Mineiro, que mora no Acre há pouco mais de 15 anos, o delegado de polĂcia Civil SĂ©rgio Lopes, de 46 anos de idade, Ă© o prefeito de Epitaciolândia, um dos mais novos municĂpios do Estado, com 31 anos de fundação. Em busca de seu segundo o mandato, o prefeito eleito pelo PSDB, aliado dos irmĂŁos Major Rocha, ex-vice-governador do Estado e da ex-deputada federal Mara Rocha, que já nĂŁo sĂŁo mais do Partido, diz que Epitaciolândia foi o municĂpio do Acre que mais se desenvolveu nos Ăşltimos dez anos, “apesar dos prefeitos que teve”.
O gestor crĂticou duramente seus antecessores, diz que pegou o municĂpio com R$ 60 milhões em dĂvidas e tambĂ©m está em rota de colisĂŁo com a Câmara de Vereadores, cuja mesa diretora, segundo ele, Ă© composta por parlamentares que respondem a uma sĂ©rie de processos por crimes que incluem atĂ© estupro de vulnerável. Com seu jeito de policial, ainda assim, ele diz que gosta da função de prefeito e que vai buscar um segundo mandato como candidato Ă reeleição.
A seguir, os principais trechos de uma entrevista exclusiva ao ContilNet:Â Â Â
Prefeito, estatĂsticas de vários ĂłrgĂŁos tanto da iniciativa privada como da área pĂşblica, mostram que Epitaciolândia foi o municĂpio acreano que mais cresceu nos Ăşltimos 20 anos. Com 31 anos de emancipação polĂtica, o municĂpio Ă©, no entanto, o que tem sua infraestrutura mais deficitária, com as ruas sem pavimentação, esburacadas e uma contradição entre infraestrutura e desenvolvimento. Na sua avaliação, qual Ă© a causa disso: inĂ©rcia da Prefeitura, incompetĂŞncia do prefeito ou o quĂŞ?Â

Sérgio Lopes | Foto Tião Maia
SĂ©rgio Lopes – NĂłs herdamos uma Prefeitura em que tivemos de fato este crescimento econĂ´mico em que o crescimento em infraestrutura nĂŁo foi correspondente, na mesma proporção. Embora sejamos de fato um dos municĂpios mais novos do Acre, com apenas 31 anos de emancipação polĂtica, tivemos este crescimento palpável, mas costumo dizer que Epitaciolândia foi um municĂpio que cresceu apesar dos prefeitos que tivemos no passado, desde a fundação do municĂpio.
Antes do senhor, o municĂpio teve trĂŞs ex-prefeitos: Luiz Hassem, TiĂŁo Flores, JosĂ© Ronaldo e Andre Hassem. O senhor diria entĂŁo que a responsabilidade pela situação em que se encontra o municĂpio, Ă© de seus antecessores?
SĂ©rgio Lopes – NĂŁo quero fulanizar o debate, mas posso dizer que um municĂpio do tamanho do nosso, eu recebi a Prefeitura com R$ 60 milhões em dĂvidas. Uma dĂvida muito grande e alta para um municĂpio tĂŁo pequeno e com tĂŁo pouco tempo de fundação.
DĂvidas de quĂŞ ? O senhor poderia dizer?
SĂ©rgio Lopes – DĂvidas com INSS, com a Receita Federal, de energia elĂ©trica, trabalhistas com servidores…
Então, ninguém pagava nada. E para onde foi este dinheiro?
SĂ©rgio Lopes – NĂŁo sei… SĂł com servidores pĂşblicos o municĂpio, antes da minha gestĂŁo, contraiu dĂvidas da ordem de R$ 17 milhões. O Ăşltimo gestor, que nĂŁo vou citar o nome [TiĂŁo Flores, do PP], fez um emprĂ©stimo junto Ă Caixa EconĂ´mica Federal, no valor de R$ 7,5 milhões. Para se pagar uma dĂvida desta, que foi dividida em muitos anos, a Prefeitura vai ter que pagar mais de R$ 20 milhões.
Atualmente, o senhor paga quanto por mĂŞs em relação Ă totalidade dessas dĂvidas atrasadas ?
SĂ©rgio Lopes – Pago mais de R$ 500 mil por mĂŞs. SĂŁo dĂvidas pagas com recursos da arrecadação prĂłpria. nĂŁo se pode pagar dĂvidas com recursos de convĂŞnios ou de emendas. O que fizeram com o municĂpio de Epitaciolândia foi um absurdo, principalmente a Ăşltima gestĂŁo que, sĂł ela, acumulou mais de R$ 30 milhões em dĂvidas e Ă© responsável por mais da metade da totalidade da dĂvida do municĂpio. Mas nĂłs já conseguimos pagar cerca de R$ 13 milhões desta dĂvida.
Afora as dĂvidas, qual Ă© a maior dificuldade enfrentada por sua gestĂŁo?
