A política tem dessas ironias que só o tempo sabe construir: no Acre de 2026, as chamadas “novidades” da eleição são, justamente, dois dos mais conhecidos e longevos personagens da cena local. Tião Bocalom (PSDB) e Jorge Viana (PT) — dois velhos caciques, dois quadros testados — voltam ao centro do tabuleiro como se fossem cartas novas em um baralho já bastante manuseado.
E não voltam por falta de opção. Voltam por força de sobrevivência política.
Durante meses, o ambiente era de descrença. Jorge Viana (PT), à frente da Apex e inserido no núcleo estratégico do governo Lula, parecia distante da disputa local. A avaliação corrente era de que não arriscaria sua posição para enfrentar um cenário adverso no Acre.
Do outro lado, Tião Bocalom viveu um processo explícito de tentativa de isolamento político. Setores do PL, aliados ao governo estadual, atuaram explicitamente para dificultar e inviabilizar sua candidatura. Nesse movimento, o senador e agora pré-candidato ao governo Alan Rick (União Brasil) também teve papel ativo, utilizando todos os meios políticos disponíveis para bloquear alternativas partidárias e reduzir o espaço de Bocalom no tabuleiro eleitoral.
A leitura dominante era direta: Bocalom não teria legenda e estaria fora do jogo antes mesmo de começar.
Ambos contrariaram o prognóstico.
Jorge Viana (PT) atende ao chamado do presidente Lula e retorna ao jogo com o peso simbólico de quem já governou e conhece profundamente o estado. Bocalom (PSDB), por sua vez, faz o movimento mais improvável: rompe o cerco, encontra abrigo no PSDB, assume o comando estadual da sigla e se posiciona como pré-candidato competitivo ao governo.
Não é apenas um retorno. É uma reconfiguração do cenário.
Porque a força de ambos não está só na viabilização das candidaturas — está no contexto que os favorece.
Há, hoje, uma fadiga evidente com o atual arranjo de poder no Acre. Lideranças importantes entram no ciclo eleitoral sob pressão. O governador Gladson Cameli (PP), com pretensões ao Senado, enfrenta questionamentos jurídicos que geram instabilidade política. O senador Márcio Bittar (PL) está longe de ser unanimidade e também convive com desgastes e controvérsias que alimentam o ambiente de incerteza.
Mais recentemente, uma operação da Polícia Federal envolvendo o deputado federal Eduardo Veloso (União Brasil) e pré candidato ao Senado, adiciona um elemento novo e sensível ao cenário: o avanço de investigações que atingem diretamente figuras com mandato e influência política.
Em política, percepção é quase tudo. E a percepção que começa a se consolidar é a de um campo governista tensionado, sujeito a sobressaltos e vulnerável a fatos novos — especialmente no terreno jurídico.
É exatamente nesse ponto que os “velhos” viram novidade.
Bocalom (PSDB) apresenta-se como gestor. Com críticas, resistências e estilo próprio, mas com uma marca concreta: mudou a paisagem urbana de Rio Branco, imprimiu ritmo administrativo e construiu uma narrativa de entrega. Em um ambiente de desconfiança, isso pesa.
Jorge Viana (PT), por outro lado, resgata a memória de um ciclo político que, para muitos, representou organização administrativa e visão estratégica. Sua entrada não é apenas eleitoral — é simbólica. Ele reposiciona o PT e reorganiza o campo progressista no estado.
Ambos ocupam espaços que estavam, até então, mal preenchidos.
E fazem isso diante de adversários que apostaram, talvez cedo demais, na inviabilização alheia — erro clássico em política.
O calendário também joga a favor da imprevisibilidade. A pré-campanha, que se intensifica entre abril e início de agosto, será o período decisivo para a consolidação ou implosão de candidaturas. As convenções partidárias vão redesenhar alianças. E a campanha oficial, a partir de 6 de agosto, encontrará um cenário possivelmente muito diferente do atual.
Até lá, investigações podem avançar, decisões judiciais podem surgir e fatos políticos podem alterar completamente a correlação de forças.
A eleição de 2026 no Acre deixa de ser uma disputa previsível para se tornar um confronto aberto, com variáveis reais: desempenho de gestão, memória política, capacidade de articulação e, sobretudo, o impacto de fatores externos.
No fim das contas, a grande lição é simples e dura: na política, ninguém está morto até que o jogo acabe.
E, no Acre, dois que foram dados como fora da partida voltaram — não como coadjuvantes, mas como protagonistas de uma eleição que promete ser tudo, menos óbvia.
*Zé Américo Silva é jornalista e consultor de marketing político
