‘NĂŁo tenho mais alma’, escreve pai de estudante de medicina morto pela PM em carta endereçada Ă  Lula

Em texto compartilhado nas redes sociais, Julio Cesar Acosta Navarro pede justiça e critica o governador TarcĂ­sio de Freitas e o secretĂĄrio de Segurança PĂșblica Guilherme Derrite; "Sinto a dor dilacerante, a angĂșstia e a raiva, de lembrar as Ășltimas imagens dele me pedindo para salvĂĄ-lo", escreveu. Leia a Ă­ntegra da carta

Por O Globo 21/12/2024

O médico Julio Cesar Acosta Navarro, pai do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, morto com um tiro disparado por um policial militar durante uma abordagem na madrugada de 20 de novembro, na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, publicou uma carta aberta ao presidente Lula (PT) em suas redes sociais. O policial responsåvel pelo disparo foi indiciado por homicídio doloso.

Marco AurĂ©lio, de 22 anos, cursava Medicina na faculdade Anhembi Morumbi. De acordo com o boletim de ocorrĂȘncia, o jovem teria golpeado a viatura em que os policiais faziam uma ronda de rotina na madrugada de quarta-feira, por volta das 3h. Em seguida, ele correu para dentro de um hotel na Rua CubatĂŁo, onde foi alcançado pelos agentes.

Trinta dias apĂłs a morte do seu filho, o mĂ©dico Julio Cesar Acosta Navarro, que tambĂ©m Ă© professor da Faculdade de Medicina da Universidade de SĂŁo Paulo (USP), divulgou uma carta direcionada ao presidente Lula, na qual pede mudanças e clama pelo fim dos casos de violĂȘncia policial em SĂŁo Paulo.

“Sinto a dor dilacerante, a angĂșstia e a raiva, de lembrar as Ășltimas imagens dele me pedindo para salvĂĄ-lo, deitado numa sala de emergĂȘncia, em choque hemorrĂĄgico, sussurrando: ‘Pai, me ajuda, pai, me ajuda
’. Hoje nĂŁo tenho vida nem essĂȘncia, nada. Um fantasma vale mais, porque ele tem alma e eu nĂŁo mais”, escreveu.

Julio Cesar relata que na madrugada em que seu filho morreu pediu aos policiais informaçÔes sobre o caso para ajudar no salvamento, mas os agentes se recusaram a compartilhar detalhes da abordagem. Ele também criticou a postura dos PMs, dizendo que eles frequentemente estavam com as mãos nas armas, como se Julio Cesar representasse uma ameaça.

O mĂ©dico critica duramente o secretĂĄrio da Segurança PĂșblica de SĂŁo Paulo, Guilherme Derrite, apontando seus antecedentes criminais e dizendo que ele teria incentivado a morte e a violĂȘncia.

Ele tambĂ©m menciona o governador TarcĂ­sio de Freitas: “Finalmente, o sr. governador TarcĂ­sio de Freitas, cĂ©lebre pela sua crueldade e desprezo pelo sofrimento de famĂ­lias, desafiando atĂ© a ONU, se burlando do pĂșblico e afirmando publicamente que nĂŁo estava ‘nem aí’, incentivando mais assassinatos pela PM sobre gente humilde.”

Leia a carta na Ă­ntegra a seguir:

Sr. Luiz InĂĄcio Lula da Silva

ExcelentĂ­ssimo Presidente da RepĂșblica Federativa do Brasil

Com o maior respeito e admiração que sempre tive pela sua trajetĂłria de vida, gostaria que vocĂȘ ouvisse as minhas palavras.

Hoje cumpre-se 30 dias apĂłs a pior tragĂ©dia que destruiu minha vida e de toda a minha pequena famĂ­lia. O assassinato do meu filho Marco AurĂ©lio, estudante de quinto ano da faculdade de medicina, cheio de saĂșde e alegria, da maneira mais cruel e covarde, pelo Estado de SĂŁo Paulo, Ă s mĂŁos de membros da PM e com a cumplicidade de toda a hierarquia superior.

