Neto de Darli Alves, o mandante do assassinato de Chico Mendes, teme morrer no presĂ­dio e escreve cartas

“Russo”, condenado a 50 anos de prisĂŁo por crimes de latrocĂ­nio, diz em carta que entrou em desgraça contra duas facçÔes no presĂ­dio e teme ser executado

Por TiĂŁo Maia, ContilNet 29/10/2024

O mais perigoso membro do clĂŁ Alves da Silva, que ficou internacionalmente conhecido como assassinos a partir do assassinato do lĂ­der sindical e ambientalista Chico Mendes, em dezembro de 1988, em Xapuri, Ă© um homem marcado para morrer e estĂĄ pedindo ajuda Ă s autoridades da ĂĄrea de defesa dos direitos humanos para nĂŁo morrer. Artur Ramoile Alves da Silva, de 37 anos, conhecido por “Russo”, Ă© neto do fazendeiro Darli Alves da Silva, apontado como o mandante da execução de Chico Mendes. Cumpre pena superior a 50 anos de prisĂŁo no presĂ­dio estadual “Francisco D’Oliveira Conde” e vem denunciando que estĂĄ marcado para morrer.

Neto de Darli Alves, o mandante do assassinato de Chico Mendes, teme morrer no presĂ­dio e escreve cartas

Artur Ramoile Alves da Silva e Silva é neto de Darli Alves, acusado de ser o mandante do assassinato de Chico Mendes/Foto: Reprodução

Quem quer matĂĄ-lo, segundo o preso, sĂŁo membros das duas facçÔes cujos membros tambĂ©m cumprem pena no presĂ­dio, o CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital), que no Acre age sob o nome “Bonde dos 13”. “Russo” caiu em desgraça junto aos dois grupos criminosos e revela que sĂł estĂĄ vivo ainda porque conseguiu abrigo no pavilhĂŁo “Q”, do presĂ­dio, onde ficam presos que se convertem ao Evangelho de Cristo e deixam de ter contato com os faccionados. Os membros das facçÔes ficam divididos em grupos com os quais se identificam, nos pavilhĂ”es H e L.

“Se eu bater de volta em qualquer um desses dois, morro na certa”, diz Russo em cartas que ele conseguiu enviar a jornalistas, nas quais expĂ”e sua agonia. Diz, entre outras coisas, que de fato fez coisas erradas e que estĂĄ disposto a pagar sua pena e que estĂĄ preso hĂĄ 16 anos, sofrendo torturas fĂ­sicas e psicolĂłgicas. Mas agora, alĂ©m disso, corre risco de morrer porque membros das duas facçÔes, inclusive da sua (CV), querem pegĂĄ-lo. “Russo” diz ainda que fez a denĂșncia por ter ficado sabendo que a direção do presĂ­dio quer mandĂĄ-lo de volta para o chamado “ChapĂŁo”, onde ficam tambĂ©m os presos mais perigosos, exatamente aqueles que querem executĂĄ-lo.

“Russo” teve a vida cercada de crimes, tanto os que ele cometia quanto aqueles praticados por membros de sua famĂ­lia. AlĂ©m da famĂ­lia envolvida com crimes de pistolagem, hĂĄ pelo menos duas dĂ©cadas, quando ainda era jovem, ele decidiu entrar para o Comando Vermelho e ajudou a propagar a facção pelo Acre.

No mundo do crime, Artur Ă© conhecido como Russo e seria a oitava pessoa batizada ou filiada no CV no estado. O padrinho de Russo dentro da facção Ă© o criminoso Deibson Cabral, o Tatu, de 33 anos, um dos fugitivos da PenitenciĂĄria Federal de MossorĂł (RN) em fevereiro deste ano. Em seguida, o prĂłprio Russo passou a batizar outros membros do grupo, segundo um organograma feito pelo MinistĂ©rio PĂșblico do Acre (MPAC), quando o denunciou por assaltos e organização criminosa. De acordo com o MPAC, todos os batizados na organização criminosa tĂȘm um “padrinho”, que Ă© o criminoso anterior e que jĂĄ faz parte da facção, o qual endossa a entrada do novo membro.

Como neto do assassino de Chico Mendes virou importante membro do CV

Neto do assassino de Chico Mendes virou importante membro do CV/Foto: Reprodução

RelatĂłrio de inteligĂȘncia do MinistĂ©rio PĂșblico do Acre descreve Artur Ramoile como um “importante faccionado” do CV. “Verificou-se ainda que Russo referendou (apadrinhou) o ingresso de outros faccionados, contribuindo assim para o crescimento da organização criminosa”, diz trecho do relatĂłrio, que Ă© baseado em documentos do Comando Vermelho encontrados no celular de um membro do grupo.