SĂ©rgio Lopes – SĂŁo as vias urbanas. Mas estamos conseguindo enfrentar o problema – nĂŁo na velocidade que gostarĂamos de imprimir de acordo com a necessidade da nossa população. Estamos vencendo e eu devo dizer, por uma questĂŁo de justiça, ainda com ajuda de emendas da entĂŁo deputada federal Mara Rocha. Graças a recursos que ela nos conseguiu, adquirimos recentemente maquinário para a secretaria municipal de obras.
Quantos quilĂ´metros de ruas esburacadas, dos problemas de infraestrutura, tem o municĂpio de Epitaciolândia?
SĂ©rgio Lopes – NĂŁo posso no momento precisar o total, mas o que posso dizer Ă© que nĂłs precisamos avançar principalmente no que diz respeito Ă pavimentação de ruas, assim como precisamos tambĂ©m avançar na infraestrutura dos ramais. NĂłs avançamos muito, mas Ă© preciso fazer mais ainda. Precisamos avançar na infraestrutura das nossas escolas e em várias unidades de saĂşde. NĂłs estabelecemos um critĂ©rio de pagar todos os direitos dos trabalhadores em relação ao piso salarial da educação…
Mas o senhor responde a um processo de afastamento do cargo proposto pela Câmara de Vereadores. O que tem a dizer sobre isso?Â
Sérgio Lopes – Eu não respondo a processo de cassação..
E o que aconteceu, que o senhor chegou a ser anunciado como um prefeito cassado, coisa registrada faz menos de dois meses?
SĂ©rgio Lopes – O que aconteceu foi que vereadores maus intencionados chegaram a propor uma CPI visando nossa cassação, mas, em menos de 30 dias, eles tiveram que recuar e arquivar o pedido de CPI porque entenderam que nĂŁo havia fundamento nenhum para uma cassação. A repercussĂŁo em relação Ă quele pedido de cassação aqui em Epitaciolândia foi muito negativa para a Câmara de Vereadores, porque no pedido onde cassação, nĂŁo seria possĂvel porque nĂŁo havia ato de corrupção. Por isso, usando o linguajar popular, os vereadores tiveram que enfiar o rabo entre as pernas. Dentro do municĂpio de Epitaciolândia, a repercussĂŁo foi muito negativa para a Câmara Municipal. Quero registrar que, apĂłs esse episĂłdio, o presidente da Câmara foi afastado do cargo por decisĂŁo judicial. O processo corre em segredo de justiça, mas algumas coisas a gente fica sabendo. O vice-presidente, que assumiu a presidĂŞncia (eu nĂŁo quero aqui falar nomes, mas as pessoas sabem de quem estou falando), já foi condenado em terceira instância pelo crime de estupro de vulnerável. É o que consta dos autos e o crime se reveste de mais gravidade porque, no ato do crime, para executar o crime, ele teria utilizado um carro da Câmara Municipal de Epitaciolândia. Eu acredito – mas quem vai determinar o destino dele Ă© a Justiça, que ele sairá da Câmara Municipal preso porque a lei fala que, no crime pelo qual ele já foi condenado, a pena Ă© de no mĂnimo 11 anos e o começo do cumprimento Ă© em regime fechado. O outro vereador que representou contra minha pessoa responde a inquĂ©rito por violĂŞncia domĂ©stica, por espancar a esposa, segundo inquĂ©rito policial que eu presidi na Ă©poca como delegado de PolĂcia Civil.Â
O senhor o prendeu?
SĂ©rgio Lopes – NĂŁo, nĂŁo fui eu que o prendeu. Ele foi preso por agredir a sua esposa. EntĂŁo, veja que tipo de vereadores eu estou enfrentando. A mesa diretora da Câmara Municipal nunca teve entre seus integrantes vereadores com tantos problemas como tĂŞm esses aĂ.Â
E como Ă© possĂvel a convivĂŞncia entre vereadores com essas extensas fichas criminais com o prefeito que Ă©, na essĂŞncia, um delegado de polĂcia?Â

Sérgio Lopes | Foto Tião Maia
SĂ©rgio Lopes – A convivĂŞncia Ă© possĂvel porque eles fazem o trabalho deles e eu, faço o meu. Eu nĂŁo mando para a Câmara nenhum projeto de caráter absurdo, como aquele do emprĂ©stimo de R$ 7 milhões que foi aprovado pela Câmara, diga-se de passagem. Aqueles que tentaram prejudicar nossa administração com atitudes meramente politiqueiras, tiveram, na gestĂŁo anterior, oportunidade de impedirem o endividamento do municĂpio e nĂŁo o fizeram. Quando assumi, por causa de omissões de vereadores tambĂ©m, o municĂpio de Epitaciolândia respondia a mais de 1 mil processos, 1.080 para ser mais preciso, na Justiça – hoje nĂłs temos com menos de 300 processos porque conseguimos reduzir em mais de 80% dos processos. Conseguimos isso com uma polĂtica de respeito aos servidores. Se o servidor tem direito, nĂłs antecipamos e pagamos antes que ele procure a Justiça para garantir o direito que tem.
