Um levantamento tĂ©cnico feito pelo MinistĂ©rio PĂșblico do Acre (MPAC) revelou que o estado jĂĄ acumula mais de 24 mil quilĂŽmetros de vias abertas nas Ășltimas dĂ©cadas, muitas delas possivelmente associadas ao avanço do desmatamento, o que levou o ĂłrgĂŁo a instaurar um inquĂ©rito civil para investigar possĂveis irregularidades ambientais e falhas na fiscalização. As informaçÔes sĂŁo do diĂĄrio eletrĂŽnico da instituição, desta sexta-feira (24).
A investigação foi aberta pelo Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema) do MPAC, com base em um estudo produzido por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da AmazÎnia (Inpa). O documento aponta que, entre 1989 e 2025, foram identificados 24.610 km de estradas e ramais no estado, sendo que apenas 5.044 km jå existiam até o fim da década de 1980.
O dado mais alarmante, no entanto, estĂĄ no ritmo de crescimento: a malha viĂĄria avançou, em mĂ©dia, 540 km por ano nas Ășltimas dĂ©cadas, com picos ainda mais intensos em anos recentes. Em determinados perĂodos, como 2006, 2019, 2020 e 2025, a expansĂŁo chegou a 1.340 km por ano, evidenciando uma aceleração que acompanha a pressĂŁo sobre a floresta.
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Segundo o prĂłprio MinistĂ©rio PĂșblico, os nĂșmeros levantam suspeitas de irregularidades. Na portaria que instaura o inquĂ©rito, o ĂłrgĂŁo Ă© direto ao apontar indĂcios de problema estrutural:
âOs fatos noticiados indicam, em tese, possĂvel deficiĂȘncia ou omissĂŁo no exercĂcio do poder de polĂcia ambiental pelos ĂłrgĂŁos estaduais competentesâ, destaca o documento.
O relatório técnico dimensiona o crescimento e revela onde essas estradas estão sendo abertas. De acordo com o estudo, aproximadamante:
- 35% dos ramais estĂŁo em assentamentos rurais;
- 28% em propriedades privadas
- 25% em terras pĂșblicas nĂŁo classificadas
- 12% dentro de unidades de conservação
A presença de ramais em ĂĄreas protegidas Ă© um dos pontos que mais preocupam. O levantamento mostra que essa ocupação se intensificou principalmente a partir de 2019, indicando um padrĂŁo contĂnuo de avanço. Somente em 2025, foram identificados:
- 186 km de novos ramais dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes
- 67 km na Reserva Extrativista CazumbĂĄ-Iracema
Em um dos casos, um Ășnico ramal ultrapassa 20 km dentro da ĂĄrea protegida.
Para o MinistĂ©rio PĂșblico, esses dados reforçam a necessidade de investigação mais aprofundada. A promotoria destaca que a abertura de vias sem controle pode estar diretamente ligada Ă degradação ambiental:
âO estudo indica correlação entre a abertura de novos ramais e o avanço do desmatamento no Acre, sobretudo nos anos de maior expansĂŁo viĂĄriaâ.
ConexÔes além das fronteiras
Outro ponto que chama atenção no relatório é o alcance das estradas. Foram identificados 98 pontos de conexão dos ramais acreanos com outras regiÔes, incluindo:
- 72 ligaçÔes com o Amazonas;
- 19 com a BolĂvia (Pando);
- 4 com o Peru (Madre de Dios)
- 3 com RondĂŽnia
Investigação mira licenciamento e atuação do Estado
O foco do inquérito civil é claro: entender se a abertura dessas vias ocorreu com autorização legal e se houve fiscalização adequada por parte dos órgãos responsåveis.
Na decisĂŁo, o MP delimita que vai apurar:
- A abertura de ramais sem licenciamento ambiental
- A atuação de órgãos como Sema e Imac
- PossĂveis responsabilidades de agentes pĂșblicos e privados
âFica instaurado inquĂ©rito civil para apurar a abertura de estradas e ramais […] sem a devida autorização ou licenciamento ambientalâ, registra a portaria.
Além disso, o órgão jå requisitou uma série de documentos e informaçÔes, incluindo licenças concedidas, relatórios de fiscalização e autos de infração emitidos entre 2020 e 2025.
MunicĂpios concentram maior expansĂŁo
O crescimento da malha viĂĄria nĂŁo ocorreu de forma homogĂȘnea. Em 2025, trĂȘs municĂpios lideraram a abertura de novos ramais:
- Sena Madureira (284 km)
- Rio Branco (195 km)
- FeijĂł (187 km)
PrĂłximos passos
Com o inquĂ©rito aberto, o MinistĂ©rio PĂșblico deve analisar os dados coletados e decidir sobre possĂveis medidas, que podem incluir desde recomendaçÔes e termos de ajuste de conduta atĂ© o ajuizamento de açÔes civis pĂșblicas.
A investigação tambĂ©m poderĂĄ ser compartilhada com o MinistĂ©rio PĂșblico Federal em casos que envolvam ĂĄreas de competĂȘncia da UniĂŁo, como unidades de conservação federais e terras indĂgenas.

