Decisão dos EUA sobre facçÔes tenta limitar soberania do Brasil

Por AgĂȘncia Brasil 29/05/2026 Ă s 17:59

A decisĂŁo do governo dos Estados Unidos (EUA) de classificar facçÔes criminosas brasileiras como terroristas Ă© consequĂȘncia da nova doutrina do governo Donald Trump para AmĂ©rica Latina, que impĂ”e uma “soberania limitada” aos paĂ­ses da regiĂŁo. A avaliação Ă© de especialistas em geopolĂ­tica, economia e relaçÔes internacionais consultados pela AgĂȘncia Brasil.

Para esses analistas, a medida teria o objetivo de subordinar as decisÔes do Brasil aos interesses de Washington, podendo servir de pretexto para intervençÔes políticas.

NotĂ­cias relacionadas:Lula cobra respeito e rejeita interferĂȘncia dos EUA.Brasil Ă© quem define como combate e classifica o crime, diz Planalto .É factoide do clĂŁ Bolsonaro para desviar do caso Master, diz Alckmin .O professor de relaçÔes internacionais da Universidade de SĂŁo Paulo (USP) Paulo Borba Casella avalia que, a partir dessa classificação, Trump pode fazer o mesmo que fez com o presidente da Venezuela, NicolĂĄs Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, sequestrados em Caracas no dia 3 de janeiro.

“O enquadramento como organização terrorista, pela lei americana, permite que o governo dos EUA ataque agentes de tais entidades, sem necessidade de declaração de guerra, nem autorização do Congresso dos EUA”, afirma o especialista.

O cientista polĂ­tico especialista em relaçÔes internacionais Francisco Carlos Teixeira da Silva argumenta que a decisĂŁo Ă© parte da “doutrina da soberania limitada” que vem sendo aprofundada pelo governo Trump.

“Os EUA estabelecem o fato de que os paĂ­ses da AmĂ©rica Latina tĂȘm soberania limitada pelos interesses americanos. E eles podem intervir sempre que acharem necessĂĄrio, conforme os parĂąmetros americanos”, disse o professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ă  AgĂȘncia Brasil.

Em novembro de 2025, o governo Trump publicou a nova EstratĂ©gia Nacional de Segurança Nacional definindo que os EUA deveriam afirmar sua “proeminĂȘncia” sobre a AmĂ©rica Latina.

Para o analista Francisco Carlos Teixeira da Silva, o objetivo de Washington com essa polĂ­tica â€œĂ© quebrar a independĂȘncia dos paĂ­ses e colocar os Estados Unidos novamente na frente da hegemonia nas AmĂ©ricas”.

Especialistas em geopolĂ­tica apontam que a nova fase mais agressiva na polĂ­tica externa dos EUA Ă© uma consequĂȘncia da crescente influĂȘncia econĂŽmica e tecnolĂłgica da China, e parte da disputa para manter o controle e liderança da economia mundial.

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Soberania do México violada

Além dos casos da Venezuela e Cuba, o historiador Teixeira cita o caso do México, que também teve facçÔes que atuam no território classificadas como terroristas, como o cartel de Jalisco.

“Logo em seguida, os EUA enviaram uma equipe da CIA [AgĂȘncia de InteligĂȘncia dos EUA] para dentro do MĂ©xico sem autorização. Os exemplos imediatos desses meses mostram que a classificação [de organizaçÔes como terroristas] nĂŁo vem sozinha, ela vem com consequĂȘncias”, completa.

A morte de dois agentes da CIA no México em um acidente de carro, em abril deste ano, irritou o governo de Claudia Sheinbaum, pois a infiltração dos agentes não tinha autorização, nem conhecimento, do governo central do país.

Políticas domésticas subordinadas a Washington

Para o professor de economia internacional da UFRJ Luiz Carlos Prado, a decisão do governo Trump, apoiada por grupos políticos no Brasil, vai na direção de impor ao Brasil uma soberania limitada.

“Significa que o Brasil nĂŁo deve ser um paĂ­s soberano, que a soberania do Brasil estĂĄ subordinada ao poder polĂ­tico americano, e que o Brasil nĂŁo deve, portanto, ter uma diplomacia, ter polĂ­ticas autĂŽnomas a partir dos seus interesses domĂ©sticos e das suas pretensĂ”es domĂ©sticas. O Brasil deve ser uma espĂ©cie de aliado menor sobre a liderança americana”, avalia.

Prado argumenta que a designação de facçÔes como terroristas permite indicar outros grupos internos no Brasil, entre eles movimentos sociais, como apoiadores do terrorismo, ainda que sem apresentar provas ou indícios.

“Os EUA podem, de alguma maneira, designar ou indicar que determinados grupos internos, por razĂ”es polĂ­ticas, dĂŁo apoio a essas organizaçÔes, agora consideradas terroristas por Washington. Portanto, passam a ter uma motivação, ou uma desculpa, para poder reprimir determinados segmentos especĂ­ficos.”

O professor da UFRJ lembra que os EUA tĂȘm dificuldade em reconhecer a soberania dos outros paĂ­ses, alĂ©m de ter uma postura de nĂŁo respeitar tratados internacionais.

“Essa decisĂŁo aumenta a margem de manobra e de pressĂŁo sobre o Brasil. É a antiga tradição americana de usar, vamos dizer assim, argumentos que nĂŁo podem ser, em princĂ­pio, comprovados para justificar intervençÔes”, comenta.

O analista Luiz Carlos Prado acrescenta que os ataques ao LĂ­bano e Ă  SĂ­ria, por exemplo, costumam ser justificados por essas ĂĄreas serem controladas, na visĂŁo dos EUA, por organizaçÔes terroristas. “Eles dĂŁo uma razĂŁo jurĂ­dica para uma intervenção polĂ­tica.”

 


ConteĂșdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por Lucas Pordeus LeĂłn – RepĂłrter da AgĂȘncia Brasil

ConteĂșdo Original / Fonte: Lucas Pordeus LeĂłn - RepĂłrter da AgĂȘncia Brasil

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