Amor na linha de frente: Mulheres ucranianas enfrentam viagens perigosas para manter famĂ­lias unidas

Casais veem viagens arriscadas para åreas próximas ao front da guerra na Ucrùnia como alternativa para manter relacionamentos, ajudar os parceiros e criar memórias afetivas entre crianças e pais separados pelo conflito

Por O Globo 14/12/2024

Tudo aconteceu muito rĂĄpido. No primeiro encontro de Damina Serbyn e Roman Myronenko, eles foram a um teatro em Kiev, a capital da UcrĂąnia, e ela sussurrou no ouvido dele: “acho que me apaixonei por vocĂȘ”. Pouco depois, eles se casaram. E, logo em seguida, ele foi enviado de volta Ă  frente de batalha na guerra contra a RĂșssia. Em um curto espaço de tempo, ela passou da felicidade do encontro com alguĂ©m especial para uma vida sozinha, viajando por horas a cada duas semanas para ver o marido, vice-comandante de um batalhĂŁo de drones baseado perto da cidade de Kharkiv, no nordeste do paĂ­s.

Damina nĂŁo Ă© a Ășnica. Recentemente, ela viajou rumo a Kharkiv num trem que transportava outras mulheres que tambĂ©m estavam indo visitar seus entes queridos na linha de frente — uma jornada perigosa para uma cidade constantemente atacada por mĂ­sseis e drones. À medida que a guerra se arrasta e as forças russas avançam na UcrĂąnia, os soldados lutam com pouca esperança de serem desmobilizados em breve e retornarem para suas casas. Nesse cenĂĄrio, muitas mulheres, determinadas a manter seus relacionamentos e suas famĂ­lias unidas, fazem viagens arriscadas para ĂĄreas prĂłximas Ă  linha de frente.

Algumas viajam para cidades como Kharkiv, geralmente mais perigosas do que os locais em que vivem. Outras vĂŁo atĂ© bases na linha de frente, onde estĂŁo em risco ainda maior, e por vezes levam atĂ© mesmo crianças com elas. É o caso da jornalista Kateryna Kapustina, de 32 anos, que levou seu filho Yaroslav, de 9, para passar as fĂ©rias num vilarejo prĂłximo ao front — onde seu marido, Ihor Kapustin, de 34 anos, estĂĄ baseado. Antes da guerra, ele era mecĂąnico. Agora, precisa rebocar veĂ­culos quebrados de posiçÔes perigosas diante das forças russas, relatou ela.

— Fiquei com medo. Meu filho e Ihor são tudo o que tenho — disse ela, relembrando que, antes de passar a fazer viagens regulares, começou a sentir que a família estava se acostumando a viver separada.

Yulia Hrabovska e Volodymyr Hrabovsky, em Kharkiv, Ucrñnia, em 15 de novembro de 2024; casal tenta levar uma vida aconchegante quando ela o visita — Foto: Oksana Parafeniuk/The New York Times
Yulia Hrabovska e Volodymyr Hrabovsky, em Kharkiv, Ucrñnia, em 15 de novembro de 2024; casal tenta levar uma vida aconchegante quando ela o visita — Foto: Oksana Parafeniuk/The New York Times

Quando a dubladora Yulia Hrabovska, de 35 anos, visita o marido, Volodymyr Hrabovsky, eles costumam ficar dentro de casa e tentam ter uma vida acolhedora, deitados na cama ou assistindo a filmes juntos. Por vezes ela prepara as panquecas de banana preferidas dele, e ambos tentam imaginar que, nesses dias, não há guerra. Os dois iniciaram o relacionamento nos primeiros meses do conflito, e ela estava grávida de quatro meses quando ele foi para a linha de frente, um período que ela só consegue lembrar como sendo “dias muito difíceis”.

— Era assustador imaginar o bebĂȘ crescendo sem um pai — afirmou, ressaltando que, com o tempo, percebeu que outras mulheres estavam passando pelo mesmo. — Outras garotas conseguem lidar com isso de alguma forma, entĂŁo eu tambĂ©m conseguirei. Somos muitas.

Yulia foi professora dele em uma escola de teatro, mas nunca pensaram em iniciar um relacionamento romĂąntico atĂ© a invasĂŁo da UcrĂąnia pela RĂșssia, em fevereiro de 2022. Junto de outros amigos, eles se abrigaram nos primeiros dias de conflito na casa dos pais dela — e, um mĂȘs depois, enquanto tanques russos passavam por uma estrada prĂłxima de sua vila, ela segurou a mĂŁo dele e pensou: “por favor, Deus, que a gente consiga sobreviver. Se sobrevivermos, eu vou beijĂĄ-lo”. Ele pensava o mesmo, e, depois de sobreviverem e se beijarem, mantiveram uma relação.

