O boi fatiado e a verdade sobre o julgamento de Jair Bolsonaro

A Polícia Federal, com uma atuação consistente e tecnicamente rigorosa, apresentou provas sólidas contra todos os acusados.

Ontem, 11 de setembro, o Supremo Tribunal Federal encerrou o julgamento da chamada trama golpista e condenou Jair Bolsonaro, junto a outros sete réus, a diferentes penas. O maior destaque foi justamente a sentença do ex-presidente. Especulava-se que ultrapassaria os 40 anos, mas acabou fixada em 27 anos de prisão. Pela primeira vez na história do país, militares foram levados ao banco dos réus para responder por uma conspiração golpista — um marco institucional de enorme relevância.

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Como Bolsonaro acompanhou sua condenação a 27 anos de prisão pelo STF/Foto: Reprodução

O desfecho do julgamento já era esperado. A Polícia Federal, com uma atuação consistente e tecnicamente rigorosa, apresentou provas sólidas contra todos os acusados. Dessa forma, aqueles que afirmam que não existem evidências, na prática, acusam a própria instituição de ser uma polícia política, de fabricar provas ou mesmo de produzir falsos elementos de acusação. Essa narrativa, além de insustentável, tenta minar a credibilidade de uma das principais instituições do Estado brasileiro. Cabe à Polícia Federal responder a essas insinuações, pois negar a existência de provas é, em essência, acusar diretamente a corporação de fraude.

A partir de agora, é previsível que os defensores de Bolsonaro e dos demais condenados insistam em tentar desconstruir a legitimidade das provas apresentadas. Essa estratégia narrativa busca reescrever os fatos já reconhecidos pelo Supremo, mas dificilmente terá êxito diante da consistência dos autos.

Outro ponto relevante foi o voto do ministro Luiz Fux. Seu posicionamento destoou completamente de seu histórico e surpreendeu pelo conteúdo. Além de contradizer de forma frontal suas próprias posições anteriores, o voto acabou por isentar os acusados e transferir a responsabilidade ao delator — justamente a fonte de provas verificadas e validadas pela Polícia Federal. A decisão causou perplexidade, sendo comparada à parábola do “boi fatiado”: o boi é acusado de destruição, mas ao ser dividido em partes, nenhuma delas pode responder ao interrogatório. A metáfora ilustra bem a inconsistência do voto de Fux, que, ao fragmentar os elementos de prova, tornou-os inoperantes.

O julgamento também trouxe reflexos internacionais. Estima-se que as manobras de Eduardo Bolsonaro, atualmente nos Estados Unidos, tenham causado prejuízos bilionários ao Brasil. Na tentativa de interferir no processo, o deputado buscou sanções contra o país, estimulando tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e até a aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo. Nada disso, porém, produziu resultados práticos. Ao contrário: reforçou o discurso de defesa da soberania nacional e acabou por revigorar politicamente o presidente Lula.

É importante frisar que, antes das medidas impostas pelo governo de Donald Trump, Lula enfrentava um período de baixa popularidade e risco de esvaziamento político. No entanto, ao assumir a defesa firme da soberania brasileira diante das sanções, conseguiu reverter o cenário. Não apenas recuperou apoio, como passou a liderar todos os cenários de pesquisa eleitoral para o próximo ano, transformando um momento de crise em combustível para sua campanha à reeleição. O julgamento de Bolsonaro e as tarifas autoritárias impostas pelo governo do supremacista norte-americano Donald Trump se converteram em dados favoráveis para Lula, permitindo-lhe dar a volta por cima.

Outro aspecto que merece destaque é o impacto econômico direto das tarifas norte-americanas. Os setores mais atingidos foram justamente aqueles que apoiaram Jair Bolsonaro e até financiaram a trama golpista. Essa consequência expõe a ironia do processo: os mesmos grupos que trabalharam para enfraquecer a democracia acabaram arcando com os maiores prejuízos financeiros.

A partir de agora, é provável que o governo norte-americano continue tentando, de maneira direta ou indireta, atuar para livrar Bolsonaro da prisão. Os Estados Unidos enxergam nele um aliado estratégico para manter sua influência política e econômica sobre o Brasil. Esse movimento, entretanto, já foi amplamente percebido pela sociedade brasileira, que começa a associar tais ingerências ao prejuízo direto que sofre em sua vida cotidiana.

O julgamento de Jair Bolsonaro, portanto, não se restringe ao aspecto jurídico. Ele revela uma disputa mais ampla: entre a soberania nacional e as pressões externas, entre a verdade das provas e as narrativas artificiais que tentam desacreditá-las. Ao fim, a lição do “boi fatiado” não está apenas no voto de um ministro, mas no esforço constante de fragmentar a realidade para que ela se torne inofensiva. E é justamente contra isso que o Brasil precisa estar atento.

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