Cada manhĂŁ que acordo eu nĂŁo encontro aquele meu garoto amante do futebol, da mĂșsica e cheio de carinho. Sinto a dor dilacerante, a angĂșstia e a raiva, de lembrar as Ășltimas imagens dele me pedindo para salvĂĄ-lo, deitado numa sala de emergĂȘncia, em choque hemorrĂĄgico, sussurrando: “Pai, me ajuda, pai, me ajuda…”. Hoje nĂŁo tenho vida nem essĂȘncia, nada. Um fantasma vale mais porque ele tem alma e eu nĂŁo mais. A dor levaremos a vida toda atĂ© o final da nossa existĂȘncia porque serĂĄ o desĂ­gnio dos deuses, mas a angĂșstia, a humilhação e a raiva contra os criminosos em busca da “justiça dos homens” Ă© o Ășltimo que me resta agora.

Os policiais militares Guilherme Augusto Macedo e seu comparsa Bruno Carvalho do Prado, que em maior nĂșmero, maior tamanho, treinamento militar, superprotegidos e armados com todas as armas, atiraram covardemente Ă  queima-roupa no meu filho que usava um short e um chinelo, por opção de sua personalidade.

Na sequĂȘncia daquela madrugada de terror, membros da PolĂ­cia Militar, cujo responsĂĄvel ainda Ă© o Comandante Coronel CĂĄssio AraĂșjo de Freitas, desenvolveram uma cumplicidade que, ainda com meu filho lutando pela sua sobrevivĂȘncia, divulgaram oficialmente falsidades, culpando meu filho, acusando-o de querer tirar a arma deles.

ViolĂȘncia contra pessoas pobres e atitudes racistas, como foi o caso do meu filho, foram demonstradas claramente pelos crimes sobre outras pessoas e pelo sofrimento de famĂ­lias que se somaram Ă  nossa tragĂ©dia, que agora Ă© amplamente conhecida.

Eu mesmo fui testemunha direta naquela madrugada da atitude de outros PMs em vĂĄrias oportunidades, quando eu cobrava o paradeiro do meu filho ou informaçÔes do que tinha ocorrido para poder usar isso tecnicamente no salvamento cirĂșrgico do meu filho. Me foram negadas informaçÔes, alĂ©m de que todos mostravam uma mania de pegar suas armas como se eu, baixinho, professor de paletĂł, cabelo grisalho fosse um “Rambo” ameaçador para eles.

Atitude aprendida muito bem nas academias militares com certeza. Nesse inferno de fatos, ressalta a figura do SecretĂĄrio de Segurança SP Guilherme Derrite, chefe superior da PM que, apesar de ser um oficial com antecedentes e frases incentivando a morte e violĂȘncia, paradoxal e inexplicavelmente Ă© responsĂĄvel pela segurança dos cidadĂŁos.

Ainda na sua primeira manifestação pĂșblica, apĂłs se esconder da mĂ­dia e pedir apoio ao padrinho dele, outro personagem vulgar ladrĂŁo de joias, inescrupuloso e promotor da morte de centenas de milhares de vidas pelo Covid-19, Derrite ainda definiu o trabalho dele como “o bem” e as denĂșncias e reclamaçÔes pelos crimes da PM como a minha, com esta carta, define como “o mal”. Derrite mais parece um palhaço tirado dos tempos da Inquisição.

Finalmente o Sr. Governador TarcĂ­sio de Freitas, cĂ©lebre pela sua crueldade e desprezo pelo sofrimento de famĂ­lias, desafiando atĂ© a ONU, se burlando do pĂșblico e afirmando publicamente que nĂŁo estava “nem aí” incentivando a mais assassinatos pela PM sobre gente humilde.

TarcĂ­sio, apĂłs 40 horas de pressĂŁo total de toda a mĂ­dia do paĂ­s pelo covarde crime de Marco AurĂ©lio, anunciou um lamento pĂșblico hipĂłcrita e uma promessa de punição severa aos culpados. Somente que, pelo que vi com muita dor nestes trinta longos dias de uma justiça sem tempo, os assassinos nĂŁo sendo presos, os chefes da PM dando declaraçÔes Ă  grande mĂ­dia com falsidades sobre o meu filho e outros dando risadinhas passeando em jatos particulares, TarcĂ­sio nĂŁo disse quando faria isso, porque se referia, claro, ao JuĂ­zo Final ou quando os extraterrestres invadem a Terra, esperto ele.

Apelo ao Sr. Presidente, minha Ășltima esperança para aliviar a dor da minha famĂ­lia, de outras mais e poder amanhĂŁ salvar nossos prĂłprios filhos.

Dr. Julio Cesar Acosta Navarro.

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de SĂŁo Paulo.

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