Painel Brasil — com José Américo Silva
Lupa Política
O país atravessa uma semana decisiva, com tensões comerciais intensas, aperto monetário e movimentações diplomáticas que redefinem a política econômica e a diplomacia nacional — um momento em que o equilíbrio entre estabilidade e pressão externa será testado.
Tarifaço dos EUA e resposta emergencial brasileira
A imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, em vigor desde 1º de agosto, afetou setores-chave como café, carne, papel e resinas — este último já acumula dezenas de contratos cancelados desde julho. O governo anuncia amanhã (12) um pacote de medidas emergenciais, incluindo crédito subsidiado via BNDES, reforço ao Fundo de Garantia à Exportação (FGE) e incentivos para novos mercados. Estima-se que mais de 10 mil empresas sejam beneficiadas, com atenção especial à indústria de base, metalurgia e agronegócio. Paralelamente, técnicos do Itamaraty trabalham na atualização de acordos comerciais, com prioridade para o Mercosul-UE e o avanço de tratativas com países do Sudeste Asiático. A estratégia busca reduzir a dependência do mercado norte-americano e proteger empregos em cadeias exportadoras estratégicas.
A diplomacia conturbada: OMC e cancelamento de reunião
O Brasil formalizou queixa na Organização Mundial do Comércio contra as sobretaxas impostas pelos Estados Unidos, abrindo prazo de 60 dias para negociações. Em gesto de endurecimento, o ministro Fernando Haddad cancelou reunião virtual com o secretário do Tesouro norte-americano, acusando “pseudo-brasileiros” de atuarem contra os interesses nacionais em Washington. O presidente Lula reforçou que não pretende contatar Donald Trump enquanto o impasse não for resolvido. Diplomatas confirmam que a agenda comercial será redirecionada para consolidar mercados alternativos, como Índia, Indonésia e Vietnã, e acelerar o Mercosul-UE. Essa postura indica uma mudança de eixo na política externa brasileira, com menos tolerância a pressões unilaterais e maior disposição para disputar espaço em blocos econômicos multipolares.
Inflação em ligeira trégua, mas ainda acima da meta
A prévia da inflação de julho apontou alta de 0,37%, frente aos 0,24% de junho, puxada principalmente pelo aumento na conta de luz e combustíveis, enquanto alimentos e bebidas registraram leve queda. No acumulado de 12 meses, o IPCA recuou para 5,33%, ainda bem acima da meta oficial de 3% (com tolerância de 1,5 ponto). Analistas do JP Morgan destacam que o núcleo de serviços caiu de 6,3% para 6%, sugerindo uma desaceleração gradual. A “run rate” dos últimos três meses projeta inflação mais próxima do centro da meta, caso não haja novos choques. Apesar disso, com a Selic em 15% e um cenário externo volátil, o Banco Central mantém postura conservadora, sinalizando que cortes na taxa básica só devem ocorrer no primeiro trimestre de 2026.
Impacto da alta nos juros começa a aparecer
O secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, confirmou que a política monetária restritiva já mostra efeitos na economia real, especialmente em setores sensíveis a crédito, como construção civil e indústria automotiva. Indicadores de confiança empresarial começaram a recuar, enquanto índices de inadimplência mostram leve alta. O governo, no entanto, mantém a previsão de crescimento do PIB em torno de 2,5% para 2025, apoiado em investimentos públicos e obras de infraestrutura. O Banco Central interrompeu o ciclo de aumentos, preferindo avaliar o impacto acumulado da alta. O consenso no mercado é de que a Selic permanecerá em patamar elevado por pelo menos mais seis meses, o que exigirá fôlego das empresas e atenção do governo para evitar desaquecimento brusco.
