O ator Silvero Pereira conquistou, nos Ăşltimos anos, a televisĂŁo e as telonas brasileiras com personagens queer que se distanciam do estereĂłtipo de gays coadjuvantes e cĂ´micos, como o caso de CrĂ´ de “Fina Estampa”.
Depois de tipos prĂłprios trabalhados em cena –como foi o caso de Raimundo Nonato na novela “A Força do Querer”, motorista que tambĂ©m Ă© a artista Elis Miranda– e personas excĂŞntricas, como o violento insurgente Lunga, no filme “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho, Pereira agora dá vida a um dos mais violentos serial killers brasileiros, Francisco de Assis, no filme “ManĂaco do Parque”.

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Depois de atuar em “De Repente Drag”, filme de 2022, e falar algumas vezes em pĂşblico sobre os direitos da comunidade LGBTQIA+, a decisĂŁo de interpretar Francisco nĂŁo foi por acaso. “A busca por atores precisa ser guiada pelo seu ofĂcio e dissociada de sua vida pessoal”, disse Pereira, na festa de encerramento do Festival do Rio.
“A minha decisĂŁo de fazer o ManĂaco tem a ver com essa virada na minha trajetĂłria, para que o mercado audiovisual entenda que o Silvero, alĂ©m de militante nordestino e LGBT, Ă© ator”, ele afirma.
O longa da Prime Video Ă© dirigido por Mauricio Eça, responsável pelo filme “A Menina que Matou Seus Pais”, que reconta a histĂłria de Suzane von Richthofen. Mas a trama de “ManĂaco do Parque” nĂŁo Ă© centrada em Francisco, e sim na investigação de seus crimes, feita pela jornalista Helena, vivida por Giovanna Grigio.
O cuidado extra Ă© uma resposta Ă polĂŞmica envolvendo “Dahmer”, sĂ©rie da Netflix que recontou os crimes cometidos por Jeffrey Dahmer, na dĂ©cada de 1970, nos Estados Unidos. Na Ă©poca do lançamento, parte do pĂşblico disse que os episĂłdios, com cores vibrantes e mĂşsicas dançantes, romantizava os assassinatos brutais e desrespeitava o trauma dos familiares das vĂtimas.
“A ideia nĂŁo foi dar o holofote ao Francisco. Fizemos o filme com o olhar de hoje, e a nossa escolha foi contar essa histĂłria como uma reparação histĂłrica para essas mulheres vĂtimas”, diz Eça.
A preocupação dá origem a longos diálogos entre Helena e sua tia, uma psicĂłloga que explica o comportamento de um psicopata, e ainda com outros jornalistas, todos homens, integrantes de um ambiente de trabalho contaminado pelo machismo. “No Brasil, as pesquisas dizem que os grandes consumidores desse tipo de filme [policiais] sĂŁo mulheres. Talvez elas queiram entender melhor a cabeça do opressor”, diz Eça.
ThaĂs Nunes, pesquisadora do caso que auxiliou na criação do roteiro, lamenta que a mĂdia brasileira, na Ă©poca dos crimes, retratou Francisco como “sedutor, inteligente e irresistĂvel”, um sintoma ligado ao sucesso de filmes de assassinato na dĂ©cada de 1990.
Francisco abordava suas vĂtimas fingindo ser um agente de publicidade. Prometendo levar as mulheres para um ensaio de moda, ele Ă s conduzia atĂ© o parque do Estado, onde Ă s espancava, violentava e matava. No filme, essas cenas sĂŁo alternadas com as pistas encontradas por Helena durante a investigação, na tentativa de revelar a identidade de Francisco.
Pereira diz que as filmagens foram acompanhadas de coordenadores de intimidade, que facilitaram a gravação de cenas mais violentas. Segundo ele, o streaming dá mais possibilidades de papĂ©is a atores e atrizes queer –nĂŁo os limitando a interpretar, obrigatoriamente, um personagem LGBTQIA+. “Na teledramaturgia, isso ainda Ă© fechado”, afirma o ator.
Seu primeiro papel na TV, em “A Força do Querer”, surgiu depois que a autora GlĂłria Perez o escolheu para viver Nonato. “Ela me viu no teatro e percebeu o ator que eu poderia ser”, diz. “Mas a televisĂŁo está ficando mais corajosa.”
ManĂaco do Parque
Onde: DisponĂvel no Prime VĂdeo
Classificação: 14 anos.
Elenco: Silvero Pereira, Giovanna Grigio e Mel Lisboa
Direção: Mauricio Eça

