HĂĄ mais de trĂȘs meses, mĂŁes de crianças com deficiĂȘncia vĂtimas do vĂrus Zika comemoraram a derrubada do Veto nÂș 2/2025, que havia bloqueado o avanço de um direito histĂłrico. O veto impedia a sanção do Projeto de Lei nÂș 6.064/2023 (nÂș 3.974/2015, na CĂąmara dos Deputados), que garante indenização e pensĂŁo vitalĂcia Ă s pessoas com deficiĂȘncia permanente decorrente da sĂndrome congĂȘnita associada Ă infecção pelo Zika vĂrus.
Graças Ă mobilização de mĂŁes, movimentos sociais e parlamentares, o Congresso derrubou o veto em 17 de junho de 2025. Em seguida, foi promulgada a Lei 15.156/2025, em 1Âș de julho de 2025, estabelecendo indenização de R$ 50 mil em parcela Ășnica e uma pensĂŁo mensal no valor do teto do Regime Geral da PrevidĂȘncia Social (cerca de R$ 8 mil) para cada criança afetada.

DecisĂŁo do STF autorizou pagamento imediato, mas famĂlias ainda aguardam a liberação dos recursos/Foto: Ilustrativa
Apesar da vitĂłria, o alĂvio virou frustração. AtĂ© hoje, o governo federal nĂŁo regulamentou nem iniciou os pagamentos. O descaso levou o tema ao Supremo Tribunal Federal (STF).
STF autoriza pagamento imediato
No dia 12 de agosto de 2025, o ministro FlĂĄvio Dino, em decisĂŁo liminar no Mandado de Segurança (MS 40297), autorizou o governo federal a efetuar os pagamentos sem necessidade de cumprir previamente as regras fiscais, como a Lei de Responsabilidade Fiscal ou a apresentação de fonte de custeio. A determinação reconhece o carĂĄter de urgĂȘncia e excepcionalidade do caso, mas impĂ”e prazo atĂ© 31 de março de 2026 para adequação formal Ă s regras orçamentĂĄrias.
Segundo dados oficiais, cerca de trĂȘs mil crianças em todo o paĂs se enquadram nos critĂ©rios do benefĂcio.
Voz das mĂŁes
A luta das mĂŁes nĂŁo parou apĂłs a sanção da lei. Pelo contrĂĄrio, ganhou novos contornos diante da demora na execução. A ativista Maria Alves, mĂŁe de uma criança com sĂndrome congĂȘnita do Zika, diretora nacional da Rede ObservatĂłrio BPC, desabafou em mensagem enviada Ă nossa redação.
âMinha filha nasceu com as graves consequĂȘncias do Zika vĂrus. Desde entĂŁo, nossa vida tem sido uma luta diĂĄria em busca de tratamentos, terapias e cirurgias que ela precisa para ter dignidade e qualidade de vida. Cada pequeno avanço dela Ă© fruto de esforço, fĂ© e perseverança, mas tambĂ©m de uma realidade dura: a falta de apoio efetivo do Estado.â
Maria relembrou o caminho legislativo até aqui: a derrubada do veto, a promulgação da lei e a decisão judicial. Mas destacou que nada foi colocado em pråtica.
âA lei existe, a ordem jĂĄ foi dada, e as famĂlias continuam Ă espera. Enquanto isso, nossos filhos sofrem. Desde a derrubada do veto, jĂĄ perdemos 14 crianças. Quatorze vidas que poderiam ter tido mais chances se houvesse compromisso real e urgĂȘncia no cumprimento da lei.â
Uma questĂŁo de vida ou morte
O atraso na regulamentação nĂŁo Ă© mero detalhe burocrĂĄtico. Ele representa a diferença entre o acesso ou nĂŁo a tratamentos, cirurgias e terapias essenciais. Para muitas famĂlias, o benefĂcio nĂŁo Ă© apenas um direito: Ă© a Ășnica forma de garantir dignidade e sobrevivĂȘncia a crianças em condiçÔes graves.
âEu nĂŁo peço favores. Exijo que seja cumprida a lei jĂĄ publicada, jĂĄ reconhecida e jĂĄ ordenada em carĂĄter de urgĂȘncia. Cada dia de demora custa vidas. Minha filha, assim como tantas outras, nĂŁo pode mais esperarâ, concluiu Maria Alves.
O que diz o governo
O presidente do INSS declarou recentemente que os pagamentos devem começar em setembro. Até o momento, porém, essa promessa não foi confirmada em cronogramas oficiais.
Enquanto isso, milhares de famĂlias aguardam com ansiedade o cumprimento da lei que jĂĄ estĂĄ em vigor. A expectativa Ă© de que, com a pressĂŁo social e a decisĂŁo do STF, o governo Lula finalmente dĂȘ inĂcio aos repasses.
Fontes: Portal do STF, Congresso Nacional, CĂąmara dos Deputados, relatos de familiares.