Crise institucional e consequências políticas latentes
A invasão das Mesas Diretoras do Congresso por parlamentares bolsonaristas, em protesto contra a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, paralisou por dois dias os trabalhos legislativos. A ação gerou repúdio das principais lideranças da Câmara e do Senado, que prometem responsabilizar os envolvidos. A medida foi considerada um ataque frontal ao funcionamento democrático e reforçou o clima de tensão entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Aliados de Bolsonaro defendem que o ato foi legítimo, enquanto opositores falam em “golpe branco”. O episódio deve ter reflexos nas próximas pautas de votação, com possibilidade de endurecimento no diálogo entre os poderes.
Cenário externo: tensão global e real valorizado
O real acumula valorização em 2025, aliviando parte da pressão inflacionária, mas tornando produtos brasileiros menos competitivos no exterior. O movimento é impulsionado pela entrada de capital estrangeiro atraído por juros altos e estabilidade fiscal. Contudo, para o agronegócio e setores exportadores, a taxa de câmbio mais apreciada representa queda nas margens de lucro. Em meio à disputa tarifária, Donald Trump anunciou que o ouro brasileiro não será taxado, medida de impacto econômico limitado, mas com valor simbólico na narrativa comercial norte-americana. O episódio expôs divergências internas na política protecionista dos EUA e reforçou a percepção de que há espaço para negociação.
BRICS avança na pauta da moeda comum
A proposta de uma moeda comum para transações entre países do BRICS ganhou novo fôlego, com apoio explícito de Rússia, China e Brasil. A medida visa reduzir a dependência do dólar e blindar economias emergentes contra sanções unilaterais. O Brasil defende um modelo gradual, começando por compensações comerciais em moeda local e ampliando para setores estratégicos, como energia e defesa. Especialistas alertam que a iniciativa exigirá forte coordenação política e integração financeira, mas pode representar mudança estrutural no comércio internacional nos próximos anos.
Crise hídrica e incêndios pressionam agenda ambiental
Secas prolongadas e incêndios de grandes proporções na Amazônia e no Pantanal aumentaram a pressão internacional sobre o Brasil. Organizações ambientais cobram maior fiscalização e investimentos em prevenção, enquanto governadores da região Norte solicitam recursos federais emergenciais. O governo federal promete anunciar um plano integrado de combate a incêndios, com uso ampliado de aeronaves, brigadas estaduais e forças armadas. Além do impacto ambiental, especialistas alertam para riscos à produção agropecuária e ao abastecimento de água em áreas urbanas.
Estatais sob pressão: Correios e Petrobras no radar
Os Correios registraram prejuízo de R$ 1,7 bilhão no primeiro trimestre, acumulando 11 trimestres consecutivos no vermelho. A crise motivou a renúncia do presidente da estatal, Fabiano Silva, e reacendeu o debate sobre privatização parcial. Já a Petrobras enfrenta críticas por manter preços de combustíveis alinhados ao mercado internacional em plena desaceleração econômica. O governo avalia formas de conciliar o interesse fiscal com a preservação do poder de compra da população.
Agosto Verde e a prioridade à primeira infância
O mês é dedicado à conscientização sobre a importância da primeira infância, fase que vai do nascimento aos 6 anos de idade. Pesquisas indicam que investimentos em saúde, educação e proteção social nessa etapa têm retorno multiplicado para a sociedade. A campanha “Agosto Verde” busca mobilizar gestores públicos e a população para reforçar políticas estruturais, incluindo expansão de creches, programas de nutrição e acompanhamento familiar. O Ministério do Desenvolvimento Social promete ampliar parcerias com municípios para reduzir desigualdades na base.
Panorama Esperado
O Brasil enfrenta simultaneamente uma crise comercial com os Estados Unidos, pressões climáticas e ambientais, tensões institucionais internas e desafios econômicos diante de juros altos. O governo aposta em ações emergenciais e articulações internacionais para mitigar impactos, mas o sucesso dependerá da capacidade de manter o diálogo interno e avançar em reformas. No horizonte, espera-se um cenário de volatilidade, com disputas políticas acirradas e impacto direto na economia real. As próximas semanas serão decisivas para definir se o país conseguirá transformar a pressão em oportunidade ou se verá o agravamento de suas fragilidades.

