Uma mulher que deu “match” com o predador Christopher Harkins no aplicativo de relacionamentos Tinder diz ter sido alvo de ameaças de morte e abusos que destruĂram sua saĂşde mental por anos. Isso tudo apĂłs passar apenas 20 minutos em sua companhia.
Falando pela primeira vez sobre o encontro que teve com o notĂłrio golpista e estuprador em 2018, Nadia contou que o assĂ©dio começou depois que encerrou o encontro mais cedo por perceber “sinais de alerta”.
A massoterapeuta esportiva está entre as cerca de seis mulheres que relataram suas experiĂŞncias angustiantes, e muitas vezes bizarras, com um dos golpistas românticos mais prolĂficos da EscĂłcia no novo podcast da BBC Disclosure: Matched with a Predator (Dando Match com um Predador, em tradução livre).

A investigação da BBC revelou que 11 mulheres tentaram denunciar Harkins Ă PolĂcia da EscĂłcia já em 2012.
Apesar das acusações de agressões fĂsicas, fraudes, ameaças e abusos, Harkins sĂł passou a ser investigado pela polĂcia no fim de 2019.
A PolĂcia da EscĂłcia afirmou que as denĂşncias anteriores estavam “principalmente relacionadas Ă questĂŁo financeira” e foram tratadas de forma isolada — algo que a corporação diz que “espera que nĂŁo se repita hoje”.
Harkins passou quase uma década cometendo crimes contra mulheres que conheceu pela internet na Escócia e em Londres, antes de ser preso em 2024.
Nadia acredita que ele deveria ter sido detido muito antes.
Ela está entre as vĂtimas que pedem que a PolĂcia da EscĂłcia peça desculpas Ă s mulheres que tentaram denunciá-lo
Nadia, hoje com 34 anos, e Harkins, 38, deram “match” no Tinder há sete anos.
Depois de algumas semanas trocando mensagens, decidiram sair para jantar em Glasgow, cidade da EscĂłcia.
Para Nadia, o primeiro sinal de alerta surgiu quando chegou para buscá-lo em seu apartamento em Cumbernauld.
Ele abriu a porta vestindo calça de moletom e camiseta regata, dizendo que estava cansado demais para sair. Sugeriu que ficassem em casa e pedissem comida por aplicativo.
“Foi aĂ que a situação começou a ficar bizarra”, contou Nadia.
“Entrei. O lugar estava vazio. Sem mĂłveis. A sala nĂŁo tinha nada alĂ©m de uma TV apoiada em algumas caixas.”
Harkins se ofereceu para preparar uma dose de vodca para Nadia. Quando ela recusou a bebida alcoĂłlica e serviu para si uma Coca-Cola diet, diz que o clima mudou.
“Foi como se ele tivesse uma espĂ©cie de surto interno”, contou.
“Ele me olhou como quem diz: ‘Quem vocĂŞ pensa que Ă©? Por que está se servindo?'”
“Fiquei um pouco nervosa e enchi o copo atĂ© a borda. Quando me virei, acabei derramando a Coca-Cola.”
“O olhar dele era insano. Ele disse algo como: ‘VocĂŞ Ă© tĂŁo desastrada, nĂŁo respeita minha casa. VocĂŞ Ă© uma palhaça.'”
“Lembro de pensar: ‘VocĂŞ sĂł pode estar brincando.’ Era piso laminado.”
“Falei: ‘Olha, eu vou embora.’ Ele apontou para a porta e começou a xingar.”
Nadia contou: “Fiquei apavorada. Achei que ele fosse me seguir. Entrei no carro, tranquei as portas e foi isso.”
“Pensei que tudo terminaria ali, mas sĂł piorou. É difĂcil acreditar que minha vida foi tĂŁo afetada por uma interação de apenas 20 minutos com aquele homem.”
A rejeição parece ter sido um gatilho para Harkins, que começou a bombardear Nadia com ligações e mensagens assim que ela saiu.
