A política nacional vive um momento de tensão acelerada. O Congresso esteve mobilizado esta semana por dois temas polêmicos que avançam apesar de forte oposição social: a PEC da blindagem e o PL da anistia (que visa beneficiar quem participou dos atos golpistas). Ambos arrastam debates sobre poder, memória institucional e responsabilidade — temas essenciais, sem dúvida. Mas o risco é que, em meio a eles, se esqueçam as urgências que realmente afetam o cotidiano da imensa maioria do país.

Câmara dos Deputados no dia de votação da PEC da Blindagem | Foto: Kayo Magalhães, Câmara dos Deputados
Os dados mais recentes mostram que o desemprego no Brasil está em queda sustentada: no segundo trimestre de 2025, a taxa de desocupação ficou em 5,8%, a menor desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. Também houve diminuição do número de desalentados — pessoas que gostariam de trabalhar, mas desistem de buscar emprego. Esses resultados são positivos, mostram uma melhora no mercado de trabalho. Mas por si só não resolvem desafios estruturais: muitos dos empregos criados são precários, com baixa remuneração, informalidade e pouca oferta de benefícios. E, mais importante, mesmo com a queda do desemprego, o poder de compra do trabalhador segue corroído pela inflação — especialmente de alimentos, combustíveis e energia.
É por isso que a proposta do PL 1.087/2025, que prevê isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000 por mês, é uma pauta que merece ser destacada como urgente. O projeto deve beneficiar cerca de 10 milhões de trabalhadores com isenção total, além de outros 16 milhões com redução parcial de alíquotas. Para compensar a perda de arrecadação, estimada em R$ 25,8 bilhões ao ano, prevê sobretaxa para rendas acima de R$ 600 mil anuais, chegando a 10% para quem ultrapassar R$ 1,2 milhão. Um gesto de justiça fiscal que tem impacto direto no bolso de quem mais precisa.
Enquanto isso, a PEC da blindagem — que tem por objetivo estender proteções institucionais, com implicações de foro ou de investigação — e o PL da anistia para participantes dos atos golpistas chamam atenção, mobilizam articulações, divisões e protestos. São iniciativas que têm forte apelo político para parcelas específicas, mas para o conjunto da população soam como símbolos de prioridades invertidas.
A semana, porém, termina com um fato novo nos bastidores: o presidente da Câmara, deputado Hugo Mota, indicou Paulinho da Força (Solidariedade-SP) para relatar o PL da Anistia. O relator já antecipou que uma “anistia ampla, geral e irrestrita” é impossível, apelidando o texto de “PL da Dosimetria”. A ideia é apresentar um relatório que trate da dosagem e da duração das penas, mas não da exclusão total de responsabilidades daqueles que participaram. É um movimento que sinaliza a disposição de construir um texto menos radical e que, ao menos em tese, responde às críticas da sociedade.
Mesmo assim, a sensação que fica é de que o Congresso tem se dedicado mais a disputas de bastidores do que às demandas urgentes do país real. Enquanto parlamentares discutem blindagens e anistias, milhões de brasileiros aguardam medidas capazes de reduzir a desigualdade, melhorar os serviços de saúde e educação e aliviar a carga tributária sobre salários. O Brasil precisa de pacificação, mas não de conchavos; precisa de soluções para os problemas econômicos e sociais, e não de fórmulas que protegem grupos específicos.
Se o Senado e a Câmara querem mostrar que representam a população, deveriam priorizar a votação do projeto que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda e outras medidas que tocam diretamente a vida de quem mais sofre com o custo de vida. É isso que pode devolver confiança à política e ao futuro do país. Porque, no fim das contas, o parlamento existe para servir ao Brasil — e não para que o Brasil sirva a interesses particulares.