‘Falta de amor e carinho’

Kharkiv, perto das linhas de batalha e repleta de soldados, tornou-se um ponto de referĂȘncia para encontros. PrĂłximo da estação de trem tem duas floriculturas cujos principais clientes sĂŁo soldados. NĂŁo muito longe da loja de flores hĂĄ um salĂŁo de beleza. Karina Semenova, 42, disse que a maior parte dos seus clientes tambĂ©m eram soldados, e que “todos sentem falta de amor e carinho”. Ela prĂłpria encontrou um parceiro que foi enviado ao front, um soldado que foi ao salĂŁo cortar o cabelo.

Casais se reĂșnem em Kharkiv, na UcrĂąnia, transformada em refĂșgio para encontros em meio ao conflito — Foto: Oksana Parafeniuk/The New York Times
Casais se reĂșnem em Kharkiv, na UcrĂąnia, transformada em refĂșgio para encontros em meio ao conflito — Foto: Oksana Parafeniuk/The New York Times

Para agradar seus maridos, algumas mulheres chegam trazendo comida. Antes da Ășltima viagem que fez para ver o esposo, um soldado baseado nos arredores da cidade de Vovchansk, a nordeste de Kharkiv, Yevheniya Dukhopelnykova, 47, passou um dia inteiro cozinhando. Ela preparou pelo menos seis pratos diferentes, incluindo patĂȘ de cogumelos, porco e pato assados e um molho de pimenta que agora Ă© adorado por toda a unidade de seu marido. Ela tambĂ©m preparou carne seca e croissants. No dia seguinte, Yevheniya fez uma viagem de oito horas de carro para ver o marido, o sargento Mykhailo Chernyk, 44.

Hanna Zaporozhchenko, 40, viajou atĂ© o front para levar ao marido, sargento Stanislav Zaporozhchenko, um presente surpresa para seu aniversĂĄrio de 38 anos. Ele correu para encontrĂĄ-la na estação de trem com um buquĂȘ de flores. A famĂ­lia tem dois filhos, de 11 e 5 anos, e ela afirmou que eles sentem falta do pai — mas que ela nĂŁo se arriscaria a levĂĄ-los junto na viagem. Ao comentar sobre seus encontros, ela reconhece que ele tem “uma vida totalmente diferente agora”, embora tambĂ©m tenha ressaltado que, quando os dois conversam, “muitas vezes ele adormece porque começa a se sentir relaxado”.

— Eu vim porque o amo. Sou sua esposa e seu apoio para a saĂșde mental.

A psicóloga Alina Otzemko mostra uma fotografia de seu marido, Vasyl Otzemko, um soldado ucraniano morto em combate, e seu filho, em Korsun-Shevchenkivskyi, na Ucrñnia — Foto: Oksana Parafeniuk/The New York Times
A psicóloga Alina Otzemko mostra uma fotografia de seu marido, Vasyl Otzemko, um soldado ucraniano morto em combate, e seu filho, em Korsun-Shevchenkivskyi, na Ucrñnia — Foto: Oksana Parafeniuk/The New York Times

As mulheres tambĂ©m dizem que estĂŁo dispostas a fazer essas viagens arriscadas porque sabem que, se nĂŁo fizerem isso, podem nunca mais ver seus maridos. É esse o entendimento da psicĂłloga Alina Otzemko, que contou ter visitado o marido, Vasyl Otzemko, nove vezes em um ano e meio. Ela sempre levava seu filho junto. Em junho, Otzemko foi morto em combate. Mas, por causa das viagens, o filho de 4 anos do casal pelo menos se lembra do pai, disse ela.

— Agora entendo que fiz tudo certo. Foi bom nĂŁo ter ouvido ninguĂ©m que tentou me dissuadir. Foi a Ășnica maneira de preservar a memĂłria que meu filho tem do pai — declarou.

Antes de seu marido ser morto, ela publicou um livro infantil para ajudar a explicar “Por que o papai não está em casa”. A psicóloga agora escreveu um novo livro que, segundo ela, a ajudou a lidar com sua perda: “Por que o papai morreu”.

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