“Meu marido me fotografava nua enquanto eu dormia, e mandava para os amigos”

Por Marie Claire 28/07/2020

“Conheci Paulo* na faculdade. Estudava letras na Universidade Federal do PiauĂ­ e ele, histĂłria. Nos casamos em 1985, quando eu tinha 25 anos. Ele nunca foi muito romĂąntico nem carinhoso, como eu gostaria. Mas era um homem bom, digno, Ă­ntegro. Como sempre fui extrovertida e comunicativa, achava atĂ© ele pacato, tĂ­mido e discreto demais para o meu gosto. Mas era sĂł na rua. Sempre moralista, em casa era Paulo quem ditava as regras. Com os filhos tambĂ©m sempre foi conservador e metĂłdico. Ciumento, vivia me diminuindo. Dizia que eu era uma ‘Maria ninguĂ©m’, um nada.

HĂĄ cerca de oito anos, comecei a reparar que ele nĂŁo saia das salas de bate-papo na internet. Mas, de uns trĂȘs anos pra cĂĄ, a coisa sĂł piorou. Paulo passava horas e horas trancado no banheiro ou no quarto e, quando o questionava, dizia que estava fazendo pesquisas para o trabalho. E ainda me atacava, falava que eu estava criando coisas na minha cabeça.

Até que, em maio deste ano, hå quase dois meses em quarentena, ele estava no celular dentro do carro, na garagem do nosso condomínio, e me aproximei sem ser notada. Paulo tomou um baita susto quando me viu e tentou disfarçar. Desligou imediatamente o celular, mas eu jå tinha visto tudo: meu marido estava enviando fotos minhas sem roupa por WhatsApp. Desde menina, tenho o costume de dormir sem calcinha. Os mais antigos, aqui da nossa região, no Piauí, diziam que era bom para deixar a vagina respirar. E eram justamente essas imagens que ele compartilhava, sabe-se lå com quem.

NĂŁo consigo expressar em palavras o que senti. Talvez porque, naquele momento, nĂŁo consegui distinguir o que se passava dentro de mim. Decepção, raiva, nojo… AlĂ©m de uma enorme dor no peito e muito, muito medo. Quem era aquele homem com quem vivia havia 35 anos? O que se passava pela cabeça dele, de que mais era capaz? A sensação era de ter levado uma facada no peito, bem no meio do coração.

Desesperada e sem parar de chorar, subi para o meu apartamento e contei tudo para os nossos filhos [dois homens e uma mulher]. Os trĂȘs ficaram em choque. Poucos minutos depois, Paulo entrou em casa de cabeça baixa. Na frente de todos, me pedia perdĂŁo repetidamente e implorava por uma nova chance. Sem nem conseguir olhar para os filhos, jurava que isso nunca mais aconteceria. Em meio Ă quela loucura, confessou que ele e outro homem trocavam fotos de suas respectivas mulheres despidas, sempre clicadas sem consentimento, quando estĂĄvamos dormindo. Claramente, acreditava ser meu dono, e dizia se tratar apenas de um fetiche, como ele mesmo dizia, nada demais.

No dia seguinte, juntei suas roupas, com a ajuda de nossa filha, e pedi que fosse embora de casa. E assim ele fez, cabisbaixo e sem dizer uma palavra.

TrĂȘs dias depois, decidi denunciĂĄ-lo. Me orientaram a fazer primeiro uma queixa virtual e depois um atendimento presencial na delegacia para crimes digitais. A medida protetiva, que o proĂ­be de se aproximar a menos de 300 metros de mim, saiu oito dias depois, em 30 de junho — e foi assinada pelo juiz da 5ÂȘ Vara de ViolĂȘncia DomĂ©stica e Familiar Contra a Mulher.

Soube que Paulo foi morar na casa de uma irmĂŁ, mas nunca mais tivemos contato. Recentemente, ele ainda tentou se aproximar da minha filha, mas nunca foi atendido. Ela estĂĄ arrasada, envergonhada e nĂŁo quer ver o pai nem pintado de ouro.

Quando conto, as pessoas custam a acreditar. Um cara tĂŁo sisudo, moralista e cheio de normas em casa fazer uma coisa dessas com a prĂłpria mulher Ă© realmente bizarro. Sei que minhas fotos nuas jĂĄ podem ter rodado o mundo, e sĂł quero que ele pague pelo que fez. Porque a dor que senti nunca mais terei como apagar.”

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