Panorama Brasil
A semana começou com um estalo nas ruas — manifestações intensas contra a PEC da blindagem e a PEC da anistia que deixaram claro que parte da sociedade recusa a cultura do perdĂŁo ampliado e a blindagem institucional para parlamentares. Foi um sinal de alerta para BrasĂlia: o eleitor está disposto a incomodar, e nĂŁo aceita recuos fáceis. No mesmo compasso, em Nova Iorque, o presidente Lula subiu Ă tribuna da ONU para defender a democracia brasileira e denunciar interferĂŞncias externas. Sua fala soou como resposta direta Ă s recentes ofensivas do governo Trump, e ganhou ainda mais contorno quando ele se encontrou casualmente com o ex-presidente americano – um momento que o prĂłprio Lula admitiu tĂŞ-lo “surpreendido” pela quĂmica gerada.
O governo agora articulará um encontro formal com Trump já para a prĂłxima semana, numa tentativa de redefinir rumos nas relações Brasil-EUA e neutralizar sanções e tarifas unilaterais impostas por Washington. A estratĂ©gia Ă© clara: trazer o pragmatismo ao centro e mostrar que o Brasil nĂŁo irá ceder em sua soberania. Lula deixou explĂcito que nĂŁo haverá veto aos temas em mesa, “a nĂŁo ser a soberania e a democracia brasileiras”.
Enquanto isso, no Congresso, as engrenagens polĂticas giram em alta tensĂŁo. No Senado, a PEC da blindagem foi rejeitada na CCJ — parece um enterro formal, com parecer contrário aprovado unanimemente. Essa derrota simbĂłlica confere fĂ´lego institucional Ă Casa Alta, colocando-lhe uma aura de defesa da decĂŞncia parlamentar. Segundo analistas, o Senado “ganha força”, ao passo que a Câmara se vĂŞ atirada em fragilidade.
Na Câmara, porém, a PEC da anistia ressurge sob novo nome: PEC da dosimetria. É um esforço de recauchutar o projeto que caiu em descrédito público. Mas esse renome não apaga o risco de que se trate da mesma proposta com roupagem menos agressiva.
O relator soltou uma declaração explosiva: condicionou a aprovação de pautas de interesse nacional — como a redução do imposto de renda para quem ganha atĂ© R$ 5 mil (e reflexo atĂ© R$ 7,5 mil) — Ă votação da PEC da dosimetria. O estrondo foi imediato, gerando ruĂdos no comando da Câmara e no Senado. Hugo Mota, presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, presidente do Senado, mostraram irritação — o tipo de choque entre poderes que revela o quanto a polĂtica institucional está tensionada.
NĂŁo bastasse, a Mesa Diretora da Câmara negou que o deputado Eduardo Bolsonaro, residindo fora do paĂs, possa assumir a liderança da minoria — e ainda autorizou que seu processo de cassação siga para a CCJ. Esse movimento expõe um dilema: representar a diversidade parlamentar ou justificar excessos ideolĂłgicos? Eduardo reagiu com crĂticas duras, acusando senadores de se renderem ao “medo politiqueiro”. O episĂłdio revela como BrasĂlia está servindo de palco para disputas de estratĂ©gia, imagem e poder simbĂłlico, nĂŁo apenas de conteĂşdo legislativo.
Esse cenário mostra que BrasĂlia se tornou um terreno de contrastes: o Senado rejeita projetos de autoproteção polĂtica; a Câmara tenta reinventar a anistia sob novo rĂłtulo; o Executivo busca reatar laços internacionais diante de hostilidades externas e internas. Em meio a isso, a população parece retomar protagonismo — e as manifestações desta semana sĂŁo lembretes poderosos de que os governantes nĂŁo podem ignorá-la.
No plano externo, a crise Brasil-EUA adquire contornos explosivos. Desde que Trump impôs tarifas de até 50 % sobre produtos brasileiros, alegando “déficit comercial” — discurso que o Brasil rebate por manter superávil nos últimos 15 anos —, o tema virou terreno de guerra diplomática. A imposição de sanções, cancelamentos de vistos e retórica intervencionista de Washington tornaram-se pontos de tensão que o Brasil não pode ignorar. As palavras de Lula — “tudo pode ser resolvido quando duas pessoas conversam” — soam como um desafio direto ao episódio de tutela que alguns gostariam de ver sobre a Justiça brasileira.
NĂŁo se pode esquecer que as ruas arengaram primeiro. Se o Legislativo teme o eleitorado, o Executivo usa a diplomacia como escape, e o Judiciário (fora do foco desta coluna) observa atento. BrasĂlia está no ponto de interrogação. E a promessa de reuniĂŁo entre Lula e Trump para a prĂłxima semana virou uma espĂ©cie de nexo entre crises domĂ©sticas e rupturas globais: será palco para negociações de tarifas, pacificação de relações e, sobretudo, tentativa de brandir credibilidade diante de um Congresso conturbado.
Se BrasĂlia saiu da letargia, Ă© bom que fique claro: quem acha que a semana polĂtica aqui termina numa nota diplomática está subestimando o jogo interno. O poder nĂŁo dorme, e quem acha que a polĂtica Ă© um espetáculo distante comete erro: ela corre nas ruas, nas decisões de uma comissĂŁo, na articulação de um lĂder e nos bastidores de uma eleição que já começou.