A primeira mensagem dizia: “Como alguĂ©m como vocĂŞ tem a audácia de sair de um encontro comigo?”
Com o passar das horas, a situação se agravou. Segundo Nadia, Harkins ameaçou “incendiar” sua casa com gasolina, matá-la e agredir seu pai.
Ele também a insultou repetidamente, atacando sua aparência.
O impacto sobre a autoestima de Nadia foi devastador, algo que ela vinha tentando reconstruir depois de um perĂodo difĂcil em sua vida.
“Recebi mensagens dizendo que eu era uma vaca gorda”, contou.
“Que era uma ‘catfish’ (farsa), que parecia um porco, que usava maquiagem demais. Isso continuou durante toda a noite. Chorei tanto que fiquei com dor de cabeça. Ă€s seis da manhĂŁ, ele ainda me mandava ofensas.”
“Lembro-me de me olhar no espelho e sentir vergonha de mim mesma.”
“Ele sabia que eu tinha emagrecido e que estava indo Ă academia. Quando achei que estava no meu melhor momento, ele simplesmente destruiu tudo.”

No dia seguinte ao encontro, Nadia denunciou as ameaças e os abusos Ă PolĂcia da EscĂłcia. Ela tambĂ©m apresentou uma gravação de uma ligação feita por Harkins.
Nela, Ă© possĂvel ouvi-lo dizendo que iria atĂ© a casa do pai de Nadia, arrastá-lo para fora e “dar uma surra” nele.
“Disseram que nĂŁo podiam fazer nada por mim”, contou Nadia. “Falaram que nĂŁo havia ameaça direta e que, se e quando ele fizesse algo, era para eu ligar de volta.”
“NinguĂ©m colheu meu depoimento. NĂŁo quiseram me ajudar. Eu gritava, desesperada: ‘NĂŁo posso passar por isso, vocĂŞs nĂŁo sabem do que ele Ă© capaz, ele está me ameaçando.'”
Nadia afirmou: “Se tivessem feito algo naquela Ă©poca, muita coisa poderia ter sido evitada para as meninas que vieram depois de mim.”
Harkins continuou com o assédio muito tempo depois do encontro. Nadia bloqueou seu número, mas mais de um ano depois ele ainda a importunava, entrando em contato com pessoas conhecidas dela nas redes sociais.
Ela disse: “O estado mental em que ele me deixou… Se eu nĂŁo tivesse minha filha, eu teria acabado com a minha vida”, disse.

Harkins cumpre atualmente uma pena de 12 anos de prisĂŁo, apĂłs ser condenado por 19 crimes contra 10 mulheres, incluindo violĂŞncia fĂsica e sexual.
Ele foi inicialmente acusado de comportamento ameaçador e abusivo contra Nadia e de fazer ameaças Ă famĂlia dela.
Como parte de um acordo judicial, a Promotoria aceitou sua declaração de inocência nesse caso, e Harkins se declarou culpado por ter roubado mais de £214 mil (cerca de R$ 1,5 milhão) de mulheres por meio de golpes de viagem, esquemas falsos de investimento e uso indevido de suas identidades para contrair empréstimos bancários.
O que finalmente levou a PolĂcia da EscĂłcia a abrir uma investigação foi o apelo de uma das vĂtimas Ă imprensa, numa tentativa desesperada de expor Harkins e proteger outras mulheres.
Ela tambĂ©m havia sido ignorada pela polĂcia depois de ser enganada por ele em um golpe de viagem no valor de ÂŁ3.247 (aproximadamente R$ 23 mil).
Crédito,Police Scotland
A histĂłria dela foi publicada em outubro de 2019.
A dimensĂŁo dos crimes de Harkins logo ficou evidente, e a polĂcia abriu uma investigação formal.