Para o MinistĂ©rio PĂșblico, Deibson e Artur estĂŁo entre os fundadores da facção criminosa no Acre. Os dois jĂĄ foram condenados por organização criminosa por causa do vĂ­nculo com o CV.

Desde a adolescĂȘncia, Russo coleciona casos de latrocĂ­nio, que Ă© o roubo seguido de morte, assassinatos, assaltos e tentativas de fuga do sistema prisional, onde ele segue preso.

Uma conversa interceptada pela Polícia Civil do Acre entre duas mulheres ligadas ao Comando Vermelho, em 2018, revelou que Russo teria discordado do conselho da facção e sido agredido por conta disso.

De acordo com relatório da interceptação, uma das mulheres relata que membros da facção estavam planejando uma fuga do presídio estadual de segurança måxima AntÎnio Amaro Alves, mas o plano teria sido abortado por conselheiros do CV.

“Os caras iam fugir e o irmĂŁo do conselho pegou ele. Foi um bagulho doido. Ele (Russo) contou quase chorando, porque ele (Russo) Ă© da lei dos trinta, nĂŁo sai da cadeia mais. Ele contou assim: ‘Esse Comando Vermelho Ă© uma farsa’. Eu vi Ăłdio na cara dele. Os irmĂŁos do conselho pegaram ele pelo pescoço, e ele nĂŁo pĂŽde reagir porque o JoĂŁo, que Ă© um dos conselheiros, estava com uma faca para furar ele”, descreveu uma das mulheres na conversa.

Artur foi apreendido quando tinha 17 anos em Xapuri (AC), acusado de matar o estudante Raele Lorenzone. Na Ă©poca, a mĂŁe da vĂ­tima disse que o crime foi anunciado: “Ele disse que ia matar meu filho e matou. Avisei a polĂ­cia, mas ninguĂ©m levou a sĂ©rio”, denunciou a mulher na Ă©poca.

JĂĄ maior de idade, Artur foi condenado a mais de 50 anos de prisĂŁo por dois latrocĂ­nios com arma de fogo, que foram cometidos em um mesmo final de semana. Morreram o gerente de loja de roupas Carlos Luiz da Silva e o vendedor de frutas Raimundo Lustosa LeĂŁo, nos dias 28 de fevereiro e 1Âș de março de 2009.

A juĂ­za que o condenou na Ă©poca foi Denise Castelo Bonfim, hoje desembargadora do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC). Na sentença da Ă©poca, ela o descreve como frio e perigoso. “A personalidade do rĂ©u Ă© de pessoa violenta e destituĂ­da de um mĂ­nimo de solidariedade, com total desprezo Ă  dignidade e Ă  vida humana”, escreveu a entĂŁo juĂ­za de primeiro grau.

Além da fuga frustrada pelo próprio Comando Vermelho, Artur Ramoile tentou escapar da prisão pelo menos outras duas vezes. Na manhã de 11 de janeiro de 2016, ele e outros sete presos serraram as grades do presídio estadual, mas foram contidos por uma equipe de agentes prisionais.

JĂĄ em 2013, Artur e um outro detento aguardavam uma audiĂȘncia na cela do FĂłrum de Rio Branco, capital do Acre, e saĂ­ram correndo algemados quando a polĂ­cia abriu as grades. Artur acabou caindo e foi recapturado.

Em uma entrevista para a TV Record em 2015, quando foi acusado de tentar matar um outro detento durante o banho de sol, batendo a cabeça da vítima contra o concreto e deixando-a em estado grave, Russo aproveitou a cùmera ligada para reclamar do sistema prisional.

“Ao contrĂĄrio do que o policial civil ali acabou de falar, o presĂ­dio nĂŁo recupera ninguĂ©m. O Estado nĂŁo se esforça para recuperar ninguĂ©m. A realidade Ă© essa, nem a nossa comida que a famĂ­lia compra eles deixam entrar. É perseguição contra preso, contra visita do preso, e ainda somos taxados de monstros por todo mundo”, reclamou.

O fazendeiro Darli Alves e o filho Darci Alves Pereira foram condenados em 1990 por matar Chico Mendes com uma escopeta. Darli foi apontado como o mandante e o filho o executor. O fazendeiro era conhecido por ser um grileiro na regiĂŁo.

Familiares de Artur dizem que os crimes cometidos por ele nĂŁo tĂȘm qualquer ligação com a condenação do avĂŽ. A mĂŁe de Artur Ă© uma das filhas de Darli.

O Iapen (Instituto de Administração PenitenciĂĄria), que administra os presĂ­dios acreanos, requisitou a correspondĂȘncia do presidiĂĄrio, na qual ele tambĂ©m denuncia torturas que seriam praticadas por agentes da PolĂ­cia Penal. A correspondĂȘncia jĂĄ foi entregue Ă  instituição.

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