Toda análise responsável sobre pesquisas eleitorais exige cautela. Pesquisas não antecipam alianças, não decidem eleições e não substituem a dinâmica política real. Elas são, essencialmente, um retrato do momento. No entanto, quando esse retrato se repete de forma consistente ao longo do tempo, atravessando conjunturas distintas e ciclos naturais de desgaste do poder, ele passa a merecer uma leitura mais qualificada. É exatamente esse o caso de Gladson Cameli no Acre.
Com a absolvição no processo judicial que o envolvia, um imbróglio que caminha para a anulação, o governador entra em uma nova etapa de sua trajetória política. Livre das amarras jurídicas, passa a exercer plenamente o papel de principal articulador e fiador político tanto da sucessão ao Governo do Estado quanto da disputa pelas vagas ao Senado em 2026.
Quem apostou em sua retirada precoce do cenário político errou. Gladson Cameli não apenas resistiu ao desgaste jurídico como saiu politicamente fortalecido. Pesquisas recentes divulgadas apontam índices elevados e recorrentes de aprovação de sua gestão, além de liderança confortável nos cenários eleitorais em que seu nome aparece. Isoladamente, esses números poderiam ser interpretados como conjunturais. O que lhes confere densidade política é a repetição ao longo do tempo, indicando uma base eleitoral sólida e resiliente.
É fundamental, contudo, fazer uma distinção técnica. Não se pode afirmar que Gladson Cameli transfira votos de forma automática. A transferência de votos nunca é mecânica. O que se pode afirmar, com maior precisão, é que ele possui elevada capacidade de influência eleitoral, fruto de sua resiliência política, de sua trajetória consolidada e de seu enraizamento local. Em um estado com dinâmica política própria como o Acre, isso representa um ativo de grande valor.
É justamente essa condição que o coloca hoje como o principal polo de poder. Não por ser melhor do que os demais atores, mas porque reúne popularidade sustentada, legitimidade eleitoral e capacidade real de influenciar decisões estratégicas. Nenhum projeto competitivo para 2026 pode ignorar sua posição.
A analogia com a série Os Donos do Jogo surge quase de forma espontânea. No roteiro da política acreana, Gladson Cameli é o personagem que concentra as cartas centrais, define o ritmo e condiciona os movimentos dos demais atores. Com o capítulo jurídico praticamente encerrado, abre-se para ele uma decisão decisiva: quem apoiar na disputa pelo governo do estado.
Nos próximos meses, o governador terá diante de si um dilema político de alto impacto. De um lado, a possibilidade de apoiar a vice-governadora Mailza Assis, sinalizando continuidade administrativa e coesão interna. De outro, a opção pelo prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, um nome com forte presença eleitoral na capital e no interior, experiência administrativa comprovada e capacidade de diálogo com diferentes segmentos do eleitorado acreano.
Essa escolha não será apenas simbólica. Qualquer decisão reorganiza alianças, redefine estratégias e pode antecipar o desfecho da eleição antes mesmo do início oficial da campanha. O processo eleitoral ainda seguirá seu curso, mas o cenário já está delineado.
Com resiliência política testada, popularidade consistente e liberdade plena para articular o futuro, Gladson Cameli ocupa hoje uma posição singular. No Acre de 2026, ninguém entra na disputa sem considerar sua decisão. Na política, essa é a definição mais objetiva de quem realmente manda no jogo.
*Zé Américo Silva é jornalista e consultor em marketing político.