E todos esses processos que o senhor encontrou eram da esfera trabalhista? SĂ©rgio Lopes – Eram em sua maioria, mas havia alguns tambĂ©m da Justiça comum. Â
O senhor Ă© um delegado de polĂcia cuja formação básica visa, quase sempre, prender, se antecipar aos crimes. Mas as atividades de prefeito, de gestor e polĂtico, Ă© algo bem diferente, visando sempre garantir direitos e o bem comum. NĂŁo Ă© uma contradição entre uma atividade e outra?
SĂ©rgio Lopes – NĂŁo vejo assim. Entendo que as duas atividades, embora diferentes, tĂŞm papel social relevante. Penso que, enquanto delegado de polĂcia, eu conseguia atender a sociedade apenas na área da segurança pĂşblica, enquanto que, como prefeito, posso atuar e servir nos mais diversos segmentos da sociedade e nĂŁo me limitar apenas à área da segurança pĂşblica, o que fazia como delegado. Um exemplo disso Ă© que podemos dizer que a saĂşde de Epitaciolândia Ă© a melhor saĂşde do Acre. E nĂŁo Ă© eu que faz essa avaliação. A avaliação Ă© do MinistĂ©rio da SaĂşde.
Mas como o municĂpio pode ter melhor saĂşde do Acre se nĂŁo dispõe sequer de um hospital e que seus casos de saĂşde mais graves tĂŞm que os pacientes serem levados para BrasilĂ©ia ou mesmo para Rio Branco?
SĂ©rgio Lopes – Mas o hospital nĂŁo Ă© da competĂŞncia dos municĂpios. NĂŁo temos hospital, mas temos oito unidades de saĂşde e o municĂpio Ă© responsável pela atenção básica. É neste sentido que o MinistĂ©rio da SaĂşde diz que estamos Ă frente dos demais municĂpios, observando uma sĂ©rie de metas que precisam ser atingidas para a obtenção de notas. Sai uma nota de avaliação quadrimestral. Nessa avaliação, antes de eu assumir a Prefeitura, Epitaciolândia era a 23ÂŞ posição em relação ao Estado, com uma nota de 2.5, numa escala de 10. Hoje, estamos com 9.01, a melhor nota estadual, a que mais se aproxima das metas estabelecidas pelo MinistĂ©rio da SaĂşde no Acre e uma das melhores para a regiĂŁo Norte. A nossa Educação, alĂ©m da parte estruturante de melhoria de salário dos nossos professores – e quando assumimos os nossos professores tinham o pior salário em nĂvel estadual -, os professores de Epitaciolândia tĂŞm o melhor salário do Estado. A nossa Educação Ă©, hoje, a terceira melhor educação em nĂvel estadual.
O senhor foi eleito pelo PSDB, que era aliado do governador Gladson Cameli e depois, num certo perĂodo, por influĂŞncia dos irmĂŁos Rocha, o Major Rocha e a entĂŁo deputada federal Mara Rocha, passou a fazer oposição ao Governo e ao governador. E agora, como está a relação já que os irmĂŁos Rocha nĂŁo estĂŁo mais no PSDB?
SĂ©rgio Lopes – Que fique registrado de uma vez por todas: eu nunca briguei com o governador. A verdade Ă© que o PSDB sempre esteve na base do Governo e permanece.Â
Mas o senhor era aliado dos irmĂŁos Rocha, que eram dirigentes do MDB e faziam oposição e denĂşncias contra o governador.Â
SĂ©rgio Lopes – Eu nĂŁo posso negar que sou aliado da Mara e muito agradecido porque ela foi a deputada que mais mandou recursos para Epitaciolândia em toda a sua histĂłria. EntĂŁo eu nĂŁo poderia ser ingrato com ela. Eu sempre consegui estabelecer diferenças entre as relações polĂticas e institucionais. Em polĂtica, sempre fui aliado da Mara e nĂŁo há como negar nem que eu quis um dia negar isso. O problema Ă© que o Governo do Estado nunca entendeu isso.
E como Ă© hoje sua relação com o governador?   Â
Sérgio Lopes – Não é boa. E não é por culpa minha, mas dele que sempre elevou esta minha aliança com Mara Rocha para o lado pessoal e por isso o Governo do Estado esqueceu Epitaciolândia. Eu pergunto: qual a obra que o Governo Gladson Cameli fez em Epitaciolândia?
Essa ponte sobre o rio Acre, o Anel Viário, no valor de mais de R$ 100 milhões, onde vai dinheiro do Estado e do Governo Federal, nĂŁo conta?Â
Sérgio Lopes – É uma obra que não é em Epitaciolândia. É em Brasiléia e recursos da gestão do PT.
O senhor é candidato à reeleição?
Sérgio Lopes – Sim, sou candidato à reeleição e vamos buscar um segundo mandato.

