Relatório revela exploração sexual de indígenas na fronteira do Acre

Levantamento aponta que 87% das vítimas de exploração sexual no estado são menores de idade, com casos envolvendo crianças de 4 anos

Por Fhagner Soares, ContilNet 12/04/2026

Um cenário de extrema vulnerabilidade e silenciamento estatístico marca a vida de mulheres e meninas das etnias Manchineri e Jaminawa no Acre. Segundo dados levantados pela reportagem da Revista AZMina, estas populações estão entre as principais vítimas de exploração sexual e tráfico de pessoas na tríplice fronteira entre o Brasil, Peru e Bolívia, embora os crimes raramente cheguem aos registros oficiais com o rigor necessário.

Um cruzamento de informações entre o Disque 100 e o Protocolo de Palermo revelou 3.443 casos com indícios de tráfico de pessoas no Acre entre 2020 e 2025. Contudo, a classificação oficial desse crime é inexistente nos sistemas. Em paralelo, o Observatório de Gênero do Ministério Público do Acre (MPAC) analisou 95 boletins de ocorrência (2015-2026), identificando 115 vítimas de exploração sexual. O perfil é devastador: 87% tinham menos de 18 anos e 51% estavam na faixa de 10 a 14 anos, com registros de abusos contra crianças de apenas 4 anos, todos ocorridos no contexto familiar.

O Apagamento Étnico

Apesar de representarem 3,5% da população acreana, as vítimas indígenas são invisíveis nos boletins de ocorrência. Em 54% dos registros estaduais, não há informação sobre raça ou cor. A ex-ouvidora da Defensoria Pública, Soleane Manchineri, explica que o medo do racismo faz com que muitas mulheres se declarem pardas, o que apaga sua identidade nos sistemas de segurança. Para Marina Bernardes de Almeida, do Ministério da Justiça, essa invisibilidade é o maior entrave para políticas de combate eficazes.

Aliciamento e Cárcere

O tráfico na região opera através de promessas de uma vida melhor nos centros urbanos ou no exterior. A reportagem detalhou o caso de uma jovem de 26 anos atraída para o Peru por um homem, onde acabou mantida em cárcere privado e obrigada a trabalhar em um prostíbulo. O resgate foi realizado pela própria família, sem auxílio do poder público. No destino final, é comum que as vítimas recebam novos documentos com nomes “brancos”, dificultando qualquer rastreamento.

Falta de Estrutura e Respostas

A geografia do estado e a fiscalização precária facilitam a ação criminosa. Em Assis Brasil, por exemplo, o posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mais próximo fica a 181 km, em Xapuri. Enquanto o problema persiste em pontos críticos como Serra do Divisor, Epitaciolândia e Brasiléia, órgãos estaduais demonstram lacunas: a Secretaria da Mulher informou não possuir ações específicas para o tráfico de mulheres, e a Secretaria de Assistência Social não se manifestou.

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Para Rayssa Castelo Branco, do MPAC, o desafio urgente é transformar o óbvio em dado oficial. “O desafio não é provar que o problema existe, mas sim garantir que ele seja visível nos registros e enfrentado com políticas públicas”, defende.

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