Neste Dia dos Pais, talvez seja preciso dizer uma coisa desconfortável, há pais que pagam rigorosamente a pensão e, ainda assim, abandonam seus filhos.
Não porque o dinheiro seja pouco importante. É indispensável.
Comida custa. Escola custa. Remédio custa. Roupa custa. Criar um filho custa muito.
Mas criança não é boleto.
Depositar a pensão não encerra a paternidade. É apenas uma das obrigações de quem colocou alguém no mundo.
O filho também precisa do pai que pergunta como foi a escola. Que aparece na apresentação. Que sabe o nome do professor. Que conhece os amigos. Que percebe quando alguma coisa não está bem.
Precisa, sobretudo, sentir que existe alguém do outro lado.
O Direito brasileiro vem compreendendo isso há algum tempo.
Em uma decisão que se tornou referência nacional, o Superior Tribunal de Justiça resumiu a questão numa frase poderosa: “amar é faculdade, cuidar é dever.”
Essa diferença é fundamental.
Nenhuma lei consegue obrigar alguém a amar. Não existe sentença capaz de produzir carinho, abraço ou saudade.
Mas o Direito pode exigir responsabilidade.
A Constituição assegura à criança o direito à convivência familiar e impõe aos pais o dever de assistir, criar e educar seus filhos. Mais recentemente, o Estatuto da Criança e do Adolescente passou a mencionar expressamente a assistência afetiva entre os deveres parentais e a prever consequências jurídicas para o abandono afetivo.
Isso não significa que todo pai ausente será condenado a indenizar o filho.
A vida real é muito mais complicada.
Existem pais que moram longe. Outros trabalham em outra cidade ou até em outro país. Há separações difíceis, conflitos de guarda e situações em que o próprio convívio é dificultado pelo outro genitor.
Tudo isso precisa ser considerado.
O que não pode acontecer é transformar o fracasso da relação entre dois adultos em justificativa para abandonar uma criança.
Você pode deixar de amar a mãe do seu filho. Não pode deixar de ser pai por causa disso.
Os problemas entre homem e mulher pertencem aos adultos.
A criança não pediu a separação. Não participou das brigas. Não escolheu advogados. Não discutiu patrimônio. Não decidiu quem estava certo.
Por isso, não deveria pagar a conta emocional do fim daquele relacionamento.
E existe outro problema silencioso.
Às vezes, a distância física começa pequena e, aos poucos, vira distância afetiva.
O pai deixa de aparecer.
Depois deixa de ligar.
O filho pergunta quando ele vem.
Pergunta novamente.
Até que um dia para de perguntar.
E alguns adultos confundem esse silêncio com compreensão.
Talvez seja apenas desistência.
Hoje, inclusive, a tecnologia tornou algumas desculpas mais difíceis.
Uma videochamada leva minutos.
Um áudio leva segundos.
Uma mensagem dizendo “como foi sua prova?” não exige passagem aérea.
É evidente que WhatsApp não substitui abraço. Videochamada não substitui colo. Nenhuma tela ocupa o lugar da presença física quando ela é possível.
Mas, quando a distância é inevitável, essas ferramentas ajudam a preservar algo precioso que é a sensação de continuidade.
O filho precisa perceber que o pai não desapareceu da sua história.
Os tribunais brasileiros já enfrentaram casos dramáticos sobre abandono afetivo. Em alguns deles, houve condenações por danos morais diante de longos períodos de negligência e rompimento injustificado da convivência.
Não porque o Judiciário pretenda colocar preço no amor.
Mas porque determinadas ausências deixam marcas.
Ainda assim, talvez o principal debate nem seja jurídico.
É humano.
Pais não precisam ser perfeitos.
Vão esquecer compromissos. Trabalhar demais. Errar palavras. Perder a paciência. Chegar atrasados.
Filhos também não precisam de super-heróis.
Precisam de referência.
Precisam saber que, quando olharem para trás, encontrarão alguém.
Por isso, neste Dia dos Pais, talvez a pergunta mais importante não seja quanto você paga, quanto comprou ou qual presente colocou sobre a mesa.
É outra: seu filho sabe que pode contar com você?
Se mora perto, apareça.
Se mora longe, ligue, mande uma mensagem.
Se a relação com a mãe é difícil, seja adulto o suficiente para não transformar seu filho em campo de batalha.
E se percebeu que se afastou demais, procure-o.
Não espere a próxima audiência.
Não espere uma ação judicial.
Não espere o filho crescer para explicar aquilo que poderia ter sido diferente
Porque pensão atrasada ainda pode ser paga.
Infância atrasada, não.
