Uso de bebĂȘs reborn pode virar caso de polĂ­cia; entenda

Advogada fez alerta para os riscos jurĂ­dicos e fraudes envolvendo os bonecos hiper-realistas

Por MetrĂłpoles 15/05/2025 Ă s 18:37

Nos Ășltimos anos, os chamados bebĂȘs reborn — bonecos hiper-realistas feitos Ă  mĂŁo para se parecerem com recĂ©m-nascidos — tĂȘm ganhado cada vez mais popularidade no Brasil.

O que começou como uma vertente artĂ­stica passou a ser visto por muitos como um recurso terapĂȘutico ou mesmo uma substituição simbĂłlica de filhos.

Uso de bebĂȘs reborn pode virar caso de polĂ­cia; entenda

Uso de bebĂȘs reborn pode virar caso de polĂ­cia/Foto: Esra Bilgin/Anadolu Agency via Getty Images.

No entanto, por trĂĄs da aparĂȘncia inofensiva, hĂĄ um fenĂŽmeno que precisa ser analisado com cautela: como o uso indiscriminado desses bonecos pode impactar o ordenamento jurĂ­dico, os serviços pĂșblicos e atĂ© a formulação de polĂ­ticas sociais?

Advogada criminalista fez alerta

“NĂŁo estamos falando apenas de brinquedos. HĂĄ registros crescentes de adultos que simulam maternidade real com bebĂȘs reborn, registram os bonecos com nomes fictĂ­cios, fazem ensaios fotogrĂĄficos, realizam batizados simbĂłlicos e atĂ© solicitam licenças ou benefĂ­cios sociais. Algumas pessoas estĂŁo indo a unidades de pronto atendimento (UPAs) com os bonecos nos braços, exigindo atendimento mĂ©dico como se estivessem diante de uma criança viva, o que tem gerado perplexidade entre profissionais de saĂșde e usuĂĄrios do SUS”, diz a advogada criminalista SuĂ©llen Paulino.

Esse tipo de conduta, embora muitas vezes associada a quadros psicolĂłgicos ou lutos mal elaborados, jĂĄ estĂĄ chegando aos legisladores. Projetos de lei começam a surgir em alguns estados e municĂ­pios para proibir o atendimento de bonecos reborn em hospitais pĂșblicos, buscando proteger os recursos do sistema de saĂșde e evitar desvio de finalidade. A pergunta que se impĂ”e Ă©: onde estĂĄ o limite entre o simbĂłlico e o patolĂłgico?

Riscos jurídicos: fraude, falsidade ideológica e må-fé

Segundo Suéllen Paulino, do ponto de vista jurídico, o uso desses bonecos pode ultrapassar o campo da fantasia e adentrar a seara da ilicitude em vårias situaçÔes. Ela citou alguns:

  • Fraudes em pedidos de benefĂ­cios sociais, como Bolsa FamĂ­lia, auxĂ­lio-maternidade ou isenção de tarifas;
  • SimulaçÔes enganosas em redes sociais com finalidades de arrecadação de dinheiro sob pretexto de adoção, luto ou tratamento de “filhos” que nĂŁo existem;
  • Confecção de documentos falsos, como supostas certidĂ”es de nascimento ou carteiras de vacinação, podendo configurar falsidade ideolĂłgica (art. 299 do CĂłdigo Penal).

“AlĂ©m disso, hĂĄ a insegurança jurĂ­dica gerada quando serviços pĂșblicos sĂŁo acionados em contextos simulados, ocupando vagas e recursos que deveriam estar disponĂ­veis para cidadĂŁos reais, especialmente crianças em situação de vulnerabilidade”, completa.

Justiça e ética em debate

SuĂ©llen Paulino diz que o Direito deve se posicionar com urgĂȘncia sobre o uso desses bonecos. “O ordenamento jurĂ­dico brasileiro valoriza a autonomia da vontade e a liberdade individual. Cada pessoa Ă© livre para lidar com suas emoçÔes e afetos da maneira que entender mais adequada, inclusive com uso simbĂłlico de objetos. No entanto, o uso dos bebĂȘs reborn nĂŁo pode se transformar em um escudo para fraudes, desperdĂ­cio de recursos pĂșblicos ou dissimulaçÔes capazes de comprometer a integridade do sistema legal e social.”

A advogada esclarece que a ausĂȘncia de regulação especĂ­fica deixa margem para abusos. “É urgente que o Legislativo, a Psicologia e o Direito caminhem juntos para delimitar atĂ© onde vai o uso lĂ­cito e legĂ­timo desses bonecos e a partir de que ponto passa a haver desvio de finalidade, mĂĄ-fĂ© ou atĂ© crime.”

SuĂ©llen Paulino tambĂ©m fez questĂŁo de destacar que o debate sobre os bebĂȘs reborn nĂŁo Ă© sobre proibir ou estigmatizar quem encontra afeto neles. “Mas Ă© necessĂĄrio reconhecer que o avanço desse fenĂŽmeno exige respostas jurĂ­dicas, Ă©ticas e sociais proporcionais Ă  complexidade do tema. Precisamos garantir que a fantasia nĂŁo se sobreponha Ă  realidade — especialmente em um paĂ­s onde tantas crianças reais ainda esperam por acolhimento, assistĂȘncia e justiça”, finaliza.

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