Nadia e outras mulheres que haviam feito denĂşncias anteriores foram novamente procuradas e, dessa vez, convidadas a prestar depoimento.
Harkins foi julgado em 2024.
Ao ler o testemunho de uma mulher que havia sido estuprada por Harkins, Nadia teve uma constatação devastadora, o estupro ocorreu dois meses depois do encontro dela com ele.
“Aquela moça poderia ter sido totalmente salva”, disse.
“Ele poderia ter sido preso, e ela nunca teria tido contato com ele. HorrĂvel. É sĂł o que posso dizer sobre isso. É repugnante.”

A investigação da BBC identificou novas suspeitas de fraude cometidas por Harkins, no valor de quase £70 mil (cerca de R$ 480 mil).
E apurou que ele teria feito pelo menos 30 vĂtimas.
A reportagem enviou uma carta a Harkins na prisão para pedir um comentário sobre as acusações, mas ele não respondeu.
A inspetora-chefe Lyndsay Laird, responsável pela investigação da PolĂcia da EscĂłcia sobre o caso, afirmou que Ă© difĂcil explicar por que as denĂşncias anteriores nĂŁo foram investigadas.
“Cada uma foi registrada em momentos diferentes, entĂŁo nĂŁo chegaram juntas, foram apresentadas em diferentes divisões da PolĂcia da EscĂłcia”, disse.
“Na Ă©poca, nĂŁo havia relatos de abuso fĂsico ou sexual feito Ă polĂcia. As denĂşncias estavam principalmente relacionadas a questões financeiras e, quando tratadas isoladamente, acabaram sendo consideradas investigações cĂveis.”
“Acho que podemos afirmar com segurança que o policiamento evoluiu muito desde que esses primeiros relatos foram recebidos.”
Resultado judicial favorável
Várias mulheres contaram Ă BBC que denunciaram agressões fĂsicas e condutas sexuais inadequadas anos antes de a polĂcia abrir a investigação.
Questionada se a PolĂcia da EscĂłcia pediria desculpas Ă s vĂtimas que tentaram denunciar Harkins, a inspetora-chefe Lyndsay Laird respondeu: “Acho que essa Ă© uma pergunta muito difĂcil de responder. Acho que agora há um resultado judicial bem-sucedido, baseado na investigação que foi conduzida.”
Laird concluiu: “Com todas as medidas que implementamos desde entĂŁo, espero que essa experiĂŞncia nĂŁo se repita hoje”.
Em resposta a esses comentários, Nadia disse: “Eu sei que eles realmente se esforçaram quando decidiram fazer algo a respeito, mas deveriam ter feito algo antes.”
“Ele fazia isso há anos. Poderia ter sido evitado. Eles deveriam pedir desculpas. Poderiam tĂŞ-lo parado.”
Harkins foi preso no ano passado, quase cinco anos depois de sua primeira detenção. Foi condenado com base nos depoimentos de dez mulheres.
Nadia recebeu uma ligação informando o resultado do julgamento. “Aquelas mulheres conseguiram muito mais do que se imagina”, disse.
“Agora, todas as pessoas que poderiam cruzar o caminho dele no futuro nĂŁo vĂŁo mais precisar. O que elas fizeram foi incrĂvel, foi enorme.”
Mãe de duas filhas, Nadia conseguiu reconstruir a vida e a autoconfiança, mas a experiência deixou marcas.
“Hoje estou muito bem”, afirmou. “Sou uma pessoa totalmente diferente, muito mais confiante. NĂŁo tenho medo de falar o que penso e nunca mais vou ignorar um sinal de alerta.”
No Brasil, mulheres vĂtimas de abuso ou importunação podem acionar a Central de Atendimento Ă Mulher, no telefone 180, disponĂvel 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados. Em caso de emergĂŞncia, Ă© possĂvel pedir ajuda Ă PolĂcia Militar (190), Ă PolĂcia Civil (197) ou ao Disque DenĂşncia (181).

