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Justiça ao Seu Alcance

Há pais que nunca atrasaram a pensão, mas sumiram a infância inteira

Por Roraima Rocha, ContilNet 10/08/2026 07:49
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Neste Dia dos Pais, talvez seja preciso dizer uma coisa desconfortável, há pais que pagam rigorosamente a pensão e, ainda assim, abandonam seus filhos.

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Não porque o dinheiro seja pouco importante. É indispensável.

Comida custa. Escola custa. Remédio custa. Roupa custa. Criar um filho custa muito.

Mas criança não é boleto.

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Depositar a pensão não encerra a paternidade. É apenas uma das obrigações de quem colocou alguém no mundo.

O filho também precisa do pai que pergunta como foi a escola. Que aparece na apresentação. Que sabe o nome do professor. Que conhece os amigos. Que percebe quando alguma coisa não está bem.

Precisa, sobretudo, sentir que existe alguém do outro lado.

O Direito brasileiro vem compreendendo isso há algum tempo.

Em uma decisão que se tornou referência nacional, o Superior Tribunal de Justiça resumiu a questão numa frase poderosa: “amar é faculdade, cuidar é dever.”

Essa diferença é fundamental.

Nenhuma lei consegue obrigar alguém a amar. Não existe sentença capaz de produzir carinho, abraço ou saudade.

Mas o Direito pode exigir responsabilidade.

A Constituição assegura à criança o direito à convivência familiar e impõe aos pais o dever de assistir, criar e educar seus filhos. Mais recentemente, o Estatuto da Criança e do Adolescente passou a mencionar expressamente a assistência afetiva entre os deveres parentais e a prever consequências jurídicas para o abandono afetivo.

Isso não significa que todo pai ausente será condenado a indenizar o filho.

A vida real é muito mais complicada.

Existem pais que moram longe. Outros trabalham em outra cidade ou até em outro país. Há separações difíceis, conflitos de guarda e situações em que o próprio convívio é dificultado pelo outro genitor.

Tudo isso precisa ser considerado.

O que não pode acontecer é transformar o fracasso da relação entre dois adultos em justificativa para abandonar uma criança.

Você pode deixar de amar a mãe do seu filho. Não pode deixar de ser pai por causa disso.

Os problemas entre homem e mulher pertencem aos adultos.

A criança não pediu a separação. Não participou das brigas. Não escolheu advogados. Não discutiu patrimônio. Não decidiu quem estava certo.

Por isso, não deveria pagar a conta emocional do fim daquele relacionamento.

E existe outro problema silencioso.

Às vezes, a distância física começa pequena e, aos poucos, vira distância afetiva.

O pai deixa de aparecer.

Depois deixa de ligar.

O filho pergunta quando ele vem.

Pergunta novamente.

Até que um dia para de perguntar.

E alguns adultos confundem esse silêncio com compreensão.

Talvez seja apenas desistência.

Hoje, inclusive, a tecnologia tornou algumas desculpas mais difíceis.

Uma videochamada leva minutos.

Um áudio leva segundos.

Uma mensagem dizendo “como foi sua prova?” não exige passagem aérea.

É evidente que WhatsApp não substitui abraço. Videochamada não substitui colo. Nenhuma tela ocupa o lugar da presença física quando ela é possível.

Mas, quando a distância é inevitável, essas ferramentas ajudam a preservar algo precioso que é a sensação de continuidade.

O filho precisa perceber que o pai não desapareceu da sua história.

Os tribunais brasileiros já enfrentaram casos dramáticos sobre abandono afetivo. Em alguns deles, houve condenações por danos morais diante de longos períodos de negligência e rompimento injustificado da convivência.

Não porque o Judiciário pretenda colocar preço no amor.

Mas porque determinadas ausências deixam marcas.

Ainda assim, talvez o principal debate nem seja jurídico.

É humano.

Pais não precisam ser perfeitos.

Vão esquecer compromissos. Trabalhar demais. Errar palavras. Perder a paciência. Chegar atrasados.

Filhos também não precisam de super-heróis.

Precisam de referência.

Precisam saber que, quando olharem para trás, encontrarão alguém.

Por isso, neste Dia dos Pais, talvez a pergunta mais importante não seja quanto você paga, quanto comprou ou qual presente colocou sobre a mesa.

É outra: seu filho sabe que pode contar com você?

Se mora perto, apareça.

Se mora longe, ligue, mande uma mensagem.

Se a relação com a mãe é difícil, seja adulto o suficiente para não transformar seu filho em campo de batalha.

E se percebeu que se afastou demais, procure-o.

Não espere a próxima audiência.

Não espere uma ação judicial.

Não espere o filho crescer para explicar aquilo que poderia ter sido diferente

Porque pensão atrasada ainda pode ser paga.

Infância atrasada, não.

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