ă©, no fundo, uma cantora-compositora com raĂ­zes no folk-rock.

Em “Woman’s World”, Katy Perry nos lembra de um pop raso que não faz falta

De “Firework” a “Dark Horse”, de “Last Friday Night” a “Hot N Cold”, ela criou algumas das confecçÔes pop mais emblemĂĄticas das Ășltimas dĂ©cadas – e eu tambĂ©m adoro hits menores dela, como “Waking Up in Vegas” e “Walking on Air”!

Mas confesso que Ă© difĂ­cil ignorar o gostinho amargo que “Woman’s World”, novo single da cantora, deixa na boca. No aquecimento para o seu primeiro ĂĄlbum em quatro anos (143, o disco em questĂŁo, sai em 20 de setembro), Perry fez o que toda popstar se sente na obrigação de fazer diante do cenĂĄrio que se apresenta diante dela: se adaptou.

DaĂ­ a duração de menos de 3 minutos – 2:43, sem o interlĂșdio que interrompe a canção no meio do clipe -, e daĂ­ a cena do vĂ­deo em que ela se posta ao lado de uma moça que estĂĄ gravando uma dança para o TikTok, executando passos simples desenhados para viralizar no aplicativo de vĂ­deos rĂĄpidos.

Curiosamente, nĂŁo sĂŁo essas modernizaçÔes que incomodam. Como boa compositora que Ă©, Perry estrutura “Woman’s World” para nĂŁo sofrer da sensação de coito interrompido que assombra tantas cançÔes pop que se dobram Ă  exigĂȘncia de brevidade na era do streaming musical (quanto mais curtas as mĂșsicas, mais reproduçÔes repetidas, e melhor performance nas paradas).

“Woman’s World” começa com um gancho melĂłdico forte, repete o seu refrĂŁo em uma frequĂȘncia satisfatĂłria, e atĂ© encontra tempo para uma bridge bem Ă  moda antiga. E, quando se trata da concessĂŁo ao TikTok, Perry encara a cena do clipe com a patetice cara-de-pau que sempre foi uma de suas melhores armas.

Essa falta de vergonha na cara nĂŁo Ă© o bastante para convencer, no entanto, durante o restante do vĂ­deo – e o motivo para isso Ă© sintomĂĄtico, de certa forma, do calcanhar de Aquiles de Perry como entidade pop: sua vontade irrestrita de agradar todo mundo.

Por causa dessa vontade, “Woman’s World” existe em um purgatĂłrio entre sĂĄtira e hino feminista honesto, nunca afiada o bastante para posicionar suas estranhas concessĂ”es ao olhar masculino como ironias efetivas, e nunca densa o bastante para convencer como manifesto sincero de uma artista que encontrou novas ideias de feminilidade nos Ășltimos quatro anos (que englobaram uma mudança de marcha na carreira, uma gravidez, um noivado, e sem dĂșvida muito mais na vida privada da popstar).

É curioso porque, de certa forma, o single tem tudo a ver com o que Perry sempre fez. “Acho que, quando as pessoas pensam em mim, elas pensam em ‘Roar’, em ‘Firework’, Ă s vezes em ‘I Kissed a Girl’, mas na maior parte do tempo nessas cançÔes empoderadoras. CançÔes com uma mensagem, que podem virar slogans em camisetas”, comentou ela em entrevista à Apple [via Elle].

“Woman’s World” certamente estĂĄ cheia de linhas memeĂĄveis, mas para que ela convencesse como algo alĂ©m do que um slogan de camiseta faltou uma de duas coisas: ou alguma especificidade que nos conecte a Perry como artista, como fazem popstars contemporĂąneas Ă  la Billie Eilish e Olivia Rodrigo; ou um faro transgressor esteticista mais penetrante, nos moldes Charli XCX e Sabrina Carpenter.

Faltou, enfim, algo que fizesse de “Woman’s World” um acontecimento pop significativo. Com uma produção competente e propulsiva, mas terminalmente avessa a qualquer inovação, o single moderniza a mĂșsica e a imagem de Perry na superfĂ­cie, mas por baixo disso banca em uma nostalgia que nĂŁo funciona porque coloca sua mira em uma era que simplesmente nĂŁo faz falta.

Para muito alĂ©m do envolvimento de Dr. Luke, acusado de estupro pela cantora Kesha (mas a falta de personalidade do single, vale dizer, segue bem o padrĂŁo dele como produtor), o “mundo das mulheres” de Perry nĂŁo seduz justamente por querer tanto seduzir todo mundo. Gregos e troianos, diria a sabedoria popular.

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